Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Ryoki Inoue

Mensagens recentes

Christian Jacq: o último escriba

Durante décadas, milhões de leitores atravessaram desertos imaginários através das páginas escritas por Christian Jacq (1947-), caminharam entre colunas monumentais, ouviram sacerdotes murmurando fórmulas funerárias diante do Nilo e acompanharam faraós que pareciam viver simultaneamente na política e no mito. Poucos escritores contemporâneos conseguiram transformar o Egipto Antigo numa paisagem emocional tão reconhecível. Será isso que explica o fenómeno? O Egipto nunca desapareceu verdadeiramente do imaginário ocidental. Continua ali, imóvel e silencioso, como uma obsessão arqueológica da civilização europeia. Roma caiu. Cartago desapareceu. A Grécia fragmentou-se em ruínas e filosofia. Mas o Egipto, não. O Egipto permaneceu sempre envolvido numa espécie de eternidade mineral. As pirâmides ajudam, claro. Nenhuma civilização compreendeu tão cedo o valor político da pedra. Há regimes modernos inteiros que duram menos do que um corredor funerário em Gizé. E isso produz vertigem. ...

Leopoldo II, o silêncio do mármore

Um fascista que recebeu inúmeras honrarias, mas não pagou pelos crimes que cometeu. A História europeia possui uma habilidade desconcertante para dourar monstros com verniz civilizacional. Presumivelmente porque os impérios sempre tenham compreendido que a pedra, o bronze e a arquitetura ajudam a purificar a memória. Erguem-se avenidas, inauguram-se monumentos, distribuem-se títulos honoríficos, e, lentamente, o sangue desaparece da narrativa oficial. Fica apenas o “estadista”, o “visionário”, o “rei modernizador”. Leopoldo II da Bélgica (1835-1909) pertence precisamente a essa galeria de figuras que a Europa tentou durante décadas contemplar sem olhar diretamente para as mãos. Em Bruxelas, ainda hoje, o seu nome permanece ligado a jardins, edifícios, projetos urbanísticos e grandes obras públicas. Chamaram-lhe o “rei construtor”. E é verdade que transformou parte da paisagem belga através de um programa ambicioso de modernização arquitetónica. O problema, claro, reside na origem...

A gramática da podridão

Há um analfabetismo particularmente perigoso, talvez o mais nocivo de todos, porque não se revela na incapacidade de ler um livro, interpretar um verso de Camões (1524?-1580) ou compreender uma página de História. Esse, apesar de tudo, ainda admite remédio. O outro, mais viscoso, mais subterrâneo, alastra entre corredores partidários, gabinetes acarpetados e salas onde se sorri em excesso. Refiro-me ao analfabetismo moral na política. Desde muito novo que observo criaturas desse género. Figuras que aprenderam cedo a arte da dissimulação, quase como quem frequenta uma academia clandestina de cinismo. Homens, e mulheres também, importa dizê-lo, que sobem degrau a degrau não pelo mérito, nem pela inteligência, muito menos pelo serviço público, mas através da intriga, do favor, da manipulação paciente e daquela habilidade profundamente ibérica de transformar cumplicidades em moeda corrente. Há nisto muito de medieval. Mudaram-se os trajes, desapareceram os castelos, mas o feudo permane...

Quando a cultura se reduz a ornamento

Tenho por hábito acreditar que um político possui o mínimo de sensibilidade para perceber que a verdadeira cultura é uma porta aberta ao enriquecimento de uma comunidade e que, sobretudo, não se deixa reduzir a esquemas binários de leitura, como se fosse possível encerrá-la numa geometria ideológica de Esquerda e Direita, como se tivesse, enfim, um lado certo e outro errado. Mas depois há a realidade, essa coisa menos elegante. Porque, no dia-a-dia político, a cultura raramente é entendida como território autónomo. É mais frequente ser tratada como um ornamento, ou, pior ainda, como um instrumento. Um palco útil para discursos, inaugurações, fotografias oficiais, cortes de fita, pequenas cerimónias onde a estética serve apenas para legitimar a administração do momento. E, no entanto, a cultura, a verdadeira, a que resiste ao tempo, nunca se comportou bem dentro dessas molduras. Vive mal com prazos eleitorais, com relatórios de execução, com a linguagem empobrecida da gestão. Tem ...

Gravata à lavallière

Durante décadas, talvez séculos, houve quem reconhecesse certas afinidades políticas, artísticas ou intelectuais por detalhes quase imperceptíveis da indumentária. Uma dobra específica do chapéu, o corte de um casaco, um lenço atado de forma negligente. A lavallière, com o seu laço amplo e vagamente desalinhado, pertenceu a esse universo de sinais subtis, meio mundanos, meio ideológicos, que dispensavam proclamações ruidosas. No século XIX, e ainda durante o primeiro quartel do século XX, artistas, estudantes e intelectuais de Esquerda, homens e mulheres, exibiam-na nas ruas de Paris, do Rio de Janeiro ou de Lisboa com uma naturalidade hoje difícil de imaginar. Havia nela qualquer coisa de simultaneamente elegante e indisciplinada. Não possuía a rigidez militar do colarinho fechado, nem a secura burguesa da gravata estreita que o capitalismo industrial acabaria por impor como uniforme moral. A lavallière caía, ondulava, respirava. E isso, convenhamos, já era uma forma de insubmissã...

“José Régio ou o pecado de Proteu”, de Mário Cláudio

A reflexão de Mário Cláudio, ao convocar Proteu para pensar José Régio (1901-1969), inscreve-se numa tradição crítica que desconfia das identidades fixas e das coerências demasiado lineares. Não se trata, note-se, de mero recurso ornamental à mitologia clássica, mas de um instrumento interpretativo que ilumina, com alguma acuidade, a natureza oscilante do sujeito regiano. Proteu, na tradição grega, era um antigo deus marinho ligado ao universo de Poseidon. Guardião de focas e conhecedor absoluto do passado, do presente e do futuro, possuía, porém, uma característica singular: recusava-se a revelar aquilo que sabia. Para arrancar-lhe uma resposta era necessário capturá-lo e resistir às suas incessantes metamorfoses. Transformava-se em fogo, água, serpente, árvore, animal feroz. Só quando o interlocutor suportava todas essas mudanças sem o largar é que Proteu regressava à sua forma inicial e consentia finalmente em dizer a verdade. Há, nesta imagem, qualquer coisa de profundamente ...