Durante mais de um século, a fotografia ocupou um lugar singular no imaginário coletivo. Não observávamos apenas uma imagem, mas sim um vestígio, uma marca física deixada pela passagem do real. Podia mentir por enquadramento, por omissão, por encenação, é certo, contudo, mesmo quando enganava, permanecia ligada a um instante que efetivamente existira diante da objetiva. A sua força residia precisamente nessa ligação quase material ao acontecimento. Nos dias que correm essa certeza começou a dissolver-se. Percorremos diariamente as redes sociais, os sítios noticiosos, os arquivos digitais e as plataformas de partilha de conteúdos sem sabermos ao certo se aquilo que contemplamos alguma vez aconteceu. Rostos inexistentes sorriem para câmaras que nunca os fotografaram. Multidões imaginárias ocupam praças onde jamais estiveram. Figuras históricas surgem em cenários fabricados por algoritmos que trabalham com uma rapidez impressionante e uma indiferença absoluta perante a verdade. A ques...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.