domingo, 2 de dezembro de 2012

MADALENA, A RENA PREGUIÇOSA


Era uma tarde de muito sol, e o bom velhinho andava preocupado em selecionar as renas para o Natal. Ele precisava escolher dez entre as cinquenta que se candidataram, não era tarefa fácil. Nove seriam titulares e ajudariam a puxar o trenó, e uma seria a suplente, para o caso de acontecer alguma baixa por questões de saúde, coisa muito comum nas renas natalícias, devido à inconstância das temperaturas no planeta Terra. Afinal, não é nada engraçado viajar por todo o globo terrestre numa só noite, enfrentando o verão em alguns lugares e o inverno noutros. Uma chatice. Porém…

…Depois de quase dois dias de avaliações, a escolha recaiu sobre: a Corredora, a Dançarina, a Empinadora, a Raposa, o Cometa, o Cupido, o Trovão, o Relâmpago, o Rodolfo e a Madalena. E lá foram as dez renas para os treinos.

A Corredora era a mais veloz de todas, a Dançarina parecia ter nascido com todo o conhecimento que existe sobre a música do mundo, pois dançava todos os estilos com classe e leveza, a Empinadora fazia brilhantes acrobacias no ar, a Raposa era matreira, sabendo desenvencilhar-se do maior perigo que encontrasse, o Cometa era também muito veloz, mas não conseguia perceber muito bem o significado de “curva”, o Cupido era romântico, derramado de amor por tudo e por todos, sempre querendo aproximar as pessoas, e os animais, para que fossem felizes, o Trovão era bravo, robusto, musculado, impondo respeito e mantendo a ordem, o Relâmpago era também um velocista, perito em grandes arrancadas do solo ao Céu, tanto que era ele que puxava a todos no momento sublime da escalada pelo ar, um verdadeiro e poderoso campeão em força e em rapidez, mas que possuía um único senão: quando chegava ao limite das suas forças saíam dele vários clarões que encandeavam a todos, quase parecendo um bastão de fogo de artifício, o Rodolfo era um perfeito galanteador, gostava de conquistar as renas mais bonitas e, principalmente, as solteiras, possuindo uma peculiaridade que o fazia enormemente popular: ostentava um vistoso nariz vermelho, um charme… e, por fim, a Madalena… bom… a Madalena era linda, tímida, veloz, simpática, ordeira, pontual, inteligente, porém… andava sempre calada. Nunca se ouvia, nunca proferia um som, por incrível que possa parecer: ninguém, nunca, teve o prazer de ouvir o timbre da sua voz.

A primeira semana de treinos decorre na maior normalidade. Aconteceram inúmeras palestras educativas, aulas de ballet para despertar a graciosidade de cada uma e estudos de etiqueta para lhes ensinar a levantar a cabeça com a altivez que o Natal merece. Só a Madalena teve maiores dificuldades pois era inexperiente em tudo, enquanto as outras eram já mais tarimbadas e compreendiam os ensinamentos com muito mais rapidez.

A segunda semana apresentou um certo grau de dificuldade para algumas, pois foram focados os exercícios de destreza na condução de um trenó. A Madalena foi a última a terminar a série de curvas e contracurvas obrigatórias, assumindo uma certa displicência ao ato de obedecer aos arreios que a mantinham segura ao trenó.

A terceira semana decorre com certa lentidão, pois o cansaço já era muito, sendo aprimorada a técnica da travagem brusca, coisa comum quando o bom velhinho estava a viajar pelos ares e se esquecia de parar numa chaminé. Inevitavelmente ocorria o famoso “prego a fundo” e lá iam as renas ao desespero… segurando toda a sua velocidade com as quatro patas estaticamente fincadas no ar. A Madalena, coitada, toda a vez que tinha que travar batia com o focinho na companheira que ia à frente… estava sempre distraída…

A quarta semana foi extenuante, consistindo de aulas práticas de paciência, pois, elas, as renas, precisavam de muita quando se tratava de desentalar o anafado velhinho de algum fumeiro mais apertado. Madalena, sempre ela, adormeceu em todas as aulas.

No dia 22 de dezembro estavam os presentes embrulhados e prontos para seguirem ao seu destino, pois os duendes, os gnomos e as fadas, todos ajudantes do bom velhinho, trabalharam arduamente para que tudo estivesse pronto a tempo e horas, porém, viria agora uma prova de fogo, o pai desse natalício momento decidira experimentar o trenó com o peso que teria no dia das entregas, fazendo com que as renas sentissem qual seria o grau de dificuldade que as esperava daí a dois dias. Elas, puseram-se, então, a transportar prendas do armazém nº 1 para o armazém nº 2 em trenós individuais, e a coisa correu melhor do que se esperava. Menos para a Madalena, que demorou o dobro do tempo das companheiras… pois não se conseguiu entender com o guizo colocado no seu pescoço… dizia que lhe dava sono!

No dia 23 daquele mês natalino um banho de sais manteve a boa disposição das dez renas, além de muita alfafa fresquinha e água cristalina para as goelas. Madalena adormeceu na banheira. Quando acordou, a alfafa estava murcha e a água turva.

