sábado, 10 de agosto de 2013

Elegância no Quartier Latin


 
Nesta manhã deliciosamente quente, Natália, a doce e elegante advogada e estilista, proprietária deste blogue de moda, toca à campainha do amplo apartamento, encravado no Quartier Latin, em Paris. É um alvoroço. Todos se manifestam loucamente e, entre beijos e abraços, anunciam as saudades, reciprocamente atiradas ao ar abafado que se faz sentir.

O rio Sena, testemunha muitas vezes secular, observa à distância, o movimento que as figuras apresentam entre janelas imensas.

Os artistas e estudantes nas imediações não esticam pescoços, permanecendo cegos das cenas que se reproduzem ali. Se o fizessem veriam uma mulher deslumbrante a flanar levemente por toda a sala, pousando de janela em janela, analisando do alto de suas belas pernas toda a vida deste bairro boémio e sonhador.

Quando os seus olhos azul-céu vislumbram a Sorbonne, a vetusta Universidade fundada no século XII, algumas lágrimas caem, cada uma mergulha numa profundidade medieval, banhada em latim puro e meigo, somente compreendido pelos cândidos de alma.

Natália está exausta da viagem, mas não quer descansar. Vai refrescar-se rapidamente em tépidas águas e, como uma visão do céu, retorna, desta feita com ganas de passeio e de banho de loja. A primeira parte interessa-me, a segunda nem tanto… mas, como bom cicerone, acompanho-a em rocambolescos desfiles pelo bairro.

A multidão olha de soslaio. Natália causa furor por onde passa. Veste uma delicada túnica branca, deixando claramente à mostra todas as curvas que a natureza lhe ofereceu. Usa tênis confortáveis, também brancos, óculos escuros, chapéu de abas largas e alvamente belo. Lábios pintados com um vermelho suave e tentador, unhas bem tratadas, de verniz novo e encarnado. É a mulher que Michelangelo, Bouguereau ou Da Vinci gostariam de ter retratado. É a mulher que deslumbra, que desfila elegância e beleza na Paris do século XXI.

Uma sacerdotisa, que caminha levemente por entre olhares febricitantes, celebrando, por onde passa, todos os ofícios divinos que a Humanidade, rojada a seus pés, necessita, para viver em comunhão com o Alto.

A sua moda é descontraída e natural, a sua silhueta é cobiçada, o seu olhar provocador atiça ao mais distraído dos passantes, e são muitos, dezenas de turistas e de estudantes, sôfregos por saberem quem poderá ser aquela escultura.

Graças à leveza dos trajes o calor não a incomoda, a mim muito menos, que estou acostumado a momentos abrasados, fazendo com que seja um prazer a longa caminhada.

O vestuário da juventude à nossa volta é, também, descontraído, já os que estão em idade adulta envergam mais sobriedade. As palavras que se entrechocam são dialetos do mundo. Ninhos de nações rodopiam a cada metro percorrido. O furor por Paris é sabor e paladar por todo o planeta, todos os seres culturalmente esclarecidos merecem esta Cidade, e a desejam!

Aquelas pernas ágeis e magras optam por calcorrear todos os quadrantes do Bairro Latino: os recantos mais pitorescos e os monumentos grandiosos são analisados de forma meticulosa: na Igreja Saint-Étienne-du-Mont admiramos a padroeira de Paris, Santa Genoveva, e as tumbas de Jean Racine e Blaise Pascal; no Panteão viajamos pelos sessenta e sete túmulos, por onde nos passam nomes imensos, entre eles: Alexandre Dumas (pai), André Malraux, Diderot, Zola, Fénelon, Rousseau, Marie Curie, Descartes, Voltaire, Victor Hugo; na Igreja de São Julião, o Pobre, deslumbramo-nos com a sua traça, singelamente fascinante, e temos o prazer de beber um magistral concerto, parte do Festival Liszt Chopin.

Sem esboçar cansaço, avançamos para a gótica Catedral de Notre-Dame. Natália está comovida outra vez. Aquele esplendor arquitetónico possui uma história forte e enraizada no início do século XI, e é fruto de um burguesismo endinheirado e de imensa intervenção do clero urbano. Natália cora.

Avançamos, agarro-a pela mão, conduzo-a com uma certeza na mente: a próxima parada vai deixá-la deliciada. Em poucos minutos colocamo-nos diante da Livraria Shakespeare and Company. Distante do circuito tradicional de turismo, este monumento anglo saxônico foi fundado no ano de 1951, pelo americano Georges Whitman, no edifício de um antigo Monastério, datado do século XVI, em frente à Catedral de Notre-Dame. Natália estanca à entrada. A confusão generalizada a assusta. Não imaginava que aquele local pudesse ser tão desordenado como é, com as estantes abarrotadas, livros, revistas e jornais amontoados, muitos clássicos franceses e ingleses de cabeça para baixo, muito pó, muitos ácaros pelo ar, foi a frase dita, porém, que não a impediu de entrar e ingerir o mesmo feitiço que seduziu inúmeros escritores, de todo o mundo, que frequentaram aquele local.

Pouco depois, Natália segura o meu braço com força, estamos diante da Arena de Lutécia, construída no século I, e que é um raro vestígio da Roma Antiga que ainda se pode admirar na Paris atual. Esse local foi utilizado como teatro e, infelizmente, como arena de combate entre gladiadores, e entre homens e animais. A nossa viagem intemporal permitiu-lhe um devaneio: a criação de túnicas com motivos relacionados com as cenas que deveriam ter ali ocorrido.

Eis que se apresenta, então, a estilista, a apaixonada por moda. O momento propício para caminhar em direção a casa. O entardecer faz-nos cócegas na barriga, a vontade de um quitute é grande, alguns crepes, com uma qualquer bebida exótica, ao som de uma boa banda, ou de algum cântico que nos preencha a alma. Pusemo-nos em movimento, comandados por vontades frugais, porém, indispensáveis à permanência da vida.

Esta jovem advogada, conhecedora profunda da moda do mundo, desfilou, hoje, sua leveza, sua alegria, sua beleza e seu talento, pelas ruas de Quartier Latin, como se fosse a verdadeira Cinderela. E ali, a minha teoria esteve sempre em destaque: quando uma mulher é deslumbrante de corpo, profunda de espírito cultural e inteligente, basta trajar o básico, pois nenhuma roupa de marca substituirá toda a luz que de si transborda.

Durante a estada de Natália em Paris, com certeza, muitas discussões saudáveis surgirão. Ela, em defesa da moda, eu, anti moda assumido, a tentar oferecer-lhe fantasmas, invocando Hemingway, Hugo, Rabelais, Verlaine, Molière, Diderot, Voltaire.

E, um dia, assim como eu, ela poderá sentir a Cidade Luz no coração, amando-a como se de uma mulher se tratasse. E parafraseando Victor Hugo, ela poderá dizer:

“… A função de Paris é dispensar ideias. Sacudir sobre o mundo um inesgotável punhado de verdades (…) Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos (…) O que completa e coroa Paris é o literário. A luz da razão é necessariamente a luz da arte. Paris ilumina em dois sentidos: por um lado, a vida real, por outro a vida ideal. Por que esta cidade vive imersa no belo? Por que está imersa no verdadeiro.”

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