Há cidades que se visitam. E há outras que se percorrem como quem lê, devagar, quase com receio de saltar uma linha. Madrid, sobretudo na zona do Paseo del Prado , pertence claramente a esta segunda categoria. Não é apenas um conjunto de museus, é uma espécie de narrativa contínua, onde cada sala parece responder, ainda que em surdina, à anterior. Começa-se, inevitavelmente, pelo Museo Nacional del Prado . E “começar” talvez nem seja a palavra mais justa, entra-se ali como quem atravessa um limiar. Há qualquer coisa de quase solene naquele espaço, mas sem rigidez. As obras estão lá, sim, mas não como relíquias distantes. Olham-nos. Interpelam-nos, às vezes com uma estranha familiaridade. Diante de As Meninas , de Diego Velázquez (1599-1660), por exemplo, há sempre um momento de suspensão. Não é apenas a técnica, nem sequer a composição, é aquela sensação difícil de explicar de estarmos dentro da pintura sem sabermos exatamente onde nos colocamos. E depois Francisco de Goya (1746-...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.