terça-feira, 18 de junho de 2013

José Rui Faria de Abreu

 
Existem amigos que, quando partem para os confins do Desconhecido, nos deixam uma lacuna na alma, difícil de preencher. Foi o caso do Faria de Abreu.
O primeiro contacto que tive com ele foi em Coimbra, no ano de 2001, quando fui obrigado a levar o meu pai, em consulta oftalmológica, de urgência. Após aquele dia, travamos uma salutar amizade, com vários telefonemas em diversos períodos nos anos que se seguiram, e até inúmeras visitas aquando das minhas várias passagens pela Terra dos Estudantes.
Os colegas diziam que ele era o melhor oftalmologista de Portugal, a Universidade de Coimbra tecia-lhe elogios e louvores, os pacientes – o meu pai incluído – diziam que ele era um médico respeitador e dedicado. Eu digo, simplesmente, que ele era uma figura humana sensível, logo, alguém que compreendia o valor da amizade.
José Rui Faria de Abreu faleceu na manhã do dia 27 de novembro de 2012 no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, aos 67 anos de idade, sendo sepultado no dia seguinte, pelas 15 horas, na Figueira da Foz, sete meses volvidos e só hoje consigo escrever algumas linhas a seu respeito. A dificuldade prendeu-se apenas com o facto do pensamento se desviar do assunto propositadamente, pois a mente não aceita o ocorrido, não admite a ausência, não quer imaginar que Coimbra está hoje muito, mas muito, mais pobre.
Faria de Abreu nasceu em Lisboa, a 10 de julho de 1945. Licenciou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, doutorando-se em Oftalmologia na área de Retinopatia Diabética (tema da sua tese de doutoramento). Seguiu-se a assistência na própria faculdade, sendo depois Investigador do Instituto Biomédico de Investigação de Luz e Imagem – Ibili – Universidade de Coimbra, exercendo trabalho diário no consultório particular, na Clínica Santa Madalena, no Hospital da Universidade de Coimbra, chegando aqui a ser Chefe do Serviço de Oftalmologia. Foi, também, um autor renomado, com uma série de publicações na sua especialidade, todas elas listadas e arquivadas pela Biblioteca Nacional de Portugal.
Uma maleita cardíaca tirou-o do nosso convívio, deixando a todos que o conheciam bem o tal vazio difícil de preencher. Sua esposa (Sra. D. Dirce Moreno) e os seus dois filhos (Eduardo Luís e Luís Pedro) têm mais razões para reclamar a perda, porém, eu tenho a razão da amizade, do ser que compreendia o escritor, por ter sido também um, do estudioso que entendia o valor da investigação literária que desenvolvo há tantos anos, por ter sido também um investigador profundo e cuidadoso.
Hoje reuni forças para homenageá-lo. Mais não faço. Amanhã será um outro dia…


 

sábado, 15 de junho de 2013

Traços Imprecisos



Esta manhã tive uma conversa séria e objetiva com um par de calças. Fui obrigado a dizer-lhe uns quantos impropérios, coisas que nem ouso escrever aqui, pois não sei a idade das pessoas que poderão ler estes rabiscos.

Confesso que não foi um diálogo nada fácil. Comecei por apontar-lhe alguns defeitos, como o de rasgar, além da conta, nos joelhos, depois da última ida à máquina de lavar. Sobre isso, ouvi uma resposta seca, do tipo “já me compraste rasgada”. E eu, sem titubear, fui obrigado a dizer-lhe que se não fosse o raio da moda que me obrigaram a meter goela abaixo, com certeza, não as compraria. Fui, imediatamente, chamado de volúvel, e de ser facilmente manipulável. Fiquei irado. Não bastava uma voz feminina a encher-me a cabeça, todos os dias, com o raio da moda, agora tenho que aturar, também, um par de calças insolente.

Quando alguém começa a irritar-me, dificilmente consigo olhar com bons olhos a nossa convivência, aliás, raramente o dia-a-dia volta a ser de equilíbrio, sensatez e com aquela política doméstica de boa vizinhança, que deve manter a ordem na casa. A vontade passa a ser uma só: a de aviar-lhe as malas e dizer-lhe que vá procurar pouso em outro lugar, neste caso seria: procurar cabide em outro armário.

