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O Nobel e a miopia editorial

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2026 à escritora canadiana Anne Carson, poeta, ensaísta, tradutora e estudiosa da Antiguidade clássica, devolve-nos uma velha questão do panorama editorial português: quem reconhece o valor literário antes de a consagração internacional o transformar em notícia? A obra de Carson, que faz dialogar os mitos gregos com as inquietações contemporâneas e atravessa, sem respeitar fronteiras rígidas, a poesia, a prosa e o ensaio, exige leitores disponíveis para a complexidade. Não se acomoda à leitura apressada nem se presta a fórmulas de consumo. A Academia Sueca distinguiu precisamente a audácia de uma escrita que, em diálogo com a tradição clássica, abre novos caminhos à literatura contemporânea. O panorama brasileiro oferece outro elemento de comparação. Anne Carson começou a ser publicada no Brasil em 2017, o mesmo ano em que a sua obra chegou às livrarias portuguesas, mas a edição brasileira foi conhecendo uma expansão significativa, com ...

A Democracia diante da vertigem

O avanço da extrema-direita no Brasil já não pertence ao campo das inquietações episódicas. A sua presença no Congresso Nacional e no Senado, reforçada pela eleição de numerosos representantes de posições radicalizadas, revela uma transformação mais profunda da vida pública brasileira. O que está em causa não é a existência, perfeitamente legítima, de uma direita conservadora numa sociedade plural. Uma democracia precisa de conservadores, de socialistas, de liberais, de progressistas, de vozes discordantes. O perigo começa quando a política deixa de reconhecer no adversário um cidadão com direito à palavra e passa a enxergá-lo como uma ameaça à própria existência da nação. O Brasil tem uma memória demasiado longa para se permitir essa amnésia. Conheceu o autoritarismo, a censura, a perseguição política e a mutilação das liberdades durante a ditadura militar. A democracia que nasceu da lenta reabertura política não caiu do céu nem foi oferecida como dádiva aos brasileiros. Foi recon...

Lula da Silva: as razões de uma continuidade

Uma eleição presidencial é sempre um exercício de memória. O presente chega à urna acompanhado daquilo que um país viveu, das promessas que cumpriu, das que deixou pelo caminho e das feridas que ainda não conseguiu fechar. No Brasil de 2026, a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva apresenta-se sob o signo da continuidade. Para os seus apoiantes, essa continuidade não significa simplesmente prolongar um mandato presidencial. Significa preservar uma determinada concepção do Estado e da sociedade, fundada na redução da pobreza, na valorização do trabalho, na proteção social, na defesa dos direitos humanos e na recuperação de uma estabilidade institucional que os últimos anos submeteram a uma tensão excepcional. O desgoverno de Jair Bolsonaro deixou feridas profundas no Brasil, que se fizeram sentir em praticamente todos os campos da vida pública, da proteção social às políticas de saúde, da defesa do ambiente aos direitos dos povos indígenas, da igualdade racial à própria relação en...

O homem que desceu ao subsolo

Quando regresso às páginas de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), o que encontro não é apenas o antigo funcionário público de São Petersburgo, sem nome, que se retirou da vida e passou a habitar o território da própria consciência. Deparo-me com uma voz que conhece demasiado bem os caminhos do ressentimento, da humilhação e do orgulho, uma voz que transforma cada lembrança numa nova disputa e cada gesto numa matéria para intermináveis acertos de contas. É difícil permanecermos inteiramente à margem daquele homem, porque o seu subterrâneo é feito de coisas demasiado humanas: aquilo que não dissemos, as respostas que chegámos tarde demais a encontrar, as pequenas humilhações que o tempo não conseguiu apagar. Memórias do Subterrâneo , publicado em 1864, divide-se em duas partes. Na primeira, “O Subterrâneo”, o narrador entrega-se a um longo monólogo em que pensamento, ressentimento e consciência se confundem até ao ponto de já não sabermos onde termina a lucidez e começa a própria doença ...

Vidago, a civilização da água

A Europa teve, durante mais de dois séculos, uma maneira muito particular de tratar a doença, o ócio e a sociabilidade: inventou as cidades termais. A partir do século XVIII, lugares como Bath, Baden-Baden, Vichy, Karlovy Vary ou Montecatini Terme cresceram em torno de nascentes minerais e transformaram o tratamento numa experiência que envolvia arquitetura, jardins, hotéis, música, passeio e vida mundana. A água estava na origem, mas à sua volta nasceu uma verdadeira cultura. As onze cidades que integram o sítio transnacional The Great Spa Towns of Europe , inscrito pela UNESCO em 2021, constituem alguns dos testemunhos mais expressivos desse fenómeno. Vidago pertence a essa história sem possuir a escala urbana das grandes estâncias centro-europeias. Não tem as colunatas de Karlovy Vary, a monumentalidade de Baden-Baden ou a dimensão histórica de Bath. A sua singularidade está noutra relação com o território: o parque, a floresta, as águas e o hotel formam um conjunto em que a pai...

Cancelamento: o recurso dos insignificantes

Durante grande parte da minha vida, vi pessoas procurarem um lugar no mundo através daquilo que sabiam fazer. Hoje descobriu-se outro caminho, mais rápido e bastante mais cómodo: retirar espaço a quem já o conquistou. É a esse processo de deslegitimação pública, pelo qual alguém procura retirar a outro reconhecimento, autoridade ou lugar, recorrendo à exposição, à condenação e à mobilização coletiva contra a sua pessoa, que se chama cancelamento. Tornou-se, assim, uma curiosa forma de notoriedade por procuração, em que a pessoa que não consegue construir uma obra encontra no nome alheio matéria suficiente para edificar a sua própria importância. Conheci, ao longo de décadas de teatro, rádio, literatura e vida académica, pessoas que trabalharam anos para conquistar alguma autoridade e outras que confundiam notoriedade com valor. A diferença percebe-se depressa. Uma obra exige tempo, estudo, disciplina e humildade perante aquilo que ainda não sabemos. Uma acusação pode caber num pará...