domingo, 30 de setembro de 2012

UM PINTOR COM ALMA: CARLOS ALEXANDRE



Esta tarde detive o olhar, durante vários minutos, sobre uma das telas mais fortes e expressivas que surgiram diante dos meus olhos nos últimos anos. É a representação viva da mais nobre arte de combinar tintas e ideias. É uma das mais subtis imagens de um génio das artes plásticas de Portugal. A plasticidade que nos envolve e nos domina a alma, quando conhecemos esse trabalho, espelha bem a emoção do artista quando o concebeu. Naturalmente, ao final daquele parto supremo, não houve derramamento de sangue, nem sombras liquefeitas de uma qualquer dor, existiu sim, pela força de uma natureza organicamente arrebatadora, o derramar de cores voluptuosas e luzes fulgentes, que resultaram num filho vigoroso, cheio de saúde.

Carlos Alexandre conseguiu, depois de trinta anos de trabalho rigoroso em seu atelier, bem como em exposições em vários países, deixar uma marca intensa e perpétua em seu traço. Um daqueles registos que será possível distinguir em distância de gerações. Pinceladas que serão a representação viva da sua época. Insígnia de todo um momento da pintura em Portugal. 

A relação formal entre as cores presentes nas obras de Carlos Alexandre, traz ao olhar atento do conhecedor pictórico todas as sensações possíveis: através das sombras, do calor, da profundidade, da luz, do frio, da perspectiva.

A pintura acompanha o artista por toda a sua existência. Ele está tão integrado à sua arte que a sua arte fala completamente por si. E só diz verdades. Aliado ao talento nato para o desenvolvimento de seu trabalho está o facto de ser um teórico com informação, capaz de destronar o mais arrogante dos críticos de arte.

Enquanto Almada Negreiros, o cubista do Cais do Sodré, tentou inovar através da imitação, copiando as ideias do que viu e ouviu em Paris, Carlos Alexandre inova através do seu olhar subtil, da sua pincelada segura e conhecedora dos mais variados caminhos. Enquanto Almada cresceu como artista através da força dos amigos na imprensa portuguesa e, principalmente, por causa do seu apoio maciço ao Estado Novo, Carlos Alexandre cresce através, única e exclusivamente, do seu talento, sem amigos para o bajular, e sem defender ideologias políticas contrárias à sua própria ideologia.

O espírito inventivo de Carlos Alexandre já flanou por galerias importantes em várias cidades do mundo, entre elas: Paris, Hamburgo, Chicago, Veneza e Nova Iorque, em todas elas deixou o seu traço e por todas elas verteu cores e formas, como é o caso da tela que encima este artigo. É um caso de amor entre o pintor e as cidades que o recebem, ou acolhem o seu trabalho.

Creio que o olhar do pintor, acostumado à poesia da vida, consegue trazer à tona d’água, ou, se quiserem, à luz da tela, todo um poema de cores e formas, a cada traço que deposita no branco do tecido. A sua obra não é o entorno da paisagem, é a própria paisagem! O seu conjunto de obra é multifacetado, porém, é a vertente da reprodução arquitetónica a que mais me agrada, pela luz, pela profundidade e, principalmente, pela força que parece sair de cada tela.

Carlos Alexandre é, na atualidade, uma das mais importantes forças vivas da pintura, de elevado mérito artístico e de extrema qualidade moral. Muitos países da Europa e das Américas já se renderam ao seu talento, Portugal teima em não o admirar como deve. Será pela baixa frequência de público nas galerias de Arte? É possível, porém, o que mais parece é que é, de facto, pelo pouco conhecimento que os portugueses possuem sobre pintura, resultado de anos de péssima gestão governamental na Educação e na Cultura, os grandes alicerces do Espírito Humano.

domingo, 23 de setembro de 2012

Manoel Rodrigues Ferreira - O meu amigo Manoel



A Mécia Rodrigues Ferreira
Pela nossa amizade eterna.
Perpetuada em tantas páginas,
Tantos sorrisos e tantos abraços.

Corria o ano de 1990 quando Roberto Fontes Gomes e Juvenal Fernandes apresentaram-me o historiador Manoel Rodrigues Ferreira, de quem já muito ouvira falar e era admirador confesso.