O dia 24, o grande dia, começa de forma airosa: o bom velhinho decidira que todas as renas deveriam dar uma bela e revigorante caminhada por uma planície da Lapónia, para exercitar os músculos e oxigenar os pulmões. Assim foi. Quando voltaram, um tépido banho morno as aguardava, além de uma excelente salada de milho, aveia e alfafa. Quando voltaram, quer dizer… a Madalena não voltou… tiveram que a ir buscar a um ponto distante, pois adormecera encostada a uma pedra enorme.

Agora todos os leitores perguntam: Qual foi o motivo que levou o bom velhinho a escolher a Madalena, se ela é uma rena um pouco diferente, um pouco calada e… aparentemente preguiçosa…? A resposta é simples: Madalena é a rena da bondade. É aquela que ajuda a todos nos momentos mais difíceis, a que divide o alimento, a que auxilia os mais fracos, a que conforta os que sofrem, a que anima os que estão tristes. Madalena é só coração! E, se não bastassem essas qualidades, teve uma que a consagrou em definitivo, o bom velhinho explicou a todos, enquanto bebiam chá junto à enorme lareira da sua casa, que a Madalena era a única, entre todas as concorrentes, que sabia que o Natal é a comemoração do nascimento de um menino muito importante para a história da Humanidade, um menino chamado Jesus! E que seria ela a líder de toda a comitiva quando cruzassem os Céus.

Ah… E ele disse, também, uma coisa que fez com que todos esbugalhassem os olhos: que ela era uma espécie de Enviada de Deus, e que tinha sido o próprio Jesus a ensinar-lhe tudo o que ela sabia sobre a Bondade e o Perdão.

Pronto. Foi a loucura completa: as renas, os duendes, os gnomos e as fadas, todos, em coro, num feroz ataque de riso, humilharam-no. Um dos gnomos, retirando o chapéu e fazendo uma vénia, em tom de galhofa diz que ele deveria estar a ficar meio doidinho. Santa Claus, o bom velhinho, achou por bem “enfiar a viola no saco” e calar-se.

Madalena, que tudo tinha escutado, inconformada por ninguém levar a sério o que fora dito, ainda pensou em fazer algo para as tentar convencer, porém, desistiu da empreitada, aninhando-se junto ao crepitar do fogo.

Noite alta. Ao aproximar-se a hora em que todas as crianças devem estar a dormir profundamente, Santa Claus, o bom velhinho confirma que os trenós estão carregados com milhões de presentes, depois, vira e revira os olhos várias vezes para verificar se as renas estão a postos, se estão alimentadas, se levam mudas de roupa para o caminho. Será uma viagem rápida, a volta ao mundo deve ser feita em poucos minutos, porém, como se sabe, a inconstância da temperatura exige trajes adequados para cada setor do globo terrestre. Garboso, toma assento no trenó principal, aquele que tem Madalena na dianteira, na liderança, e, em pé, comunica que aguarda apenas que a estrela mais brilhante anuncie que chegou a hora de embarcar para o momento mais importante do ano, aquele que trará alegria ao coração de milhões de crianças.

Dito isto, um clarão dourado corta a respiração de todos, os olhos encaminham-se para o Céu constelado e, num ápice, uma estrela arisca rompe o firmamento, ouve-se ao longe o bimbalhar de uns sinos e aquilo que parece ser um choramingar infantil.

Madalena, a rena que nunca fala, a rena da bondade, a que ajuda a todos nos momentos mais difíceis, a que divide o alimento, a que auxilia os mais fracos, a que conforta os que sofrem, a que anima os que estão tristes, a que é só coração, pela primeira vez abre a boca e diz numa única frase:

- Nasceu o menino Jesus! Vamos. Temos muito trabalho pela frente.

E ela, determinada, com uma força nunca vista, com graciosidade e altivez, eleva-se, numa arrancada firme e cheia de propósito. Deixando atrás de si, como um rasto, por todos os lugares por onde passa, um tapete de flores coloridas que lhe saem das patas.

*

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

REFLEXÃO POLÍTICA



A Direita nunca se conformou com a uniformização da Sociedade!
É necessário diminuir a distância entre as classes sociais.
O "Ser Igual" incomoda à Direita bacoca, por que esta precisa de criados, de vassalos que lhes limpem as botas.
"Ser Igual" é ter uma Sociedade de Direitos Iguais! É existir Respeito! É cumprir Deveres!
O ser humano não se pode resignar, nem abaixar a cabeça às falinhas mansas
 dos que elevam a voz nos discursos ocos no Parlamento.
Portugal está a ser dominado por uma "Direita Rural", tosca e mal-formada, que não respeita a Bandeira, o Hino, e não tem orgulho de ser português.
Portugal está falido. E não é de hoje!
Não precisamos, sem dúvida, de cenas tristes como as de ontem, mas, por favor, NÃO CULPEM O POVO, CULPEM A CLASSE POLÍTICA. É ELA QUE VEM DESTRUINDO A NAÇÃO!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

WALTER WAENY (1)


