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A prosa desabitada

Mensagens recentes

O medo da Cultura

Há um desconforto difuso quando se fala de cultura, uma espécie de retração que não se declara frontalmente, mas que se adivinha nos interstícios do discurso público, nas prioridades sucessivamente adiadas, naquele gesto quase automático de a empurrar para segundo plano, como se fosse um luxo delicado, apropriado apenas a tempos de abundância. E, no entanto, essa desvalorização não é inocente, nem meramente circunstancial. Revela, antes, uma tensão mais funda, enraizada na forma como as sociedades se organizam, distribuem poder e constroem sentido. A cultura, quando não é reduzida a ornamento, introduz complexidade, e a complexidade, convenhamos, raramente é bem-vinda em contextos que privilegiam a eficiência imediata e a estabilidade aparente. Desde logo, importa reconhecer que a cultura, entendida em sentido amplo, não se limita à produção artística ou à fruição estética. Ela constitui um campo simbólico onde se disputam narrativas, onde se sedimentam identidades e, sobretudo, on...

O silêncio sobre Saramago

A recente controvérsia em torno de José Saramago não nasce de nenhuma descoberta literária inesperada, nem de um manuscrito perdido que viesse, de súbito, reacender o seu nome. Não, é algo bem mais terreno, quase burocrático à primeira vista. E, no entanto, curioso… porque é precisamente nesses lugares aparentemente técnicos que se decide, sem grande alarido, o que permanece e o que se esbate na memória de um povo. Nos últimos dias, começou a circular a notícia de que os livros de Saramago poderão deixar de ser obrigatórios no 12.º ano, na disciplina de Português. A reação foi imediata, quase instintiva. Houve indignação, perplexidade, alguma confusão à mistura, o habitual, talvez. Mas convém abrandar um pouco, respirar, olhar melhor: não há, para já, decisão final. Trata-se de uma proposta, ainda em consulta pública, integrada na revisão das chamadas Aprendizagens Essenciais . Ou seja, o cenário está em aberto, embora já suficientemente exposto para gerar desconforto. O que está...

Ecos de um Perdão

Esta manhã, ainda sob a luz indecisa que antecede o pleno despertar do dia, recebi, de uma amiga querida, por via digital, uma fotografia que me perturbou mais do que estaria disposto a admitir à primeira vista. Não era, em si mesma, uma imagem extraordinária; e, no entanto, carregava consigo um peso silencioso, quase filosófico, como se condensasse, num único instante, uma longa sucessão de gestos, erros, ressentimentos e destinos cruzados. Nela surgia a figura de um indivíduo que, entre os anos de 1982 e 2000, marcou negativamente o meu percurso, alguém cuja presença, à época, me trouxe prejuízos que não foram apenas circunstanciais, mas também íntimos, difíceis de nomear e ainda mais de esquecer. Há seres que parecem mover-se sob o signo da inquietação permanente, como se carregassem dentro de si uma espécie de desordem essencial. A filosofia antiga, penso, inevitavelmente, nos estoicos, ensinava que o homem perturbado não é aquele que sofre por causas externas, mas aquele que s...

Os Sertões

Euclides da Cunha (1866-1909) publica, em 1902, uma obra de singular magnitude, verdadeira epopeia da existência sertaneja: Os Sertões . Neste livro, o autor retrata, com rigor e mestria, os acontecimentos da Guerra de Canudos (1896-1897), ocorrida no interior do Estado da Bahia, compondo um painel complexo e detalhado da realidade social e humana do sertão, que se articula entre a crueza dos factos históricos e uma reflexão quase metafísica sobre o destino coletivo. Em Os Sertões , manifesta-se de forma inequívoca a visão racial prevalente na época, ao sustentar a ideia de uma “raça superior” e ao defender o embranquecimento da população brasileira, em consonância com o determinismo de Hippolyte Taine (1828-1893), segundo o qual o homem é produto da confluência entre meio ambiente, a raça e o momento histórico. Nessa perspectiva, o mestiço brasileiro é considerado inferior, conceito que se evidencia em passagens que sublinham a instabilidade e a vulnerabilidade das populações sert...

XXV Congresso Nacional do Partido Socialista

Teve, entretanto, início o XXV Congresso Nacional do Partido Socialista, tendo sido escolhido, para acolher tão relevante assembleia, o pavilhão multiusos da cidade de Viseu, espaço amplo, quase simbólico na sua abertura, ainda que, por contraste, certas realidades internas pareçam fechar-se sobre si mesmas. A proclamação, de tonalidade otimista e impregnada de uma esperança deliberada, enunciada por José Luís Carneiro, “Estamos vivos”, poderá, em alguma medida, infundir ânimo aos que permanecem fiéis ao meu PS; todavia, não se afigura suficiente para pôr termo a práticas reiteradas que, de forma insidiosa, vêm corroendo o tecido das concelhias, erguendo barreiras onde outrora existia convivência entre camaradas. Como exemplo cito: desde o final da década de noventa, o PS/Caldas tem vindo a cultivar práticas profundamente nocivas, autênticos golpes na sua própria estrutura, discretos por vezes, mas persistentes. O resultado, esse, impõe-se com uma evidência quase desconfortável. ...

Heranças em movimento

Há dias em que a palavra “cultura” me soa a moeda gasta, dessas que passam de mão em mão até perderem o relevo, o desenho, a própria identidade. E, no entanto, insiste-se, repete-se, discursa-se sobre ela com uma segurança quase irritante. Sobretudo, diga-se, por quem raramente a frequenta, ou melhor, por quem a trata como conceito abstrato, arrumado numa gaveta ao lado de “economia” ou “legislação”. Advogados, por exemplo, ou deputados de ocasião, embora aqui talvez me esteja a alongar, mas há vícios que pedem nome. O curioso é que a cultura, essa coisa inquieta e escorregadia, nunca foi matéria de definição simples. Não cabe num decreto, nem se organiza em alíneas bem comportadas. É, antes, um organismo vivo, irregular, feito de camadas, de hesitações, de heranças contraditórias. Um conjunto de saberes, crenças, práticas, sim, mas também de silêncios, de gestos quase invisíveis, de hábitos que ninguém ensina e todos repetem. Pense-se, por exemplo, na Espanha. À primeira vista, ...