Era uma sexta-feira, dia de almoço entre o Roberto, o Juvenal, eu e o professor Sólon Borges dos Reis, num costumeiro restaurante da cidade de São Paulo. Era dia de trocarmos confidências literárias, de discutirmos este ou aquele tema, de colocarmos a limpo as reuniões em que participamos, dias antes, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e na Academia Paulista de Letras. Locais que comecei a frequentar, também, a convite daqueles meus dois saudosos amigos.

A minha admiração por Manoel Rodrigues Ferreira surgiu quando li três dos seus vinte e três livros publicados: A Ferrovia do Diabo, O Mistério do ouro dos Martírios e Nas selvas amazónicas, porém, longe de mim estava, imaginar que o conheceria, que seria seu amigo e que com ele iria privar nas reuniões do “nosso” Instituto. Casa que, havia algum tempo, não frequentava, por motivos alheios à sua vontade, motivos esses que levaram o queridíssimo amigo, grande escritor e historiador, Hernâni Donato, a convocar uma reunião extraordinária, fora de horas, e à porta fechada, com os elementos mais importantes daquela Instituição, e com o intuito de convencer o nobre cultor da história brasileira a voltar a frequentar novamente aqueles salões.

Quando cheguei ao restaurante para o repasto com os três amigos, sou confrontado, porque fui o último a chegar, com a visão que muito me espantou: havia um quarto elemento sentado ao redor da mesa e, reconhecido por mim, através de já conhecida fotografia. A minha aproximação foi lenta, sem titubeio de voz, estendendo uma mão cheia de dedos e o cumprimento característico para o momento, porém, sem salamaleques: “é uma honra conhecê-lo, professor Manoel Rodrigues Ferreira”.

Depois, o deão daquele colégio de cardeais literários: Roberto Fontes Gomes, brindou-me com algumas palavras gentis, anunciando que, com a minha chegada, passara a estar composto o grémio cardinalício e, sem mais delongas, poderíamos, assim sendo, avançar com a ordem de trabalhos. Tudo refletido nas duas horas de conversa, que pareceram intermináveis, pela maravilha da refeição e pelo brilho estelar daqueles cérebros que estavam a meu lado.

Manoel Rodrigues Ferreira nasceu em Itapuí, que em remotos tempos fora chamada de Bica de Pedra (com que orgulho me contou esse pormenor) no dia 25 de julho de 1915. Saudoso de sua terra e de sua gente, especialmente de seu irmão Tito Lívio Ferreira, outro gigante da historiografia brasileira, passou, por isso, uma parte daquele almoço a falar-me da infância e da adolescência. Mas foi uma pequena frase, atirada ao ar entre um gole de um bom tinto e uma garfada mais encharcada em azeite de oliva (estávamos a degustar um bacalhau cheio de espiritualidade), que me atiçou os sentidos historiográficos: “Meu rapaz, o Brasil nunca foi uma colónia portuguesa, foi sim um Estado da Coroa Portuguesa”. Confesso que, naquele momento, só me veio à cabeça a pergunta que o obrigaria a provar-me aquela teoria, porém, antes mesmo de abrir a minha boca para levantar tal questão, ele, com uma rapidez de raciocínio que impressionava, começou a desfiar um rosário completo, anunciando a grande descoberta que seu irmão Tito Lívio Ferreira fizera desse tema e, inevitavelmente, como tudo estava documentado.

Eu, que admirava muito o historiador, passei então, após aquele almoço, a admirar o ser humano. O homem que lutava pela verdade histórica. Que queria ver todas as escolas a ensinarem, com fidelidade, os grandiosos factos históricos de um país impressionantemente belo e poderoso como o Brasil. Aquele ser, capaz de verter lágrimas, como aconteceu, quando nos contou do sofrimento dos que trabalharam na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Aquele indivíduo que fez de uma simples refeição entre amigos um manifesto pela pátria, numa luta para salvar o património ecológico mais importante do mundo. Um homem impressionantemente culto.

Depois daquele dia fui reencontrá-lo numa conferência de António Soares Amora, na Academia Paulista de Letras. Sentamo-nos lado a lado e, antes de começar o evento, a nossa conversa percorreu uma série de caminhos literários, até que fomos interrompidos por minha querida amiga Lygia Fagundes Telles, que chegou entusiasmada com inúmeras novidades ligadas à Academia Brasileira de Letras, todas elas relacionadas com um pedido meu para que a Casa de Machado de Assis fizesse justiça e reconhecesse publicamente a arbitrariedade cometida para com o Poeta Martins Fontes, num passado remoto[1].