Em Portugal já se anunciava a manhã. O telefone toca. Atendo com toda a naturalidade e ouço uma voz conhecida, que entre lágrimas e soluços, diz-me que está a cumprir uma obrigação, a pedido de seu pai: eu deveria ser o primeiro a receber a informação. Ouço, incrédulo. A voz custa-me a sair. Os olhos marejam. E, mais do que nunca, desejo que exista vida após a vida. Despedimos-nos. Pouso o aparelho. Fico a olhar para um Nada que teima em não sair da minha cabeça. Prevejo um dia longo, triste, solitário. Lembro-me de um verso, de outro, de muitos… a melhor homenagem, a única possível, é a que pode elevar-nos a alma, então, leio os seus poemas, em voz alta, como se estivesse a dizer-lhe que são magníficos. A saudade que sentirei do amigo será infinita. Lembro-me de outra homenagem possível: um soneto! E escrevo. Para meu espanto ele vai surgindo veloz, sem receios, avançando por entre espaços. E, num ápice, anuncio aos Céus que o Amazonas do Brasil é uma nova estrela que amanhece.

*

Às três horas da manhã do dia 4 de junho de 2006 o mundo lusófono perdeu um de seus melhores poetas, deixando de luto todos aqueles que conheciam e privavam da amizade desse grande cultor das letras.

Desde o ano de 1983 que convivia fraternalmente com essa figura ilustre. Foram vinte e três anos de encontros culturais e de admiração recíproca.

Foi pelas mãos de Walter Waeny que conheci o meio literário santista, foi pelas minhas que ele entrou no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Das dezenas de Instituições a que pertenceu essa era a mais ambicionada (apesar de possuir no currículo um infinito de organismos de alto relevo, entre eles, o Club dos Intelectuais de Paris). Depois de expor a sua magnífica obra literária aos mestres daquele Sodalício (Casa que frequentei por anos a fio, e lá deixei as maiores benquerenças), eis que surge o momento da sua vitoriosa eleição, a coroação de uma vida literária de grande talento.

Walter Waeny Júnior nasceu em São Vicente[2], cidade vizinha à minha querida Santos. Filho de Walther Joseph Waeny e Gilda Rienzi Waeny. Neto de Johannes Waeny e Fabiana Ave-Lallemant. Bisneto de Johann Jakob Waeny e Margaretha Baumann, de Alexander Ave-Lallemant e Joaquina Rosa Machado, de Michele Rienzi e Maria Caterina Sivieri, e de Vicente Minervino e Rosa Magnavita. Casou-se a 22 de maio de 1950 com a Sra. D. Maria Clélia Dias, nascendo deste feliz matrimónio numerosa prole.

Walter Waeny foi poeta, trovador, ensaísta, filósofo, prosador, contista, biógrafo, dicionarista, historiador, conferencista, antologista, declamador, teatrólogo, radialista, aforista e tradutor. Autor de mais de uma centena de livros, em prosa e verso, destacado homem de cultura, admirador do músico erudito Richard Wagner e do poeta Martins Fontes. Sendo o poeta brasileiro mais premiado de sua geração, com inúmeras medalhas de ouro em dezenas de cidades brasileiras, bem como em inúmeras cidades da Europa. Possuía o dom de ouvir e falava para ensinar. Sempre, em todas as horas de nosso convívio, foi objetivo e radical em relação à Arte. Admiro-o por isso. Defendeu acirradamente os poetas simbolistas, românticos e parnasianos, bem como os pintores e compositores anteriores a 1922 (ano da malfadada Semana de Arte Moderna em São Paulo, que veio turvar as águas culturais do Brasil). Comungávamos da mesma filosofia de vida. Admirávamos os mesmos artistas do verso e da prosa. Nossas conversas versavam sempre em torno da Arte Pura e terminavam com temas santistas.

Recordo-me de uma tarde, num solarengo domingo, em que passamos quase seis horas a falar de Vicente de Carvalho, Paulo Gonçalves, Fábio Montenegro e Martins Fontes. Os versos, que ambos declamávamos, ecoavam por toda a sala, repleta de telas de autoria de sua progenitora. Que tarde magnífica! Quando a interlocução era em seu escritório, inevitavelmente, ele sentava-se ao lado do retrato de Martins Fontes, pois dizia-me que assim beberia da sabedoria do Mestre! A todo o instante a sua esposa surgia com um mimo, um café, uma iguaria, uma dedo de prosa carinhosa. Que casal feliz. Que amizade que sempre me ofertaram.

Hoje, garanto-vos, sinto um enorme vazio. Um triste e vago sentimento. Mais de seis anos depois, do desaparecimento de Walter Waeny, a literatura lusófona está muito mais fragilizada, pobre, mergulhada na mediocridade. Olho para a sua extensa obra literária e sinto uma enorme saudade daquelas tardes de convívio, daquelas horas de rara cultura, daqueles momentos em que ouvi os seus livros, antes de serem publicados.

  
Lá longe, no Céu, uma estrela amanhece

A Walter Waeny, Poeta e Amigo

                         Em tardes venturosas de poesia e arte pura,
                                             Walter e eu comungávamos no mesmo tom,
                                             Ora sobre Fontes, ou Wagner, ora obscura    
                                             Figura, que não posso aqui expor, não é bom-tom.

                                             Mexericos de poetas… simples diabrura,
                                             Para divertir, e consolar o humor bom…
                                             Assim passávamos tardes de conjetura,
                                             Revivendo e cantarolando em semitom!

