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Não vi a minha mãe morta…

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Entre Figurinos e República

Confesso-me perplexo! Há, nisto tudo, qualquer coisa de estranhamente obsessiva. Como se um momento de evidente peso institucional — a tomada de posse de uma nação — fosse, de súbito, reduzido a quase nada, comprimido até ao mínimo valor político, apenas porque alguém decide deter-se no traje exibido pela esposa do Presidente da República eleito. Que curiosa inversão de prioridades, diga-se de passagem. É como se, na superfície do efémero, se procurasse substituir o exame do essencial. A questão fulcral não reside em sedas, rendas ou cortes de alfaiataria, mas sim na honra, na integridade e na capacidade de quem ocupa o mais alto cargo da República — valores que permanecem intocados pelo que o olhar elementar julga digno de nota. Vivemos, paradoxalmente, numa era de aparências, onde o trivial se inflama em debates públicos e a reflexão sobre o essencial se dilui em comentários fugazes. O regime é parlamentarista, sim, mas a presença de um chefe de Estado honrado constitui o eixo ne...

Publicado em sueco, lido na Escandinávia

Quando se fala do Prémio Nobel da Literatura , há um detalhe que quase ninguém fora do meio literário conhece, mas que, na prática, tem enorme peso. Para que um escritor entre verdadeiramente no radar da Academia Sueca, responsável pelo Nobel, é quase essencial que uma grande parte da sua obra literária esteja traduzida para sueco. Não é uma regra formal, dessas que se encontram num regulamento; é, antes, uma realidade pragmática: os académicos precisam de ler, reler, discutir, voltar a ler… e fazê-lo na própria língua torna tudo muito mais fácil. Por isso, quando um autor começa a ser publicado em sueco, diz-se — sempre com alguma prudência — que passou a existir uma pequena porta aberta. Uma possibilidade de que o seu nome circule mais intensamente no mundo literário da Escandinávia. Não quer dizer, claro, que o Nobel esteja à espera no fim do corredor; longe disso. Mas a porta abre-se, e isso já é alguma coisa. É aqui que entra António Lobo Antunes . O romancista português, au...

Aprender a Viajar

Quando estou nas Caldas da Rainha, surge-me sempre a mesma ideia: os autarcas, os que gerem a cidade e a região, deviam dedicar algum tempo das suas vidas a sair, a olhar para fora. Não por mero prazer, nem para fazer turismo, mas para ver com os próprios olhos como outras cidades vivem, como se organizam, como se protegem, e, acima de tudo, como evitam erros que nós por cá ainda insistimos em repetir. Isto aplica-se, sem dúvida, à Cultura, à Educação, à Arquitetura e aos Transportes Públicos. São áreas que definem uma cidade, que dão forma à vida das pessoas, mas que também castigam quando mal geridas. Na Cultura, viajar é abrir os olhos para o que pode ser feito, para perceber como se cuida do património, como se mistura tradição com modernidade sem destruir identidade. Um mercado antigo, uma rua histórica, um museu ou uma oficina de cerâmica não são apenas espaços para olhar; são lugares vivos, cheios de memórias, de cheiro a pão, a tinta ou a barro, de histórias que se repetem ...

Lobo Antunes, sempre!

António Lobo Antunes, que nos deixou hoje, era um dos nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea — e a sua ausência vai ser sentida com uma intensidade que ultrapassa páginas e gerações. Escrevia como quem respira a verdade mais crua da vida: quase sempre fragmentado, com vozes que se entrelaçam e memórias que invadem o presente de forma avassaladora. Foi médico psiquiatra e experienciou de muito perto os horrores da Guerra Colonial, saberes que imprimiram uma marca indelével na sua obra literária— um timbre que jamais se ocultava nem se suavizava, mas que nos conduzia, sem concessões, ao cerne da condição humana, com toda a sua complexidade, fragilidade e contradição. A leitura de Lobo Antunes exigia não apenas atenção e entrega, mas também coragem: confrontávamo-nos com uma prosa densa, intrincada, que desafia a complacência do leitor. E, contudo, a recompensa era incomparável — uma sinceridade literária rara, quase ética, que revela a essência do humano sem artifício...

Eu e a minha circunstância

Quando releio Ortega y Gasset (1883-1955) e a sua frase “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim”, sinto uma espécie de sacudidela. É como se alguém me agarrasse pelo braço e dissesse: acorda, olha à tua volta, não te escondas. É incrível como, em poucas palavras, ele consegue colocar diante de nós toda a complexidade da existência. O “eu” nunca está sozinho; vive entrelaçado com tudo o que o rodeia — pessoas, lugares, acontecimentos. Separar-nos do mundo seria negar a nós mesmos, como cortar uma raiz que ainda pulsa sob a terra. E a segunda parte da frase, “se não a salvo a ela, não me salvo a mim”, pesa ainda mais. Não basta fingir que tudo se resolve sozinho, não basta esperar que o mundo se ajeite sem a nossa intervenção. Cada gesto de cuidado, cada atenção a uma injustiça, cada esforço por melhorar algo — mesmo que mínimo — é também um ato de autossalvação. É curioso como esta lição, tão simples e direta, ecoa o que Heidegger (1889-1976) dis...

A fragilidade da virtude

  A religião e a política continuam a moldar a nossa experiência do mundo. É difícil imaginar que deixem de o fazer nos próximos séculos — para o bem e para o mal. A religião, em teoria, deveria aproximar-nos do que é maior do que nós, ser um espaço de comunhão e de contemplação. Platão (428/427-348/347 a.C.), no Timeu , lembra-nos da importância de alinhar a alma com o Bem; que o contato com o divino não é apenas crença, mas equilíbrio e virtude. E, no entanto, quantas vezes aquilo que deveria unir, separou-nos? Quantas vezes diferenças espirituais se transformaram em muros invisíveis, em conflitos, em violência? Spinoza (1632-1677) dizia que a verdadeira fé não se opõe à razão; quando a religião é manipulada para servir o poder, corrompe não só as instituições, mas também a essência do espírito humano. A política enfrenta dilemas semelhantes. Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), na Política , defende que a comunidade só se sustenta se os governantes forem guiados pela virtude . Q...