Às reuniões literárias fomos juntando o convívio salutar durante os almoços de confraternização entre academias e institutos de cultura, de que ele era um dos mentores, além da participação em inúmeros eventos que possuíam a literatura como ponto principal de discussão. Passamos, eu e Manoel Rodrigues Ferreira, a ter uma amizade forte, um laço cultural que unia duas gerações tão distantes uma da outra, separadas por cinquenta anos.

Agradeço-lhe tudo o que me ensinou. Todos os caminhos históricos, numa Casa de Historiadores como é o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que me ajudou a percorrer. Agradeço a sua palavra de incentivo e, às vezes de repreensão, exatamente como um professor deve fazer a um aluno novato. Agradeço-lhe por ter-me apresentado a Mécia, sua filha, minha grande amiga e, com o passar dos anos: irmã.

Quando ocorreu a morte de Manoel Rodrigues Ferreira senti-me profundamente triste, não apenas pelo óbvio que cerca o sentimento de perda, mas por estar neste meu exílio involuntário, distante da minha pátria e dos meus amigos de tantos anos, que me ajudaram nesta caminhada, lenta, porém, progressiva, pelas letras. Uma distância que impediu a despedida final, o agradecimento por tudo o que me ensinou. Distância essa que me impossibilitou de oferecer à minha querida irmã o ombro tão necessário nesse momento. E que obstou-me de consagrar o fraterno abraço de amizade a todos aqueles que connosco conviveram durante tantos e tão bons anos, numa São Paulo fascinante, por sua grandeza física e por sua pujança histórica.

Ser Paulista

         Ser Paulista! É ser grande no passado!
                         E ainda maior nas glórias do presente!
                         É ser a imagem do Brasil sonhado,
                         E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente!

                         Ser Paulista! É morrer sacrificado
                         Por nossa Terra e pela nossa Gente!
                         É ter dó da fraqueza do soldado,
                         Tendo horror à filáucia do tenente.

                         Ser Paulista! É rezar pelo Evangelho
                         De Ruy Barbosa, o Sacrossanto Velho,
                         Civilista imortal da nossa fé!

                         Ser Paulista! – Em brasão e em pergaminho,
                         É ser traído e pelejar sozinho,
                         É ser vencido, mas cair de pé!”[2]


*


[1] Ainda aguardamos que a justiça seja feita.
[2] Martins Fontes, José. Paulistânia. 1ªed. São Paulo, Elvino Pocai, 1934, p.53.

domingo, 16 de setembro de 2012

Ao lado do Povo


Amigos, infelizmente não tenho fotos da nossa luta de ontem em Lisboa. Não tenho por que não fui com vontade nenhuma de ser jornalista de mim próprio. Fui com o coração aberto e uma tremenda vontade em gritar. Voltei para casa esperançoso, completamente encharcado em suor e... afónico. 

Senti-me vivo novamente, pois, lembrei-me, e não contive as lágrimas devido às lembranças, de um momento forte 
de minha vida, quando participei em São Paulo, no dia 25 de janeiro de 1984 do Movimento das Diretas Já. Éramos muitos, mais de um milhão e meio de pessoas.

Em Lisboa, ontem, a multidão não era no mesmo número, porém, o que se ouviu possuía a mesma força.

Senti falta, apenas, de uma coisa: se a polícia tirasse os capacetes e se o exército viesse ao nosso encontro e todos, JUNTOS, subíssemos a escadaria da Assembleia da República e tomássemos pacificamente aquela Casa, com toda a certeza, o fantoche que está na presidência da República seria obrigado a destituir o (des)governo de Portugal. E isso, seria... JÁ! HOJE! Como isso não aconteceu (por que tanto a polícia quanto o exército ainda não entenderam que fazem parte do povo e que deveriam estar do nosso lado) ainda não vai ser desta vez que a canalha vai sair do poder.

Mas, EU ACREDITO! Este país vai mudar! Precisamos de Coragem para fazer, desta, uma grande Nação!