                                             Hoje, estou mudo, sem coragem de cantar,
                                             E desejoso por um novo céu de anil,
                                             Cujo esplêndido rubor venha iluminar,

                                             Alguma estrofe inspirada, primaveril.
                                             Falta-me o chão. O amigo original e exemplar,
                                             Que era o rio frondoso, o Amazonas do Brasil!


[1] Originalmente publicado em: Calisto, Rui. “Walter Waeny”. In.: A Língua Portuguesa. Editora Martins Fontes Portugal, nº 4, Ano I, julho de 2006, pp.1-3. OBS.: O autor efetuou algumas modificações em relação à primeira publicação.
[2] Walter Waeny nasceu em São Vicente, a 6 de dezembro de 1924 e morreu em Santos, a 4 de junho de 2006.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

domingo, 30 de setembro de 2012

UM PINTOR COM ALMA: CARLOS ALEXANDRE



Esta tarde detive o olhar, durante vários minutos, sobre uma das telas mais fortes e expressivas que surgiram diante dos meus olhos nos últimos anos. É a representação viva da mais nobre arte de combinar tintas e ideias. É uma das mais subtis imagens de um génio das artes plásticas de Portugal. A plasticidade que nos envolve e nos domina a alma, quando conhecemos esse trabalho, espelha bem a emoção do artista quando o concebeu. Naturalmente, ao final daquele parto supremo, não houve derramamento de sangue, nem sombras liquefeitas de uma qualquer dor, existiu sim, pela força de uma natureza organicamente arrebatadora, o derramar de cores voluptuosas e luzes fulgentes, que resultaram num filho vigoroso, cheio de saúde.

Carlos Alexandre conseguiu, depois de trinta anos de trabalho rigoroso em seu atelier, bem como em exposições em vários países, deixar uma marca intensa e perpétua em seu traço. Um daqueles registos que será possível distinguir em distância de gerações. Pinceladas que serão a representação viva da sua época. Insígnia de todo um momento da pintura em Portugal. 

A relação formal entre as cores presentes nas obras de Carlos Alexandre, traz ao olhar atento do conhecedor pictórico todas as sensações possíveis: através das sombras, do calor, da profundidade, da luz, do frio, da perspectiva.

A pintura acompanha o artista por toda a sua existência. Ele está tão integrado à sua arte que a sua arte fala completamente por si. E só diz verdades. Aliado ao talento nato para o desenvolvimento de seu trabalho está o facto de ser um teórico com informação, capaz de destronar o mais arrogante dos críticos de arte.

Enquanto Almada Negreiros, o cubista do Cais do Sodré, tentou inovar através da imitação, copiando as ideias do que viu e ouviu em Paris, Carlos Alexandre inova através do seu olhar subtil, da sua pincelada segura e conhecedora dos mais variados caminhos. Enquanto Almada cresceu como artista através da força dos amigos na imprensa portuguesa e, principalmente, por causa do seu apoio maciço ao Estado Novo, Carlos Alexandre cresce através, única e exclusivamente, do seu talento, sem amigos para o bajular, e sem defender ideologias políticas contrárias à sua própria ideologia.

O espírito inventivo de Carlos Alexandre já flanou por galerias importantes em várias cidades do mundo, entre elas: Paris, Hamburgo, Chicago, Veneza e Nova Iorque, em todas elas deixou o seu traço e por todas elas verteu cores e formas, como é o caso da tela que encima este artigo. É um caso de amor entre o pintor e as cidades que o recebem, ou acolhem o seu trabalho.

Creio que o olhar do pintor, acostumado à poesia da vida, consegue trazer à tona d’água, ou, se quiserem, à luz da tela, todo um poema de cores e formas, a cada traço que deposita no branco do tecido. A sua obra não é o entorno da paisagem, é a própria paisagem! O seu conjunto de obra é multifacetado, porém, é a vertente da reprodução arquitetónica a que mais me agrada, pela luz, pela profundidade e, principalmente, pela força que parece sair de cada tela.

Carlos Alexandre é, na atualidade, uma das mais importantes forças vivas da pintura, de elevado mérito artístico e de extrema qualidade moral. Muitos países da Europa e das Américas já se renderam ao seu talento, Portugal teima em não o admirar como deve. Será pela baixa frequência de público nas galerias de Arte? É possível, porém, o que mais parece é que é, de facto, pelo pouco conhecimento que os portugueses possuem sobre pintura, resultado de anos de péssima gestão governamental na Educação e na Cultura, os grandes alicerces do Espírito Humano.

domingo, 23 de setembro de 2012

Manoel Rodrigues Ferreira - O meu amigo Manoel



A Mécia Rodrigues Ferreira
Pela nossa amizade eterna.
Perpetuada em tantas páginas,
Tantos sorrisos e tantos abraços.

Corria o ano de 1990 quando Roberto Fontes Gomes e Juvenal Fernandes apresentaram-me o historiador Manoel Rodrigues Ferreira, de quem já muito ouvira falar e era admirador confesso.

