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O quarto onde cabem muitos

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A densidade do humano

Dir-se-ia, por vezes, que viver é uma espécie de sobreposição contínua, como folhas translúcidas, colocadas umas sobre as outras, sem nunca coincidirem perfeitamente. A psicologia, quando não cede à tentação de simplificar, aproxima-se desta ideia. Em A Interpretação dos Sonhos , de Sigmund Freud (1856-1939), o humano aparece como um campo de forças subterrâneas, desejos recalcados, imagens deslocadas, fragmentos que regressam sob disfarce. Não há linearidade, há retorno, insistência, deformação. E, curiosamente, aquilo que se oculta parece adquirir maior densidade do que o que se expõe. Mas não é apenas no oculto que essa espessura se manifesta. Carl Gustav Jung (1875-1961), num registo distinto, fala de arquétipos, formas antigas que atravessam o indivíduo sem lhe pertencerem inteiramente. Como se cada sujeito fosse habitado por narrativas anteriores, ecos coletivos que persistem. Não é identidade estável, mas antes uma espécie de palimpsesto, onde o novo nunca apaga completamente ...

Fenomenologia da alface

Existe algo de profundamente revelador no ridículo, não enquanto desvio episódico, mas como categoria quase filosófica, discreta, persistente, insinuando-se onde menos se espera. Dir-se-ia, aliás, que o burlesco não é o contrário da seriedade, é, isso sim, a sua caricatura involuntária, o seu espelho deformado, onde a intenção se perde e sobra apenas uma espécie de eco deslocado. E então, inevitavelmente, regressamos à alface. Não a hortícola, humilde, destinada ao prato, mas essa outra, transfigurada em indumentária comemorativa, erguida com surpreendente convicção num contexto que pede memória, densidade, até um certo silêncio interior. A Revolução dos Cravos, convenhamos, não se deve prestar a metáforas botânicas de ocasião. Há a flor, é certo, e nela cabe uma ideia inteira de ruptura sem violência, uma estética mínima, quase ascética. A alface, pelo contrário, parece já pertencer a outro domínio, o da proliferação gratuita, da abundância sem centro, da forma que não encontra co...

A persistência do mal

Há qualquer coisa de desconcertante, diria mesmo metafísico, na forma como o mal se insinua na história humana. Não entra de rompante, não se anuncia com trombetas, antes se instala devagar, como uma ideia que, repetida o suficiente, acaba por parecer razoável. E talvez seja esse o seu maior triunfo, não a violência em si, mas a capacidade de se normalizar. O século XX ofereceu-nos figuras que se tornaram, queira-se ou não, arquétipos sombrios. Adolf Hitler (1889-1945), Benito Mussolini (1883-1945) e Francisco Franco (1892-1975) não foram apenas homens com poder, foram encarnações de uma ideia mais vasta, a crença de que a ordem pode nascer da exclusão, de que a unidade exige silêncio, de que o diferente é, por definição, um problema a resolver. É curioso, ou talvez inquietante, como essas premissas, apesar de tão flagrantemente desastrosas, reaparecem com uma regularidade quase teimosa. Hannah Arendt (1906-1975), ao falar da banalidade do mal, sugeria algo profundamente incómodo...

Sobre o exercício da Democracia

Há, na Democracia, uma exigência que nem sempre se deixa ver de imediato, quase como aquelas ideias que só ganham forma depois de algum tempo de reflexão: a de reconhecer o outro, mesmo quando dele nos afastamos com convicção. Não se trata de simpatia, nem de cedência, muito menos de concordância. É algo mais sóbrio, talvez mais exigente, uma espécie de contenção interior que, convenhamos, nem sempre encontra espaço num tempo tão apressado como o nosso. Não surpreende, portanto, que, para certos horizontes ideológicos, mais inclinados à rigidez do que à convivência do diverso, esse exercício se torne penoso. A Democracia não é um território de linhas direitas, nem um espaço de unanimidades confortáveis. É, pelo contrário, um campo irregular, feito de tensões, sobreposições, ruído, ainda que um ruído com função própria, quase como o murmúrio constante de uma cidade viva. Ainda assim, esse mesmo regime que admite a pluralidade, exige, em momentos específicos, muita contenção. Pode ...

Madrid e os seus museus

Há cidades que se visitam. E há outras que se percorrem como quem lê, devagar, quase com receio de saltar uma linha. Madrid, sobretudo na zona do Paseo del Prado , pertence claramente a esta segunda categoria. Não é apenas um conjunto de museus, é uma espécie de narrativa contínua, onde cada sala parece responder, ainda que em surdina, à anterior. Começa-se, inevitavelmente, pelo Museo Nacional del Prado . E “começar” talvez nem seja a palavra mais justa, entra-se ali como quem atravessa um limiar. Há qualquer coisa de quase solene naquele espaço, mas sem rigidez. As obras estão lá, sim, mas não como relíquias distantes. Olham-nos. Interpelam-nos, às vezes com uma estranha familiaridade. Diante de As Meninas , de Diego Velázquez (1599-1660), por exemplo, há sempre um momento de suspensão. Não é apenas a técnica, nem sequer a composição, é aquela sensação difícil de explicar de estarmos dentro da pintura sem sabermos exatamente onde nos colocamos. E depois Francisco de Goya (1746-...

Júlia Cortines

Maria Júlia Cortines Laxe , nascida em Rio Bonito a 12 de dezembro de 1868 e falecida no Rio de Janeiro a 2 de abril de 1948, ocupa um lugar singular, embora discreto, mas não despido de significado, na história literária brasileira. Poeta, cronista e professora, de formação exigente e sensibilidade complexa, foi associada à escola Parnasiana, uma das mais elevadas e estruturantes correntes estéticas da tradição literária, responsável por elevar o verso a um patamar de rigor técnico, disciplina formal e depuração estética raramente alcançados, embora a sua escrita revele nuances que excedem, com subtileza, os limites mais rígidos dessa corrente. Filha de João Batista Cortines Laxe (1830-1875), jornalista e homem público, e de Júlia Pereira de Mesquita Cortines Laxe (1840-1869), cresceu num ambiente culturalmente favorecido, repartindo a sua formação entre a terra natal, Niterói e a então capital. Mas não é só isso, há sempre qualquer coisa que escapa aos registos formais: uma infân...