Olhei profundamente para a sua cor azul desbotada, preparando-me para um ultimato feroz e definitivo, porém… veio à minha memória uma série de aventuras que vivemos juntos, umas belas taças de bom tinto com algumas amigas, um e outro encontro fortuito onde não fui o único a sair com um ar de felicidade no rosto (lembro-me bem daquele fecho éclair, com todos os dentinhos metálicos arreganhados de felicidade, por ter encontrado um zíper perfeito, e juntos, enrolados, num sofá, curtindo uma madrugada de abertura e fecho completamente louca).
 
Com a passagem dos minutos confesso que comecei a olhar para aquele par de calças com um saudosismo quase patético. Como podia então dizer-lhe tudo o que vinha em catadupa? Não consegui. Os momentos bons foram muito superiores a qualquer desavença que possa ter existido. Decidi por uma trégua. Acariciei-lhe as costuras e pendurei-a com todo o carinho no melhor cabide que encontrei, percebendo discretamente um suspiro de alívio e de agradecimento…

Se existe uma culpada, pelos rasgos aumentados naquelas calças, sem dúvida, só pode ser a máquina de lavar roupa, com aqueles movimentos sem emoção… Hummm… Vou até ali, para ter uma conversinha de pé de orelha com aquela maquineta…

sábado, 1 de junho de 2013

Sua Majestade Imperial Dom Pedro II






Existem pessoas que passam pelo planeta Terra e não deixam nenhuma marca, isso deve-se à pequenez das suas atitudes, das suas ações e dos seus pensamentos. Outras deixam algum mediano vestígio digno de recordação. E, apenas um pequeno número deixa uma mensagem intensa, forte e vibrante, que é impossível não estar sempre a citá-las como exemplo em nossas próprias vidas. Para mim, entre tantos que poderia aqui destacar positivamente, aponto o nome de Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, conhecido por todas as monarquias do mundo como D. Pedro II.

 
O Grande Imperador nasceu no Rio de Janeiro, no dia 2 de dezembro de 1825. Filho de Dom Pedro I (Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon), do ramo brasileiro da Sereníssima Casa de Bragança, e da Arquiduquesa Maria Leopoldina (Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena). A 7 de abril de 1831, com apenas 6 anos de idade, o Príncipe Imperial Pedro tornou-se "Dom Pedro II, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil”.

 
Esse homem, que assombrou a todos que o conheceram, devido às suas capacidades intelectuais, teve a infância e a adolescência voltadas para o estudo. Dominava a Antropologia, a Geologia, a Medicina, o Direito, a Religião, a Filosofia, a Geografia, a Pintura, o Teatro, a Escultura, a Fotografia (foi o primeiro fotógrafo do Brasil, tendo, inclusive adquirido uma câmera de daguerreótipo, em março de 1840, além de ter criado um laboratório fotográfico em São Cristóvão), a Música, a Poesia, a Química (criou um laboratório no Rio de Janeiro), a Física (também no Rio de Janeiro implantou um laboratório), a Astronomia (mandou construir um observatório no Paço) e a Tecnologia. Poliglota, dominava perfeitamente bem o inglês, o francês, o alemão, o italiano, o castelhano, o catalão, o latim, o árabe, o grego, o hebraico, o sânscrito, o aramaico, o chinês e o tupi-guarani.

A 23 de julho de 1840, com o apoio do Partido Liberal, e colocando fim ao Período Regencial Brasileiro, a Assembleia Geral do Senado declarou que D. Pedro II estaria apto para subir ao trono, apesar dos seus modestos 14 anos de idade. Assim sendo, foi ali preparada e aprovada a Declaração da Maioridade, que, acreditava-se, e veio a acontecer, voltaria a unir o Brasil, acabando com as revoltas: Farroupilha, Sabinada, Cabanagem, Revolta dos Malês e Balaiada, além de retirar do poder a Regência Una do Partido Conservador. O Grande Imperador foi aclamado, coroado e consagrado quase um ano depois, no dia 18 de julho de 1841.

Foi durante o seu reinado que surgiu o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Imperial Academia de Música, a Ópera Nacional e o Colégio D. Pedro II.

A Imperial Escola de Belas Artes, criada por seu pai, recebeu inúmeros incentivos financeiros.

