A atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2026 à escritora canadiana Anne Carson, poeta, ensaísta, tradutora e estudiosa da Antiguidade clássica, devolve-nos uma velha questão do panorama editorial português: quem reconhece o valor literário antes de a consagração internacional o transformar em notícia? A obra de Carson, que faz dialogar os mitos gregos com as inquietações contemporâneas e atravessa, sem respeitar fronteiras rígidas, a poesia, a prosa e o ensaio, exige leitores disponíveis para a complexidade. Não se acomoda à leitura apressada nem se presta a fórmulas de consumo. A Academia Sueca distinguiu precisamente a audácia de uma escrita que, em diálogo com a tradição clássica, abre novos caminhos à literatura contemporânea. O panorama brasileiro oferece outro elemento de comparação. Anne Carson começou a ser publicada no Brasil em 2017, o mesmo ano em que a sua obra chegou às livrarias portuguesas, mas a edição brasileira foi conhecendo uma expansão significativa, com ...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.