sexta-feira, 30 de abril de 2010

Leve exercício... para descomprimir e tirar a ferrugem

“Entrou num comboio e vai viajar. O único lugar vago é ao pé de outra pessoa. Começam a conversar. A outra pessoa convence-o a ir para o mesmo sítio para onde ela vai.”

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O COMBOIO

Acto Único – Cena Única

Pessoa: Bom dia.

Outra Pessoa (Sisudo): Bom dia!

Pessoa (Com cuidado no falar): Este lugar está vago?

Outra Pessoa (Irónico): Está a brincar. Claro que não. Não vê aí sentado o… meu chapéu?

Pessoa faz um gesto de desagrado pela brincadeira e volta o rosto à procura de outro lugar para sentar-se.

Outra Pessoa: Vá, não ligue. Estava a brincar consigo. Pode sentar-se aqui.

Pessoa (Sentando): Obrigado. Isto, hoje, está mesmo cheio…

Outra Pessoa: Sim, é verdade. É o feriado prolongado. Nestas ocasiões todos querem visitar os parentes. Sempre se passam momentos agradáveis.

Pessoa: Sim, de facto, mas só para quem os tem. O que não é o meu caso.

Outra Pessoa: Não? O amigo não tem família no Interior?

Pessoa: Nem no Interior, nem em lado nenhum, simplesmente não os tenho.

Outra Pessoa: Ora, isso deve ser aborrecido. Não ter ninguém para chatear...

Os dois soltam leve riso.

Pessoa: Tem um lado bom e outro mau, como em tudo.

Outra Pessoa: Pois… Olhe, no meu caso deve ser boa esta viagem, vou rever alguns parentes que não vejo há meses, pois estive fora do país algum tempo.

Pessoa: E eu vou apenas espairecer, conhecer novos lugares, tirar fotografias, sou um amante da fotografia, e ainda utilizo um velho equipamento manual, não sou chegado a modernices.

Outra Pessoa: Pois devia experimentar uma câmera digital, o meu filho tem uma e posso lhe garantir que é muito prática. Tem a vantagem de se poder ver imediatamente o que se fez, basta ter um computador e pronto.

Pessoa: Não, obrigado. Nem pensar. Prefiro “sentir” a câmera, o cuidado em focar, em procurar a luz correcta, em saber trabalhar com as sombras. E, depois, já não tenho idade para computadores.

Outra Pessoa: Que disparate. Mas, deixe lá. O amigo vai para onde? Se é que não se importa em falar sobre isso.

Pessoa: Não me importo nada. Vou para uma pequena aldeia perto de Guimarães. Estou a fazer um livro sobre algumas aldeias portuguesas e aquela possui algumas características que são interessantes de explorar. Espero voltar de lá com um bom material. Levo cerca de vinte rolos de filme, devo com isso conseguir uma boa meia-dúzia de imagens com qualidade de publicação.

Outra Pessoa: Interessante. Pois, eu vou mesmo para Guimarães. Não devo sair de lá, os irmãos, os sobrinhos, enfim, a família, deve tomar toda a minha atenção.

Pessoa: É uma bela cidade. Já a fotografei, em tempos idos. Boas imagens.

Outra Pessoa: Olhe, convido-o a vir almoçar connosco no domingo. O que acha?

Pessoa: Agradeço o convite, mas não quero desviar a atenção daquilo que pretendo.

Outra Pessoa: Ah. Deixe disso. É só um almoço.

Pessoa: Não, obrigado. Não me leve a mal. Mas se o amigo fizer muita questão no almoço, poderia ser na aldeia para onde vou, sempre saía da rotina de uma cidade grande. Apanhar “a fresca” no campo é deveras interessante, especialmente para pessoas, como o amigo, que nunca abandonam uma Capital.

Outra Pessoa: Como sabe que nunca abandono uma Capital?

Pessoa: Pelo “jeito cosmopolita” que possui.

Outra Pessoa: Acha-me com jeito cosmopolita?

Pessoa: Sim.

Outra Pessoa: Pois bem, saiba que não me revejo no que diz. Sou um homem de hábitos simples e visto-me de maneira modesta.

Pessoa: O que não impede de ter um jeito cosmopolita, mas isso também não importa. Vá, o que me diz do convite?

Outra Pessoa: Não será possível, tenho a família à espera. Mas faço muito gosto em tê-lo por lá. Faça as suas fotografias e depois venha ao nosso encontro, passaremos um dia agradável. Como o amigo não tem parentes próximos deve sentir uma certa falta daquela comidinha caseira de casa dos pais ou avós, estou enganado?

Pessoa: Em parte. Fui criado por um avô. Sem pais ou demais parentes. Quando esse avô partiu fiquei completamente só. E como não cheguei a casar, só, continuo.