Era uma sexta-feira, dia de almoço entre o Roberto, o Juvenal, eu e o professor Sólon Borges dos Reis, num costumeiro restaurante da cidade de São Paulo. Era dia de trocarmos confidências literárias, de discutirmos este ou aquele tema, de colocarmos a limpo as reuniões em que participamos, dias antes, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e na Academia Paulista de Letras. Locais que comecei a frequentar, também, a convite daqueles meus dois saudosos amigos.

A minha admiração por Manoel Rodrigues Ferreira surgiu quando li três dos seus vinte e três livros publicados: A Ferrovia do Diabo, O Mistério do ouro dos Martírios e Nas selvas amazónicas, porém, longe de mim estava, imaginar que o conheceria, que seria seu amigo e que com ele iria privar nas reuniões do “nosso” Instituto. Casa que, havia algum tempo, não frequentava, por motivos alheios à sua vontade, motivos esses que levaram o queridíssimo amigo, grande escritor e historiador, Hernâni Donato, a convocar uma reunião extraordinária, fora de horas, e à porta fechada, com os elementos mais importantes daquela Instituição, e com o intuito de convencer o nobre cultor da história brasileira a voltar a frequentar novamente aqueles salões.

Quando cheguei ao restaurante para o repasto com os três amigos, sou confrontado, porque fui o último a chegar, com a visão que muito me espantou: havia um quarto elemento sentado ao redor da mesa e, reconhecido por mim, através de já conhecida fotografia. A minha aproximação foi lenta, sem titubeio de voz, estendendo uma mão cheia de dedos e o cumprimento característico para o momento, porém, sem salamaleques: “é uma honra conhecê-lo, professor Manoel Rodrigues Ferreira”.

Depois, o deão daquele colégio de cardeais literários: Roberto Fontes Gomes, brindou-me com algumas palavras gentis, anunciando que, com a minha chegada, passara a estar composto o grémio cardinalício e, sem mais delongas, poderíamos, assim sendo, avançar com a ordem de trabalhos. Tudo refletido nas duas horas de conversa, que pareceram intermináveis, pela maravilha da refeição e pelo brilho estelar daqueles cérebros que estavam a meu lado.

Manoel Rodrigues Ferreira nasceu em Itapuí, que em remotos tempos fora chamada de Bica de Pedra (com que orgulho me contou esse pormenor) no dia 25 de julho de 1915. Saudoso de sua terra e de sua gente, especialmente de seu irmão Tito Lívio Ferreira, outro gigante da historiografia brasileira, passou, por isso, uma parte daquele almoço a falar-me da infância e da adolescência. Mas foi uma pequena frase, atirada ao ar entre um gole de um bom tinto e uma garfada mais encharcada em azeite de oliva (estávamos a degustar um bacalhau cheio de espiritualidade), que me atiçou os sentidos historiográficos: “Meu rapaz, o Brasil nunca foi uma colónia portuguesa, foi sim um Estado da Coroa Portuguesa”. Confesso que, naquele momento, só me veio à cabeça a pergunta que o obrigaria a provar-me aquela teoria, porém, antes mesmo de abrir a minha boca para levantar tal questão, ele, com uma rapidez de raciocínio que impressionava, começou a desfiar um rosário completo, anunciando a grande descoberta que seu irmão Tito Lívio Ferreira fizera desse tema e, inevitavelmente, como tudo estava documentado.

Eu, que admirava muito o historiador, passei então, após aquele almoço, a admirar o ser humano. O homem que lutava pela verdade histórica. Que queria ver todas as escolas a ensinarem, com fidelidade, os grandiosos factos históricos de um país impressionantemente belo e poderoso como o Brasil. Aquele ser, capaz de verter lágrimas, como aconteceu, quando nos contou do sofrimento dos que trabalharam na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Aquele indivíduo que fez de uma simples refeição entre amigos um manifesto pela pátria, numa luta para salvar o património ecológico mais importante do mundo. Um homem impressionantemente culto.

Depois daquele dia fui reencontrá-lo numa conferência de António Soares Amora, na Academia Paulista de Letras. Sentamo-nos lado a lado e, antes de começar o evento, a nossa conversa percorreu uma série de caminhos literários, até que fomos interrompidos por minha querida amiga Lygia Fagundes Telles, que chegou entusiasmada com inúmeras novidades ligadas à Academia Brasileira de Letras, todas elas relacionadas com um pedido meu para que a Casa de Machado de Assis fizesse justiça e reconhecesse publicamente a arbitrariedade cometida para com o Poeta Martins Fontes, num passado remoto[1].

Às reuniões literárias fomos juntando o convívio salutar durante os almoços de confraternização entre academias e institutos de cultura, de que ele era um dos mentores, além da participação em inúmeros eventos que possuíam a literatura como ponto principal de discussão. Passamos, eu e Manoel Rodrigues Ferreira, a ter uma amizade forte, um laço cultural que unia duas gerações tão distantes uma da outra, separadas por cinquenta anos.

Agradeço-lhe tudo o que me ensinou. Todos os caminhos históricos, numa Casa de Historiadores como é o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que me ajudou a percorrer. Agradeço a sua palavra de incentivo e, às vezes de repreensão, exatamente como um professor deve fazer a um aluno novato. Agradeço-lhe por ter-me apresentado a Mécia, sua filha, minha grande amiga e, com o passar dos anos: irmã.

