A bordo do navio camarário, a situação começa a adquirir aquela solenidade própria das grandes catástrofes, sobretudo quando os passageiros ainda discutem quem deverá ficar com o leme, enquanto a água já lhes chega aos tornozelos. O casco geme, as ondas entram sem pedir licença e, na ponte de comando, multiplicam-se reuniões de emergência, mapas e expressões graves. O navio, esse, continua a afundar-se com uma determinação que seria admirável se não ameaçasse levar consigo o concelho inteiro. Os mais velhos, que já viram muita embarcação partir com música e regressar em silêncio, recordam o barquinho do PS, cuja carreira terminou há algum tempo, depois de uma viagem em que a tripulação parecia acreditar que a boa vontade dispensava os conhecimentos necessários para chegar a bom porto. O episódio merecia figurar num manual de história política, no capítulo dedicado aos que confundiram a popularidade do batismo com a resistência do casco. Ficou a lição, ou assim se julgava. Porque, n...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.