Outra Pessoa: Caramba, não deve ter tido uma infância fácil…

Pessoa: A minha infância foi modesta, meu avô trabalhava para o sustento do lar, tivemos uma senhora que tratava dos assuntos domésticos, mas não ficava connosco. Quando o meu avô chegava do trabalho e eu da escola, pelo que me lembro, ficávamos sozinhos. Foram bons momentos, apesar de tudo. Quando fiquei só no mundo estava já com trinta e poucos anos, tinha um emprego e muitos sonhos. Nada realizei. Por isso dediquei-me, depois da reforma, ao hobby de fotógrafo. E tenho feito algumas fotografias bonitas. Tanto que já publiquei um livro e estou a caminho de outro.

Outra Pessoa: Muito bem. Diga-me, qual o título do que tem publicado? Quem sabe o encontro em alguma livraria.

Pessoa: Não se preocupe em procurar, não encontrará. Os poucos exemplares ainda disponíveis estão comigo. A edição está praticamente esgotada. Deixe-me, depois, a sua morada que o enviarei com todo o gosto.

Outra Pessoa: Ora, não o quero maçar com isso, mas se faz questão, aceito a oferta.

Pessoa: Não é maçada nenhuma. Sabe, é muito difícil a edição de livros em nosso país, dos poucos leitores que temos a maioria só consome aquilo que não interessa, e as livrarias estão abarrotadas de muito lixo. As publicações ligadas à fotografia possuem um público muito especial, sei disso porque quando publiquei o meu livro anterior comecei a conhecer esse mundo, a vê-lo de perto, a perceber coisas que nunca havia percebido.

Outra Pessoa: Acredito. Eu sempre fui um leitor razoável, nunca um consumidor compulsivo, isso não. As minhas compras literárias aconteceram sempre mediante um certo gosto por este ou aquele autor. Confesso que de fotografia não tenho nada. Sobre pintura possuo dois títulos, e que não são portugueses.

Pessoa: Quem sabe, depois de conhecer o que faço não se transforma num admirador dos livros de fotografia.

Outra Pessoa: Quem sabe…

Pessoa: O nosso país possui recantos agradabilíssimos, lugares de grande beleza para a arte da fotografia. Dá gosto guardar imagens de determinados pontos do país.

Outra Pessoa: Lá isso é verdade.

Pessoa: (Com uma certa curiosidade na voz, retirando uma carteira do bolso do casaco, e de dentro desta, uma fotografia muito antiga) O amigo, que parece ser um homem esclarecido, poderia dizer-me se conhece esta imagem, a preto e branco, que lhe vou mostrar?

Outra Pessoa: Ora, mostre-me, pode ser que conheça.

Pessoa: Já a tenho há muitos anos, e sempre na minha carteira. Nunca consegui descobrir o que é ou onde está, pois como pode reparar só se percebe uma pequena mancha numa superfície, que parece ser, talvez, um tronco de árvore.

Outra Pessoa: (Já com a fotografia na mão e analisando-a com muito cuidado) Bom… Isto não me é estranho, sinceramente, mas, o problema é que não se vê lá grande coisa… e além do mais a fotografia é muito velha… espere… eu conheço, eu realmente conheço isto.

Pessoa: Ai sim? Então diga-me.

Outra Pessoa: Bom, parece que o amigo vai mesmo almoçar comigo.

Pessoa: Sim? E porquê?

Outra Pessoa: Porque isso que está a ver é um elmo, e ele faz parte de um conjunto escultórico existente num terreno chamado de “Campo da Ataca”, em São Torcato, Guimarães, neste local, segundo a tradição, ocorreu o início da Batalha de São Mamede (de que saiu vitorioso D. Afonso Henriques, o nosso primeiro Rei) no dia 24 de Junho de 1128, data esta que é, por muitos historiadores, considerada como o “dia 1 de Portugal”.

Pessoa: Vejo que o amigo é um homem de muita cultura. Pois bem, como estou realmente curioso para conhecer o local, aceito o seu convite para almoçar, porém com ligeira alteração na programação: ao invés de ser no domingo, peço-lhe para que seja hoje mesmo, pois estou curiosíssimo para ver esse local que me está a indicar.

Outra Pessoa: Perfeito. Está combinado. Aviso os meus parentes de que vamos directamente para São Torcato. E o almoço, depois se vê, pois deve existir por lá algum recanto pitoresco, com uma boa comida caseira.

Pessoa: Muito bem. Quem sabe é agora que consigo revelar o segredo existente nesta imagem, que o amigo diz ser uma parte de um elmo, e, ainda por cima, com uma representatividade muito grande na história de Portugal.

Outra Pessoa: Quem sabe, quem sabe…

FIM

1 comentário:

Joana Soares disse...

Fizeste-me lembrar uma crónica escrito há umas semanas... a primeira parte pelo menos...

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