Há encontros que a história recusa, mas que o espírito, esse, mais livre e mais insinuante, persiste em conjeturar. Entre eles, avulta o possível diálogo entre Eça de Queirós e Victor Hugo, duas consciências literárias de primeira grandeza, tangentes no tempo, embora nunca verdadeiramente coincidentes. Victor Hugo, nascido em 1802, cedo se afirmou como um dos pilares do romantismo europeu. Quando Eça veio ao mundo, já o autor de Les Misérables se erguia como uma figura quase tutelar, não apenas das letras francesas, mas de uma certa ideia de intervenção moral e cívica. Havia na sua escrita um fôlego vasto, uma inclinação para o sublime, para a exaltação das paixões e das injustiças humanas em escala quase monumental. Eça, surgido décadas mais tarde, inscreve-se num outro horizonte. A sua pena, mais contida, embora não menos incisiva, afasta-se do arrebatamento romântico e aproxima-se de uma observação lúcida, por vezes mordaz, da realidade social. Onde Hugo amplifica, Eça ...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.