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Entre a memória e o afeto

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A Alma de Santos

Cidade mais densamente povoada do litoral paulista, Santos apresenta-se, à primeira vista, como uma evidência quase geográfica: uma extensão contínua de cerca de sete quilómetros de praia, recortando o encontro entre a terra e o mar. Mas esse traço, que poderia ser apenas paisagem, transforma-se em signo — quase em ideia — quando se percorrem os jardins que acompanham a orla, reconhecidos como os mais extensos do seu género. Não são apenas jardins. São, de certo modo, uma tentativa de ordenar a natureza, de lhe impor uma medida humana sem a anular por completo. Há ali uma tensão discreta, mas persistente, entre o espontâneo e o cultivado, entre o que cresce por si e o que é cuidadosamente disposto. Talvez seja precisamente nesse equilíbrio — nunca totalmente resolvido — que se começa a compreender a cidade. No plano demográfico, Santos inscreve-se numa realidade que ultrapassa largamente os seus limites físicos. Com uma população que, em 2020, rondava os 433 mil habitantes, integ...

Falsidades políticas

Confesso — e não o digo sem um certo cansaço moral, quase uma fadiga da lucidez — que fico verdadeiramente pasmado quando me detenho sobre certos textos produzidos por alguns camaradas. Há, neles, uma estranha habilidade, quase uma arte refinada, de velar o passado, de suavizar — ou antes, de encobrir — a matéria menos digna dos seus próprios atos enquanto exerceram funções no seio da estrutura que agora, com voz grave e pose de tribuno, dizem querer regenerar. Não deixa de ser curioso — e, por momentos, até perturbador — observar como muitos desses mesmos autores se erguem em lições de moral, proclamando com solenidade princípios de igualdade entre pares, como se tais valores tivessem sido, em algum momento, prática viva das suas condutas. Mas não foram. E é precisamente essa dissociação entre palavra e gesto que fragiliza qualquer discurso. Como advertia Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), “entre o forte e o fraco, é a liberdade que oprime e a lei que liberta” — mas quando a lei é...

Não vi a minha mãe morta…

A frase escapou-se assim — despida, quase agreste — como sucede por vezes quando a dor antecede o pensamento e a linguagem se limita a acompanhar, com atraso, aquilo que o espírito mal consegue suportar. Ficou suspensa por um breve instante, como se o próprio silêncio, esse velho cúmplice das tragédias humanas, tivesse decidido acolhê-la com uma espécie de gravidade respeitosa. E não admira. Poucas experiências pertencem tão profundamente à condição humana — e, paradoxalmente, tão dificilmente se deixam dizer — como a morte. O meu pai e os meus tios ocultaram-me o sofrimento que a consumia, o mal que lentamente se insinuara no seu corpo. Não compreendi, então, essa decisão. Nem mais tarde souberam explicá-la. Ficou entre nós essa espécie de lacuna — discreta, mas persistente — como certas páginas rasgadas da memória familiar. “Não vi a minha mãe morta.” À primeira vista, a afirmação poderia parecer uma recusa. Uma evasão, talvez. Contudo, pensada com algum vagar, revela antes out...

Entre Figurinos e República

Confesso-me perplexo! Há, nisto tudo, qualquer coisa de estranhamente obsessiva. Como se um momento de evidente peso institucional — a tomada de posse de uma nação — fosse, de súbito, reduzido a quase nada, comprimido até ao mínimo valor político, apenas porque alguém decide deter-se no traje exibido pela esposa do Presidente da República eleito. Que curiosa inversão de prioridades, diga-se de passagem. É como se, na superfície do efémero, se procurasse substituir o exame do essencial. A questão fulcral não reside em sedas, rendas ou cortes de alfaiataria, mas sim na honra, na integridade e na capacidade de quem ocupa o mais alto cargo da República — valores que permanecem intocados pelo que o olhar elementar julga digno de nota. Vivemos, paradoxalmente, numa era de aparências, onde o trivial se inflama em debates públicos e a reflexão sobre o essencial se dilui em comentários fugazes. O regime é parlamentarista, sim, mas a presença de um chefe de Estado honrado constitui o eixo ne...

Publicado em sueco, lido na Escandinávia

Quando se fala do Prémio Nobel da Literatura , há um detalhe que quase ninguém fora do meio literário conhece, mas que, na prática, tem enorme peso. Para que um escritor entre verdadeiramente no radar da Academia Sueca, responsável pelo Nobel, é quase essencial que uma grande parte da sua obra literária esteja traduzida para sueco. Não é uma regra formal, dessas que se encontram num regulamento; é, antes, uma realidade pragmática: os académicos precisam de ler, reler, discutir, voltar a ler… e fazê-lo na própria língua torna tudo muito mais fácil. Por isso, quando um autor começa a ser publicado em sueco, diz-se — sempre com alguma prudência — que passou a existir uma pequena porta aberta. Uma possibilidade de que o seu nome circule mais intensamente no mundo literário da Escandinávia. Não quer dizer, claro, que o Nobel esteja à espera no fim do corredor; longe disso. Mas a porta abre-se, e isso já é alguma coisa. É aqui que entra António Lobo Antunes . O romancista português, au...

Aprender a Viajar

Quando estou nas Caldas da Rainha, surge-me sempre a mesma ideia: os autarcas, os que gerem a cidade e a região, deviam dedicar algum tempo das suas vidas a sair, a olhar para fora. Não por mero prazer, nem para fazer turismo, mas para ver com os próprios olhos como outras cidades vivem, como se organizam, como se protegem, e, acima de tudo, como evitam erros que nós por cá ainda insistimos em repetir. Isto aplica-se, sem dúvida, à Cultura, à Educação, à Arquitetura e aos Transportes Públicos. São áreas que definem uma cidade, que dão forma à vida das pessoas, mas que também castigam quando mal geridas. Na Cultura, viajar é abrir os olhos para o que pode ser feito, para perceber como se cuida do património, como se mistura tradição com modernidade sem destruir identidade. Um mercado antigo, uma rua histórica, um museu ou uma oficina de cerâmica não são apenas espaços para olhar; são lugares vivos, cheios de memórias, de cheiro a pão, a tinta ou a barro, de histórias que se repetem ...