Quando ocorreu a morte de Manoel Rodrigues Ferreira senti-me profundamente triste, não apenas pelo óbvio que cerca o sentimento de perda, mas por estar neste meu exílio involuntário, distante da minha pátria e dos meus amigos de tantos anos, que me ajudaram nesta caminhada, lenta, porém, progressiva, pelas letras. Uma distância que impediu a despedida final, o agradecimento por tudo o que me ensinou. Distância essa que me impossibilitou de oferecer à minha querida irmã o ombro tão necessário nesse momento. E que obstou-me de consagrar o fraterno abraço de amizade a todos aqueles que connosco conviveram durante tantos e tão bons anos, numa São Paulo fascinante, por sua grandeza física e por sua pujança histórica.

Ser Paulista

         Ser Paulista! É ser grande no passado!
                         E ainda maior nas glórias do presente!
                         É ser a imagem do Brasil sonhado,
                         E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente!

                         Ser Paulista! É morrer sacrificado
                         Por nossa Terra e pela nossa Gente!
                         É ter dó da fraqueza do soldado,
                         Tendo horror à filáucia do tenente.

                         Ser Paulista! É rezar pelo Evangelho
                         De Ruy Barbosa, o Sacrossanto Velho,
                         Civilista imortal da nossa fé!

                         Ser Paulista! – Em brasão e em pergaminho,
                         É ser traído e pelejar sozinho,
                         É ser vencido, mas cair de pé!”[2]


*


[1] Ainda aguardamos que a justiça seja feita.
[2] Martins Fontes, José. Paulistânia. 1ªed. São Paulo, Elvino Pocai, 1934, p.53.

domingo, 16 de setembro de 2012

Ao lado do Povo


Amigos, infelizmente não tenho fotos da nossa luta de ontem em Lisboa. Não tenho por que não fui com vontade nenhuma de ser jornalista de mim próprio. Fui com o coração aberto e uma tremenda vontade em gritar. Voltei para casa esperançoso, completamente encharcado em suor e... afónico. 

Senti-me vivo novamente, pois, lembrei-me, e não contive as lágrimas devido às lembranças, de um momento forte 
de minha vida, quando participei em São Paulo, no dia 25 de janeiro de 1984 do Movimento das Diretas Já. Éramos muitos, mais de um milhão e meio de pessoas.

Em Lisboa, ontem, a multidão não era no mesmo número, porém, o que se ouviu possuía a mesma força.

Senti falta, apenas, de uma coisa: se a polícia tirasse os capacetes e se o exército viesse ao nosso encontro e todos, JUNTOS, subíssemos a escadaria da Assembleia da República e tomássemos pacificamente aquela Casa, com toda a certeza, o fantoche que está na presidência da República seria obrigado a destituir o (des)governo de Portugal. E isso, seria... JÁ! HOJE! Como isso não aconteceu (por que tanto a polícia quanto o exército ainda não entenderam que fazem parte do povo e que deveriam estar do nosso lado) ainda não vai ser desta vez que a canalha vai sair do poder.

Mas, EU ACREDITO! Este país vai mudar! Precisamos de Coragem para fazer, desta, uma grande Nação!

sexta-feira, 25 de maio de 2012

LUTO CULTURAL

Foi com profunda tristeza que ontem, ao final da tarde, fui informado pelo Senhor Rui Nascimento através de rápida troca de mensagens, que, este, seria obrigado, devido à crise nefasta que assola Portugal, a encerrar as suas atividades de livreiro alfarrabista. Confesso que não me espanta ver mais um amante de livros e autores a cair por terra devido à má gestão do governo, que teima em acabar com o comércio (e a indústria) através dos pesados encargos que são, qual máquina mortífera, uma perigosa arma na mão de incautos e imaturos políticos (desde o 25 de abril de 1974 que essa classe vem minando o país de maneira vil e traiçoeira). 
Ver "A Barateira" a fechar portas entristece-me profundamente, não poder mais dedicar algumas horas quinzenais a uma conversa franca e salutar com uma das maiores inteligências portuguesas deixa-me de luto, saber que tudo vem acontecendo de modo violento contra a população e essa mesma população a tudo assiste, confortavelmente sentada na sala de sua residência, à espera "que alguém tome providências para salvar o país" faz-me acreditar que a única saída possível para a crise é uma passagem de avião.
D. Sebastião está morto. O nevoeiro anunciado há muito que desapareceu... Ninguém poderá salvar uma nação em declínio absoluto se o seu veículo de combate for um sofá e a sua arma for o comando da televisão!
Nenhum país poderá mudar - verdadeiramente - o rumo político se o povo continuar a negar o seu poder de voto.
Até quando? 
Estou de luto. A cultura portuguesa está cada vez mais pobre.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

MARTINS FONTES - O POETA DA LUSOFONIA (1)

José Martins Fontes (o Terceiro do nome) nasceu na casa de número 4 da praça José Bonifácio, em Santos, cidade litorânea do Estado de São Paulo, Brasil, a 23 de junho de 1884. Filho legítimo do médico Silvério Martins Fontes e da Sra. D. Isabel Martins Fontes. Teve uma infância caracterizada pelos estudos caseiros, orientados por seu pai, e tendo nos avós maternos, Francisco Martins dos Santos (o Primeiro do nome) e Josephina Olympia da Costa Aguiar de Andrada, dois grandes mestres e impulsionadores literários, orientando o menino à leitura dos clássicos de língua portuguesa, e outras.

O jovem Martins Fontes estudou no ensino primário em sua terra natal, passando depois para o Colégio Nogueira da Gama, em Jacareí, e para o Colégio Alfredo Gomes no Rio de Janeiro. Ainda na infância, aos oito anos de idade, criou o periódico “A Metralha”, todo produzido à mão, trabalhado a quatro cores, e onde publicou as suas primeiras produções poéticas. No dia 1 de Maio de 1892 estreia em público como declamador ao recitar um poema de sua lavra intitulado “Hino a Castro Alves”, no Centro Socialista de Santos.

De 1901 a 1908 estudou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e, depois de formado, destacado pelo Governo brasileiro, seguiu rumo ao Acre, assumindo funções de Médico Chefe da Comissão de Obras Federais do Alto Acre, chefiada pelo Dr. António Manuel Bueno de Andrada. Algum tempo depois retorna ao Rio de Janeiro, cidade em que permanece por pouco meses, instalando-se em definitivo na cidade natal, trabalhando nos hospitais da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, no Hospital Santo António, pertença da Sociedade Portuguesa de Beneficência, bem como em outros estabelecimentos médicos da região.

No ano de 1918 foi o principal responsável pelo extermínio da Epidemia de Gripe que assolou a região denominada Baixada Santista (a terrível “Influenza” devastou cidades de várias partes do mundo).

Poeta de alta craveira, esgotou todas as edições de seus livros, em prosa e verso, com grande facilidade, tanto no Brasil quanto em terras lusas. Atualmente é reeditado pela “Martins Fontes Portugal”, sediada em Caldas da Rainha, tendo o primeiro volume de sua Obra Completa, intitulado “verão”, distribuído por toda a rede livreira lusitana. Foi, também, colaborador literário de dezenas de publicações periódicas, no Brasil e em Portugal.

Martins Fontes, entre as muitas benesses e honrarias que recebeu, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de São Thiago de Espada, e eleito sócio-correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.

Aos 53 anos de idade, no dia 25 de junho de 1937, vem a falecer, causando forte comoção nos dois países irmãos. Um cortejo de mais de trinta mil pessoas acompanhou os seus restos mortais até o Cemitério do Paquetá, em Santos.

Até hoje inúmeras homenagens são anualmente preparadas para honrar a sua memória, porém a edição da Obra Completa está somente a cargo da editora “Martins Fontes Portugal”, que vem fazendo um trabalho de base, com competência, devidamente autorizada pela Família Martins Fontes.

No ano de 2008 é editada pela primeira vez a peça de teatro “A Cigarra e a Formiga”, em co-autoria com o titular deste artigo. Este livro está também distribuído por todas as livrarias portuguesas, e a ser amplamente divulgado nas escolas, aproximando assim a juventude, mais rapidamente, do nome do Poeta.

Martins Fontes foi um Poeta modelar, toda a sua produção possui uma delicada cadência musical, esbanjando riqueza rítmica e vocabular. Foi na poesia o que Coelho Netto e Machado de Assis foram na prosa: transbordante em luxuosos neologismos, oferecendo ao leitor uma gama magnífica de jóias para a Língua Portuguesa.

Foi o Poeta de todas as escolas literárias, escrevendo como Romântico, Simbolista, Parnasiano e Modernista. Nunca quis filiar-se a nenhuma delas, embora, a meu ver, tenha sido um “simbolista romântico” ou um “parnasiano moderno”. Foi, acima de tudo, perfeito! Eis cinco poemas retirados de sua vasta produção:

Riqueza Franciscana

Quando uma pomba me pousar na mão,

Realizarei o meu supremo sonho:

Neste desejo franciscano ponho,

Desde menino, a minha aspiração.


Só de o pensar, encanta-me a impressão

Dessa dádiva, e, tímido e risonho,

Fecho os olhos, e iludo-me e suponho

Sentir tocar-me a santificação.


Dar de comer a um passarinho, tê-lo,

Cheio de afeto e trémulo de zelo,

Entre os dedos, em pura adoração!


Isto busquei a vida inteira! E, prémio

Do meu viver de trovador boémio,

Hoje uma pomba me pousou na mão.

* * * * * * * * *

Cântico do outono


Ouro! Maturação! Lucidez! Despedida!

Hora espetacular, apoteose do drama

Com que a terra nos mostra, em púrpura incendida,

O pranto que resplende e jamais se derrama!


Ao crepúsculo anual, a experiência contida

Lembra o pomo, em sazão, a pender de alta rama,

O estoicismo de quem se desprende da vida,

Mas, antes de findar, em sorrisos se inflama!


Cerce, a foice da lua, ou da morte, naquelas

Fulvas searas do céu, daqui a poucos minutos,

Vai ceifar, cegamente, as promessas mais belas.


E, num último adeus, vemos, de olhos enxutos,

A descrença, ao cair das folhas amarelas,

A renúncia a doirar a doçura dos frutos.

