Há, na Democracia, uma exigência que nem sempre se deixa ver de imediato, quase como aquelas ideias que só ganham forma depois de algum tempo de reflexão: a de reconhecer o outro, mesmo quando dele nos afastamos com convicção. Não se trata de simpatia, nem de cedência, muito menos de concordância. É algo mais sóbrio, talvez mais exigente, uma espécie de contenção interior que, convenhamos, nem sempre encontra espaço num tempo tão apressado como o nosso. Não surpreende, portanto, que, para certos horizontes ideológicos, mais inclinados à rigidez do que à convivência do diverso, esse exercício se torne penoso. A Democracia não é um território de linhas direitas, nem um espaço de unanimidades confortáveis. É, pelo contrário, um campo irregular, feito de tensões, sobreposições, ruído, ainda que um ruído com função própria, quase como o murmúrio constante de uma cidade viva. Ainda assim, esse mesmo regime que admite a pluralidade, exige, em momentos específicos, muita contenção. Pode ...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.