Preocupado com a educação espalhou escolas por todo o país e ofereceu bolsas de estudo a inúmeros brasileiros, para que estes pudessem frequentar Escolas de Arte, Conservatórios e Universidades em várias partes da Europa. Financiou a criação do Instituto Pasteur e a Bayreuth Festspielhaus Casa da Ópera (de Richard Wagner).

Devido à infância reclusa, o Grande Imperador era tímido, carente e solitário, vendo o mundo pelo prisma da literatura, sendo esta um refúgio, um porto seguro à sua alma. Aqueles que esperavam um imaturo adolescente a assumir o trono enganaram-se, pois a sua dedicação a todos os assuntos do reino, as suas inspeções diárias, as suas visitas repentinas às repartições públicas, mostraram que ele sabia perfeitamente bem o que o povo necessitava e o que o país esperava de si.

D. Pedro II herdou um Império quase extinto, porém, a sua grandeza de espírito, a sua força interior, o seu modo de ser e estar, fizeram do Brasil a grande potência emergente daquela era. A estabilidade política, a liberdade de expressão, o crescimento económico veloz, o respeito aos direitos civis, todo um conjunto de fatores que foi marcando o seu nome na história das Monarquias, fez com que o Brasil fosse catapultado para uma esfera altíssima de respeito e admiração internacional, porém, foi a sua forma direta de governo, uma monarquia parlamentar constitucional, a raiz de todo o sucesso. A Monarquia de Dom Pedro II foi a verdadeira Democracia coroada.

As dificuldades apresentavam-se a todo o instante, por exemplo: três conflitos internacionais de grande monta: a Guerra do Prata, a Guerra do Paraguai e a Guerra do Uruguai, além de vários “enervamentos” caseiros, sim, por que apesar do sucesso do seu reinado, os insatisfeitos, naturalmente os que ambicionavam o poder e os benefícios deste, estavam sempre a tentar perturbar a paz instalada.

D. Pedro II foi um fervoroso adepto da abolição da Escravatura, logo conquistando muitos inimigos, foi também um incentivador e patrocinador da cultura e da ciência, e com tanto sucesso que recebeu congratulações, respeito, admiração e amizade de ilustres figuras, entre elas: Friedrich Nietzsche, Charles Darwin, Alexandre Herculano, Alexander Graham Bell, Louis Pasteur, Victor Hugo, Henry Wadsworth Longfellow, Arthur de Gobineau, Frédéric Mistral, Alessandro Manzoni, Camilo Castelo Branco, James Cooley Fletcher, Richard Wagner, Louis Agassiz, John Greenleaf Whittier, Michel Eugène Chevreul, e António Carlos Gomes. Foi, deste último, um grande mecenas, bem como de Vítor Meirelles, Pedro Américo, Gonçalves Dias, Gonçalves Magalhães, entre outros, apoiando-os social e financeiramente na carreira que abraçaram.

 
No ano de 1875, foi eleito com pompa e circunstância Membro da Academie des Sciences de France, é de destacar que somente Pedro, o Grande e Napoleão Bonaparte receberam igual honraria até àquela data.

 
O Grande Imperador foi um dedicado investigador das novas tecnologias, logo, interessou-se pelo telefone (foi o primeiro brasileiro a falar num aparelho desses, e isso ocorreu numa conversa com Graham Bell, no ano de 1876, na Exposição Universal, em Filadélfia, Pensilvânia, na comemoração do Centenário de Independência dos Estados Unidos, que foi inaugurada pelo próprio D. Pedro II e pelo presidente americano Ulysses S. Grant, nascido Hiram Ulysses Grant), pelo telégrafo, pelo cabo submarino, pela implantação da maior rede ferroviária da América do Sul, pela abertura de vários estaleiros para a construção naval, pela apresentação do comércio brasileiro para o capital externo, pela inauguração da iluminação a gás no Rio de Janeiro, pela permissão e apoio da entrada de europeus no Brasil, sendo também um incentivador e financiador da agricultura, do comércio e da indústria em solo brasileiro.

O povo admirava e respeitava o seu Imperador, mas, os inimigos do reino, acompanhados por um pequeno grupo de militares, desejavam a instalação da República e para ela trabalharam na sombra, minando diversos setores da nação. Inesperadamente um estúpido golpe de Estado retira D. Pedro II do trono. Um final incomum para um homem brilhante.

