Há um analfabetismo particularmente perigoso, talvez o mais nocivo de todos, porque não se revela na incapacidade de ler um livro, interpretar um verso de Camões (1524?-1580) ou compreender uma página de História. Esse, apesar de tudo, ainda admite remédio. O outro, mais viscoso, mais subterrâneo, alastra entre corredores partidários, gabinetes acarpetados e salas onde se sorri em excesso. Refiro-me ao analfabetismo moral na política. Desde muito novo que observo criaturas desse género. Figuras que aprenderam cedo a arte da dissimulação, quase como quem frequenta uma academia clandestina de cinismo. Homens, e mulheres também, importa dizê-lo, que sobem degrau a degrau não pelo mérito, nem pela inteligência, muito menos pelo serviço público, mas através da intriga, do favor, da manipulação paciente e daquela habilidade profundamente ibérica de transformar cumplicidades em moeda corrente. Há nisto muito de medieval. Mudaram-se os trajes, desapareceram os castelos, mas o feudo permane...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.