sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Hermínio Maçãs: O Idealista Erudito



Em março de 1974, um homem de porte atlético, galantemente vestido com uma impecável farda branca, abraça-me à minha chegada ao aeroporto de Luanda, Angola.
 
O mesmo homem que nove anos antes fora testemunha do meu batizado, e eu, pequeno e inconsciente rebento, naquele mesmo dia, o fui do seu casamento, em Santos, Brasil.
 
Quando, na terra de José Malhoa, às 10:15 horas, do dia 18 de setembro de 2013, o coração desse homem decide encerrar a sua jornada na Terra, termina também ali o percurso de uma vida repleta de Honestidade, Idealismo e Perdão.
 
Hermínio Maçãs foi um Puro! Todo o seu percurso, nos campos profissional e pessoal foi recheado de loas à vida e de ajuda ao próximo.
 
Formado em Filosofia, em 1958, aquele jovem seminarista aproveitara bem todo o seu trajeto estudantil na adolescência, dedicando-se também à Música Erudita e ao Latim. Assim, quando entra na Faculdade de Direito de Lisboa no ano de 1961 era já um rapaz respeitado e admirado pelos seus pares.
 
Em 1962, porém, esse percurso fora interrompido, devido à sua participação na Greve Académica daquele ano. Em fevereiro, o Governo proíbe, uma vez mais, as comemorações do Dia do Estudante, provocando a ira dos estudantes, que, de imediato, tomam de assalto a cantina universitária. Quando, a Academia de Lisboa realiza a greve de protesto, os estudantes de Coimbra solidarizam-se, tornando assim o acontecimento num evento de proporção nacional. A polícia entra, com muita violência, em choque com os estudantes em Lisboa. Como resultado de toda a contenda, ocorre a demissão do reitor Marcello Caetano (que era também professor de Hermínio Maçãs) e é decretado luto académico em Lisboa e Coimbra. Em junho daquele ano, todos os estudantes que participaram dos conflitos foram repreendidos. Hermínio Maçãs foi expulso.
 
O Ministério do Exército não foi complacente e antecipou a chamada do jovem, colocando-o como Oficial miliciano em Mafra, depois na Ilha Terceira, nos Açores, posteriormente em Santa Margarida e, por fim, assumindo grandes responsabilidades, é enviado para a Guiné Bissau. Quando lhe foi retirado o serviço militar obrigatório, ao fim de vários anos, voluntariou-se para o Regimento de Infantaria nº 5, em Caldas da Rainha e, ao término, aceitou realizar uma Comissão de Serviço, em Luanda, no Quartel-General da Região Militar, até ao Dia da Independência de Angola.
 
Depois da estadia em África, seguiram-se sete anos de Brasil (1975-1982), em vida prática. Depois desta, retorna a Portugal, onde, entre outras atividades, reinicia o Curso de Direito, concluído em cinco anos.
 
Hermínio Maçãs doou muito de seu tempo a causas sociais e culturais, sempre de coração aberto e sem interesses. Chegou, inclusive, a exercer dois mandatos, pelo Partido Socialista, como presidente da Junta de Freguesia de Santo Onofre, em Caldas da Rainha (recusando vencimento mensal, dividindo-o pelos outros componentes da Junta), além de ter sido, no ano de 2001, candidato à presidência da Câmara Municipal da mesma cidade.
 
Foi um dedicado maestro de três grupos corais (sem auferir vencimento) e, por estar sempre próximo da religião católica, ajudou desinteressadamente, a organizar missas e inúmeras solenidades promovidas pelos católicos, por todo o concelho.
 
A 19 de setembro, um caudal humano o acompanhou à sua última morada. Com certeza, todos, ali estavam em retribuição pelo bem que dele receberam. Celebrava-se, portanto, a Amizade.
 
Quando, naquele derradeiro momento, coloquei em seu ombro a sua toga, deixei ali ficar também a possibilidade de voltar a ouvir os seus ensinamentos de Música e Latim, a sua crítica construtiva, o seu voto de confiança, e a sua objetividade e clareza perante o deslumbre que é a Vida.
 
Se um dia, após a minha morte, perguntarem quem fui, podem ter certeza que se dirá: “Era, com muito orgulho, sobrinho de Hermínio Maçãs”!

2 comentários:

Mira disse...

anjo de luz, Hermínio Maças tem muito orgulho no sobrinho Rui Calisto <3


Mila Calixto

Anónimo disse...

A magnifiência das palavras deste texto, dão vontade de ler sem parar todas as belas palavras deste Autor. Estranho, e curioso, é não haver comentários. Existir apenas um , de "Mira", que permite que assim outros também possam comentar. Bem -haja "Mira", por tornar fácil, o que neste blog é tão complicado: fazer um comentário! Certamente que Hermínio Maças, tem orgulho no sobrinho com toda a razão ! Parabéns pelo bonito texto.

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