Existe algo de profundamente revelador no ridículo, não enquanto desvio episódico, mas como categoria quase filosófica, discreta, persistente, insinuando-se onde menos se espera. Dir-se-ia, aliás, que o burlesco não é o contrário da seriedade, é, isso sim, a sua caricatura involuntária, o seu espelho deformado, onde a intenção se perde e sobra apenas uma espécie de eco deslocado. E então, inevitavelmente, regressamos à alface. Não a hortícola, humilde, destinada ao prato, mas essa outra, transfigurada em indumentária comemorativa, erguida com surpreendente convicção num contexto que pede memória, densidade, até um certo silêncio interior. A Revolução dos Cravos, convenhamos, não se deve prestar a metáforas botânicas de ocasião. Há a flor, é certo, e nela cabe uma ideia inteira de ruptura sem violência, uma estética mínima, quase ascética. A alface, pelo contrário, parece já pertencer a outro domínio, o da proliferação gratuita, da abundância sem centro, da forma que não encontra co...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.