Entre os pensadores que, na contemporaneidade, se debruçaram com maior densidade e alcance sobre a ética animal, avulta, com particular nitidez, Peter Singer (1946-). A sua obra, vasta e insistente, gravita em torno da questão do estatuto moral dos seres não humanos, tema que, outrora periférico, ganhou centralidade graças, em parte, à sua intervenção teórica. Importa, todavia, situar essa figura num horizonte mais amplo, onde outras vozes, distintas no tom, divergentes no fundamento, também se fazem ouvir. Desde logo, o próprio Singer. Em 1975, deu à estampa Libertação Animal (Animal Liberation), texto que muitos, com alguma hipérbole, mas não sem razão, qualificam como a “bíblia” do moderno movimento pelos direitos dos animais. A sua posição radica no utilitarismo: não é a racionalidade, nem a linguagem, que confere relevância ética, mas antes a capacidade de sofrer e experimentar prazer, a chamada senciência. Daqui decorre uma tese incómoda, quase perturbadora: os interesses ...
RUI CALISTO
Ator, encenador, professor de Arte Dramática, escritor e jornalista.