A reflexão de Mário Cláudio, ao convocar Proteu para pensar José Régio (1901-1969), inscreve-se numa tradição crítica que desconfia das identidades fixas e das coerências demasiado lineares. Não se trata, note-se, de mero recurso ornamental à mitologia clássica, mas de um instrumento interpretativo que ilumina, com alguma acuidade, a natureza oscilante do sujeito regiano. Proteu, na tradição grega, era um antigo deus marinho ligado ao universo de Poseidon. Guardião de focas e conhecedor absoluto do passado, do presente e do futuro, possuía, porém, uma característica singular: recusava-se a revelar aquilo que sabia. Para arrancar-lhe uma resposta era necessário capturá-lo e resistir às suas incessantes metamorfoses. Transformava-se em fogo, água, serpente, árvore, animal feroz. Só quando o interlocutor suportava todas essas mudanças sem o largar é que Proteu regressava à sua forma inicial e consentia finalmente em dizer a verdade. Há, nesta imagem, qualquer coisa de profundamente ...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.