Com a deposição do Grande Imperador sucederam-se longos períodos de governos fracos, de crises financeiras, culturais e educacionais, além de ditaduras que mancharam o bom nome do Brasil perante o mundo.

Aquele fatídico 15 de novembro de 1889, dia da rebelião que depôs D. Pedro II, é uma mancha na história do Brasil.

Sereno, o Grande Imperador, quando soube da sua deposição, teve a modéstia e a simplicidade a ampará-lo: “Se assim é, será a minha aposentadoria. Trabalhei demais e estou cansado. Agora vou descansar”. Sendo obrigados a exilarem-se, D. Pedro II, a esposa Dona Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias (Teresa Cristina Maria Giuseppa Gasparre Baltassarre Melchiore Gennara Rosalia Lúcia Francesca d'Assisi Elisabetta Francesca di Padova Donata Bonosa Andréa d'Avelino Rita Liutgarda Geltruda Venância Taddea Spiridione Rocca Matilde, 1822 – 1889) e as filhas, princesas Dona Isabel (Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, 1846-1921) e Dona Leopoldina (Leopoldina Teresa Francisca Carolina Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, 1847-1871). A Família Imperial seguiu para a Europa a 17 do mesmo mês e ano (o casal teve outros dois filhos, porém, estes morreram em tenra idade: os príncipes Dom Afonso (1845-1847) e Dom Pedro (1848-1850)). O novo regime político suprimiu com severa brutalidade todas as tentativas de impedir a partida do Grande Imperador. A Liberdade foi tolhida, a voz do povo silenciada.

A Imperatriz Dona Teresa Cristina faleceu poucos dias depois da sua chegada à cidade do Porto, em Portugal.

D. Pedro II refugiou-se em Paris onde viveu dois anos cheios de tristeza e nostalgia. Vítima de uma pneumonia, a 5 de dezembro de 1891, às 00:35 horas, o seu coração parou.

Trezentas mil pessoas, entre elas, quase todos os representantes do governo francês, além de Francisco II, ex-rei das Duas Sicílias, Isabel II, ex-rainha da Espanha, Luís Filipe, Conde de Paris, representantes de outros governos, dos continentes americano, europeu e asiático. A maioria dos membros da Academia Francesa, do Instituto de França, da Academia de Ciências Morais, da Academia de Inscrições e Belas-Artes, da Royal Society, da Academia das Ciências da Rússia, das Reais Academias de Ciências e Artes da Bélgica, da Sociedade Geográfica Americana, compareceram às homenagens fúnebres. Quando estas terminaram, o esquife foi levado em cortejo até à estação do caminho-de-ferro, com destino a Lisboa, onde chegaria aclamado pela população e autoridades. A 12 de dezembro foi depositado no Panteão dos Braganças, na Igreja de São Vicente de Fora.

Quando soube da morte do Grande Imperador, o povo brasileiro cobriu-se de luto (sendo ferozmente combatidos pelos republicanos), fechando as portas dos estabelecimentos comerciais, ostentando tarjas negras nas roupas, colocando bandeiras a meia haste, executando toques de finados, realizando missas solenes por todo o país, pronunciando inúmeros discursos fúnebres em quase todo o território nacional.

Para o povo do Brasil, de Portugal e de muitas outras nações, com a morte de D. Pedro II, desaparecia um governante sábio, austero, honesto, benevolente e caridoso.

Em 1921, os seus restos mortais (bem como os da Imperatriz Dona Teresa Cristina) foram levados para o Brasil. Foi decretado feriado nacional. Uma grande manifestação popular ocorreu nesse momento, com o povo ajoelhando-se perante a passagem das urnas, batiam-se palmas, os mais velhos choravam, os mais novos mantinham a fronte baixa, não se via diferenças de raça, não se sabia quem era monárquico ou republicano, eram todos brasileiros, a clamar pelo seu Imperador.

O maior de todos voltava à sua pátria, para ali ficar para todo o sempre.

E eu, daqui do meu exílio, ofereço a minha mais alta estima e consideração a Sua Majestade Imperial Dom Pedro II, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil.