quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Desconstruindo um País





O ser humano atualmente não consegue perceber o mundo que o rodeia. O seu pensamento foge sempre para lugares comuns, incentivado por políticas de esquecimento. Quanto mais estupidez – fornecida por meio de comunicação e Governo - a envolver o dia-a-dia de cada um, melhor, pois, assim, o pensamento deixa de ser importante, caindo em desuso. Como resultado temos uma quantidade enorme de pessoas que caminham sob pernas que não são as suas e utilizam raciocínios que não são os seus. Como prova disto temos a classe política dominante, um manancial de Nada, eleito por pressão psicológica, carneirismo barato e estupidez generalizada.


Uma parcela, mínima de facto, consegue perceber as teias que emaranham a vida e, com frustradas tentativas, repetem gestos de rompimento com a feudalidade atual, porém, como não fazem parte de sistemas corrompidos e corroídos, naturalmente, ficam pelo caminho.


Este ser humano sem eira nem beira, que vota, e que discute por vazios, é perfeitamente manipulável, sendo, com a maior facilidade, a “carne apetecida” dos vigaristas e chico-espertos que enxameiam os cargos públicos.


Uma horda de políticos sem preparo, de nenhuma espécie, senta-se em cadeiras de decisão. Homens e mulheres que não possuem o mínimo conhecimento do que são ideais e ideologias, que não entendem a diferença em ser-se de Direita ou de Esquerda, estão apenas, e só, com interesses financeiros, pouco se importando com o cargo que assumiram ou com a população que neles votou.


A carneirada segue firme no seu propósito, que é o de lamber bem as botas do político que mais promessas lhes fez, pois, quem sabe, depois de eleito, caia-lhes nas mãos um empreguito, daqueles em que não é necessário trabalhar.


Tudo leva a crer que, esse ser humano que não consegue perceber o mundo que o rodeia, está pouco se importando com esse mesmo mundo. E, de eleição em eleição, de asneirada em asneirada, vai sendo cúmplice da desconstrução de um país. Até que chegamos ao absurdo de ouvir frases de efeito, entoando cânticos ao retorno dos militares ao poder, tanto no Brasil quanto em Portugal.


Triste sina, a dos que possuem o mínimo de honestidade e discernimento.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O Museu José Malhôa


O Museu José Malhôa, nas Caldas da Rainha, está a iniciar uma nova fase. Um momento de ressurgimento, de metamorfose, tão ansiado por inúmeros admiradores do imenso pintor.

Aquela Casa vive agora os primórdios de um novo esplendor, com um dinamismo - até então inexistente - alicerçado na força intelectual daquelas abelhas operosas que vivem o seu dia-a-dia. E são muitas, e muito bem conduzidas.

Logo ao entrar vislumbramos a imagem do claustro e, nele, a herma solene e austera do melhor pintor de Portugal. Percebemos, então, o que nos aguarda, a sobriedade inaudita que repousa em suas paredes e em seus corredores, elevados nomes, da pintura e da escultura, consagrados em suas épocas e respeitados, perpetuamente, por seu talento. A par disso, encontramos inúmeras obras do Patrono do Museu: óleos sobre tela, desenhos a carvão e desenhos a pastel.

Que honra para a cidade das Caldas da Rainha, em possuir tão elevada instituição de cultura. O Museu José Malhôa nasceu com dimensão nacional e é o primeiro museu em Portugal, e dos primeiros na Europa, cujo edifício foi construído expressamente com fins museológicos. É, também, o único museu lusitano representativo do Naturalismo em solo português. Com um significativo núcleo de obras de José Malhôa, merece ser visitado, contemplado e bem divulgado (está há anos na obscuridade, e poucos são aqueles que ao percorrerem o concelho se apercebem da existência desse espaço museológico, repositório de tanta riqueza pictórica e escultórica).

O visitante do Museu José Malhôa encontra, além da boa educação e excelente atendimento de todos os que ali exercem sacerdócio, uma Biblioteca que, a meu ver, deveria ser um repositório sobre o Mestre, porém, a mesma quase nada possui a seu respeito. Se quisermos ler sobre José Malhôa a literatura disponível é mínima. E a que existe em arquivos, considerada pesquisa de apoio, não está em condições de ser manuseada pelo público, pois, não foi, até então, devidamente catalogada e protegida dos amigos do alheio.

A nova e atual direção, enquanto estiver em funções, possui qualidade suficiente para reestruturar o acervo literário de José Malhôa, para isso necessita encerrar a Biblioteca à visitação pública e iniciar um delicado processo de resgate e catalogação do pouco que possui. A par disso, deve deslocar um de seus melhores investigadores até aos maiores centros de cultura do país, incumbindo-o de adquirir toda a bibliografia que falta. Será um trabalho de fôlego, porém, fundamental para uma Instituição como essa, que ostenta em sua fachada o nome de tão ilustre personalidade.

Sem querer ferir suscetibilidades - pois tenho vários amigos espalhados pelos partidos locais - peço uma gentileza à classe política: afastem-se do Museu José Malhôa. Não me levem a mal, mas, V. Excias em nada podem contribuir para com o crescimento daquela Instituição. O Museu José Malhôa é da população mundial, dos artistas e, principalmente, de todo aquele que ama e venera o Melhor Pintor de Portugal!




sexta-feira, 14 de março de 2014

Mécia Rodrigues


Hoje, faz exatamente dois meses que a cronista e contista Mécia Rodrigues morreu. Como seria do seu agrado, abri um bom vinho tinto e brindei à nossa velha amizade, iniciada no já distante ano de 1983.
 
Tantas semanas passadas e deixei de ouvir o eco das notícias a seu respeito. Ninguém, de tantos que com ela confraternizaram, teceu mais um comentário, ou escreveu uma linha a seu respeito. Nem os seus amigos, nem os seus advogados, nem sequer os curiosos que, através de uma rede social, foram pintalgando frases feitas a respeito da artista, no dia em que esta se foi.
As suas cinzas, o seu acervo literário, o de seu pai, os seus originais, as suas publicações, o seu arquivo, enfim: a sua vida foi deixada de lado. Mécia Rodrigues não deixou herdeiros que façam cumprir as suas vontades.
 
De minha parte, venho, calma e cuidadosamente, a escrever os prefácios e a preparar os volumes que deixou sob minha guarda, para, num dia de felicidade, os publicar, e dar a conhecer a muitos, várias de suas facetas literárias.
 
No dia seguinte à sua morte, algumas pessoas perguntaram-me o que seria do seu blogue. Quem poderia assumir a responsabilidade pela sua continuação. Respondi que aquele veículo de comunicação morrera com a autora. Muitos ficaram escandalizados. Mais chocados ficaram, depois de ouvirem a minha frase seguinte: A Mécia Rodrigues morreu para todos vós. Com o passar dos dias a verdade de um abandono pré-anunciado vai ser realidade. Dito e feito. A Mécia Rodrigues morreu para todos. Morreu porque não deixou fortuna. Morreu porque os livros que publicou em vida não se transformaram em diamantes. Morreu porque a alma humana só é sensível a quem a compra.
O ser humano é assim: pequeno, mesquinho e egoísta. Incapaz de mobilizar-se por outro. A não ser que anteveja lucro. O ser humano, numa só palavra, é simplesmente: Medíocre!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A recuperação do Acervo roubado


É de louvar a atuação das autoridades brasileiras, especialmente as da cidade de Santos que, agindo prontamente, conseguiram recuperar todo o Acervo roubado da Casa Edith Pires Gonçalves Dias/Museu Martins Fontes.

O que, mesmo assim, não me faz mudar de ideias, em relação à doação de todo o meu Acervo, referente ao Poeta-Maior, para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, pois, a falha técnica que a Casa Edith Pires Gonçalves Dias/Museu Martins Fontes mostrou é muito grave e não pode ser reparada apenas com a boa vontade da Prefeitura Municipal de Santos, que “pretende tomar as rédeas daquela Casa-Museu, fazendo dali um organismo público”. 

A Cultura deve ser levada mais a sério. E, todo o património cultural deve ser avaliado e protegido, para bem das gerações futuras.

Um bem-haja a todos que estiveram envolvidos na recuperação daquele património cultural!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Martins Fontes: O Poeta chora


Deste meu exílio voluntário, onde me encontro desde 2001, sou obrigado a manifestar o meu descontentamento pela perda recente, e irreparável para a cultura brasileira, do acervo de Martins Fontes, que estava sob responsabilidade da Casa Edith Pires Gonçalves Dias/Museu Martins Fontes, em minha Santos.

Esse acervo pertenceu ao escritor Roberto Fontes Gomes e este, meses antes de falecer, por telefone, perguntou-se se eu concordava com a doação que queria fazer para aquela Casa, naturalmente concordei, disse-lhe, inclusive, que todo o meu acervo ligado a Martins Fontes, incomparavelmente maior do que esse que foi agora destruído, poderá um dia, se eu sentir que estará completamente seguro, também fazer parte dessa Casa. Estou agora com grandes dúvidas quanto a isso. E, a pensar em, daqui a muitos anos, enviá-lo para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, ou outra instituição mais protegida.

A Prefeitura Municipal de Santos, bem como inúmeros organismos a ela ligados, como também a população santista e todos os meios de segurança da cidade, são culpados pelo ocorrido. É impressionante o abandono a que foi votado o nome de Martins Fontes (para não falar de outros). É inacreditável, o que se deveria fazer em prol da literatura santista, e dos seus grandes vultos, e não se faz, por capricho ou por ignorância.

Depois de vinte e quatro anos de pesquisa/investigação consegui concluir (sem nenhuma ajuda financeira, por que quem o poderia fazer: classe política e empresarial, nunca se resignou a isso) a Biografia Definitiva do grande Martins Fontes. Todo esse material está em revisão, e será publicado em dois volumes, num total de 1.250 páginas. Possuindo a mais-valia de conter 85% de informações inéditas, bem como documentos e fotografias, nunca vistos por nenhum outro pesquisador que tenha escrito sobre o Poeta-Maior. Esta Biografia será publicada na Europa e, só depois, através de minha agente literária, poderá existir uma edição brasileira.

Neste momento de tristeza, só me vem à mente todos os mal-amanhados discursos políticos que ouvi durante anos, acerca da riqueza do nome de MARTINS FONTES para a cidade de Santos e para o Brasil, de como esse nome seria envolto em glória e recuperado para que as futuras gerações se pudessem orgulhar desse gigante das letras, santista de nascimento e coração. Pois bem, como sempre soube, todo esse palavreado “caiu em saco roto”, nada restando dele. E agora, assim como eu, ele também estará a lastimar o ocorrido.

Do alto do seu glorioso céu estrelado de Luz, Benquerença e Sabedoria, o nosso Zézinho, médico caritativo (“Como é Bom Ser Bom!”), Poeta-Maior, chora. O seu desalento e o seu choro convulso se ouvirão por muitas décadas.

A Cidade de Santos aumentou a sua dívida para com ele!