Não é fácil olhar para os Pavilhões do Parque D. Carlos I sem experimentar uma certa perplexidade. Estão ali, no coração de um dos espaços mais importantes das Caldas da Rainha, testemunhando uma época em que a cidade se pensava de outra maneira, quando a arquitetura, a medicina, o termalismo e a própria ideia de progresso participavam de uma mesma concepção de cidade. E, no entanto, aquilo que deveria ser hoje uma parte viva da memória caldense foi ficando entregue à erosão, à demora e à indiferença que se instala quando uma situação se prolonga durante demasiado tempo. O mais difícil de compreender não é a passagem dos anos. O tempo passa sobre tudo, e nenhuma obra humana possui o privilégio da eternidade. O que custa compreender é a incapacidade de uma cidade para decidir o que quer fazer com uma herança que recebeu. Desde a morte de D. Rodrigo Berquó (1839-1896), arquiteto/engenheiro e homem de cultura, o projeto que este delineou parece ter perdido a continuidade e a determinação ...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.