Esta manhã, ainda sob a luz indecisa que antecede o pleno despertar do dia, recebi, de uma amiga querida, por via digital, uma fotografia que me perturbou mais do que estaria disposto a admitir à primeira vista. Não era, em si mesma, uma imagem extraordinária; e, no entanto, carregava consigo um peso silencioso, quase filosófico, como se condensasse, num único instante, uma longa sucessão de gestos, erros, ressentimentos e destinos cruzados. Nela surgia a figura de um indivíduo que, entre os anos de 1982 e 2000, marcou negativamente o meu percurso, alguém cuja presença, à época, me trouxe prejuízos que não foram apenas circunstanciais, mas também íntimos, difíceis de nomear e ainda mais de esquecer. Há seres que parecem mover-se sob o signo da inquietação permanente, como se carregassem dentro de si uma espécie de desordem essencial. A filosofia antiga, penso, inevitavelmente, nos estoicos, ensinava que o homem perturbado não é aquele que sofre por causas externas, mas aquele que s...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.