quinta-feira, 1 de novembro de 2012

WALTER WAENY (1)


Em Portugal já se anunciava a manhã. O telefone toca. Atendo com toda a naturalidade e ouço uma voz conhecida, que entre lágrimas e soluços, diz-me que está a cumprir uma obrigação, a pedido de seu pai: eu deveria ser o primeiro a receber a informação. Ouço, incrédulo. A voz custa-me a sair. Os olhos marejam. E, mais do que nunca, desejo que exista vida após a vida. Despedimos-nos. Pouso o aparelho. Fico a olhar para um Nada que teima em não sair da minha cabeça. Prevejo um dia longo, triste, solitário. Lembro-me de um verso, de outro, de muitos… a melhor homenagem, a única possível, é a que pode elevar-nos a alma, então, leio os seus poemas, em voz alta, como se estivesse a dizer-lhe que são magníficos. A saudade que sentirei do amigo será infinita. Lembro-me de outra homenagem possível: um soneto! E escrevo. Para meu espanto ele vai surgindo veloz, sem receios, avançando por entre espaços. E, num ápice, anuncio aos Céus que o Amazonas do Brasil é uma nova estrela que amanhece.

*

Às três horas da manhã do dia 4 de junho de 2006 o mundo lusófono perdeu um de seus melhores poetas, deixando de luto todos aqueles que conheciam e privavam da amizade desse grande cultor das letras.

Desde o ano de 1983 que convivia fraternalmente com essa figura ilustre. Foram vinte e três anos de encontros culturais e de admiração recíproca.

Foi pelas mãos de Walter Waeny que conheci o meio literário santista, foi pelas minhas que ele entrou no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Das dezenas de Instituições a que pertenceu essa era a mais ambicionada (apesar de possuir no currículo um infinito de organismos de alto relevo, entre eles, o Club dos Intelectuais de Paris). Depois de expor a sua magnífica obra literária aos mestres daquele Sodalício (Casa que frequentei por anos a fio, e lá deixei as maiores benquerenças), eis que surge o momento da sua vitoriosa eleição, a coroação de uma vida literária de grande talento.

Walter Waeny Júnior nasceu em São Vicente[2], cidade vizinha à minha querida Santos. Filho de Walther Joseph Waeny e Gilda Rienzi Waeny. Neto de Johannes Waeny e Fabiana Ave-Lallemant. Bisneto de Johann Jakob Waeny e Margaretha Baumann, de Alexander Ave-Lallemant e Joaquina Rosa Machado, de Michele Rienzi e Maria Caterina Sivieri, e de Vicente Minervino e Rosa Magnavita. Casou-se a 22 de maio de 1950 com a Sra. D. Maria Clélia Dias, nascendo deste feliz matrimónio numerosa prole.

Walter Waeny foi poeta, trovador, ensaísta, filósofo, prosador, contista, biógrafo, dicionarista, historiador, conferencista, antologista, declamador, teatrólogo, radialista, aforista e tradutor. Autor de mais de uma centena de livros, em prosa e verso, destacado homem de cultura, admirador do músico erudito Richard Wagner e do poeta Martins Fontes. Sendo o poeta brasileiro mais premiado de sua geração, com inúmeras medalhas de ouro em dezenas de cidades brasileiras, bem como em inúmeras cidades da Europa. Possuía o dom de ouvir e falava para ensinar. Sempre, em todas as horas de nosso convívio, foi objetivo e radical em relação à Arte. Admiro-o por isso. Defendeu acirradamente os poetas simbolistas, românticos e parnasianos, bem como os pintores e compositores anteriores a 1922 (ano da malfadada Semana de Arte Moderna em São Paulo, que veio turvar as águas culturais do Brasil). Comungávamos da mesma filosofia de vida. Admirávamos os mesmos artistas do verso e da prosa. Nossas conversas versavam sempre em torno da Arte Pura e terminavam com temas santistas.

Recordo-me de uma tarde, num solarengo domingo, em que passamos quase seis horas a falar de Vicente de Carvalho, Paulo Gonçalves, Fábio Montenegro e Martins Fontes. Os versos, que ambos declamávamos, ecoavam por toda a sala, repleta de telas de autoria de sua progenitora. Que tarde magnífica! Quando a interlocução era em seu escritório, inevitavelmente, ele sentava-se ao lado do retrato de Martins Fontes, pois dizia-me que assim beberia da sabedoria do Mestre! A todo o instante a sua esposa surgia com um mimo, um café, uma iguaria, uma dedo de prosa carinhosa. Que casal feliz. Que amizade que sempre me ofertaram.

Hoje, garanto-vos, sinto um enorme vazio. Um triste e vago sentimento. Mais de seis anos depois, do desaparecimento de Walter Waeny, a literatura lusófona está muito mais fragilizada, pobre, mergulhada na mediocridade. Olho para a sua extensa obra literária e sinto uma enorme saudade daquelas tardes de convívio, daquelas horas de rara cultura, daqueles momentos em que ouvi os seus livros, antes de serem publicados.

  
Lá longe, no Céu, uma estrela amanhece

A Walter Waeny, Poeta e Amigo

                         Em tardes venturosas de poesia e arte pura,
                                             Walter e eu comungávamos no mesmo tom,
                                             Ora sobre Fontes, ou Wagner, ora obscura    
                                             Figura, que não posso aqui expor, não é bom-tom.

                                             Mexericos de poetas… simples diabrura,
                                             Para divertir, e consolar o humor bom…
                                             Assim passávamos tardes de conjetura,
                                             Revivendo e cantarolando em semitom!

                                             Hoje, estou mudo, sem coragem de cantar,
                                             E desejoso por um novo céu de anil,
                                             Cujo esplêndido rubor venha iluminar,

                                             Alguma estrofe inspirada, primaveril.
                                             Falta-me o chão. O amigo original e exemplar,
                                             Que era o rio frondoso, o Amazonas do Brasil!


[1] Originalmente publicado em: Calisto, Rui. “Walter Waeny”. In.: A Língua Portuguesa. Editora Martins Fontes Portugal, nº 4, Ano I, julho de 2006, pp.1-3. OBS.: O autor efetuou algumas modificações em relação à primeira publicação.
[2] Walter Waeny nasceu em São Vicente, a 6 de dezembro de 1924 e morreu em Santos, a 4 de junho de 2006.

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