* * * * * * * * *

Íntima

Entre as lembranças que há na minha mesa

De trabalho, entre inúmeros e gratos,

Carinhosos, caríssimos retratos,

Um, por ser mais fiel, causa surpresa.


Cercam o quadro, imagens da beleza,

Flores, em vaso de cristal, em pratos

De prata velha, de gentis ornatos,

Cinzelados à moda portuguesa.


Escrevendo um soneto, agora, enquanto

Casava as rimas, redobrando o encanto

Que, no improviso, delas sobressai.


Ergui nas mãos esta fotografia,

E como minha Mãe o beijaria,

Assim beijei a face de meu Pai.

* * * * * * * * *


Clamor


Vai ser tremendo, terrível,

Quando eu lhe falar, tenace,

Do modo mais insensível,

Face a face.


Calmamente, friamente,

Ante o seu vulto adorável,

Hei de mostrar-me inclemente,

Implacável.


Porque as Princesas precisam

Saber das mágoas secretas

Que nos matam, martirizam,

Pobres poetas...


Por isso dir-lhe-ei: - Rainha,

Por quem desvairo e me inflamo,

Ai, Dona e Senhora minha!

Eu Vos Amo!

* * * * * * * * *


Si j’étais Dieu…


Se eu fosse Deus, seria a vida um sonho,

Nossa existência um júbilo perene!

Nenhum pesar que o espírito envenene

Empanaria a luz do céu risonho!


Não haveria mais: o adeus solene,

A vingança, a maldade, o ódio medonho,

E o maior mal, que a todos anteponho,

A sede, a fome da cobiça infrene!


Eu exterminaria a enfermidade,

Todas as dores da senilidade,

E os pecados mortais seriam dez…


A criação inteira alteraria,

Porém, se eu fosse Deus, te deixaria

Exatamente a mesma que tu és!


Um dos projetos que estou a ultimar, e que envolvem o nome de Martins Fontes, é a publicação de sua biografia. Um trabalho de investigação de longos vinte e dois anos, iniciado no ano de 1990. Essa pesquisa levou-me a cinquenta e três cidades brasileiras e a catorze cidades portuguesas, fazendo com que conseguisse, através de documentos e importantes depoimentos, traçar um perfil de Martins Fontes que, modéstia à parte, nenhum outro biógrafo conseguiu até então. Essa biografia está agora em fase final de revisão.

No dizer do escritor português Júlio Dantas, no volume “Os Galos de Apolo”[2]: “Num dos meus últimos volumes saudei com entusiasmo o aparecimento de um grande poeta (…) esse poeta extraordinário – Martins Fontes – glória das letras brasileiras contemporâneas, acaba de publicar mais duas obras: uma revelou-mo como prosador: “A Dança”; outra: “Granada”, em alexandrinos que me fizeram lembrar a policromia ofuscante dos azulejos moçárabes, acabou de convencer-me de que a obra deste moço e glorioso poeta permanecerá, nas duas literaturas, como uma das mais fortes expressões do génio lírico…”.

Já Júlio Brandão, em sua obra “Recordações dum velho poeta”[3]: “…Martins Fontes (…) O seu poder verbal é ofuscante. É um raro criador de ritmos e um colorista que não desmerece diante dos grandes mestres venezianos. Poeta orquestral, dir-se-ia que os seus poemas refulgem e crepitam, entre o voo lampejante e estriduloso das imagens, sem que deixe de haver, com frequência, melodias duma limpidez deliciosa. Há no seu alaúde todas as cordas. Amigo caloroso de Portugal, todos os que entre nós se interessam pelo esplendor das Letras (e em especial do Verso), o admiravam deveras e lhe queriam muito (…) Este extraordinário poeta foi um homem de comunicativa cordialidade, com aquela bondade que é divinamente contagiosa e a mais pura flor da vida. Teve fulgurações de génio – e a sua originalidade mostrou, nesta época em que a personalidade naufraga, a sua irrefragável grandeza. Entusiasta e generoso com os seus amigos, sem invejas ou perfídias, viveu e amou (…) Era tão devotado a Portugal, que no trigésimo dia depois da sua morte, foram talvez mais de dez mil portugueses, segundo li, prestar-lhe uma homenagem de admiração e de saudade ao cemitério de Santos[4], onde repousa…”.

E foi essa homenagem de Portugal, e de todos os portugueses de Santos, que originou e perpetuou até aos nossos dias a “Romaria dos Cravos Vermelhos”, acontecimento que evoca um passado de grandeza e que imortaliza um sentimento de saudade perene, e de amor filial, de duas nações por um Poeta, que, acima de tudo, foi um homem Bom!


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[1] Texto redigido segundo o Novo Acordo Ortográfico.

[2] Dantas, Júlio. Os Galos de Apolo. 1ªed. Lisboa, Portugal-Brasil Ltda Soc. Editora, 1921, p.169.

[3] Brandão, Júlio. Recordações dum velho poeta. 1ªed. Lisboa, Editorial Gleba Lda., s/d, Coleção Estudos Portugueses, 2, p.173-174.

[4] Cemitério do Paquetá, em Santos.