A frase escapou-se assim — despida, quase agreste — como sucede por vezes quando a dor antecede o pensamento e a linguagem se limita a acompanhar, com atraso, aquilo que o espírito mal consegue suportar. Ficou suspensa por um breve instante, como se o próprio silêncio, esse velho cúmplice das tragédias humanas, tivesse decidido acolhê-la com uma espécie de gravidade respeitosa. E não admira. Poucas experiências pertencem tão profundamente à condição humana — e, paradoxalmente, tão dificilmente se deixam dizer — como a morte. O meu pai e os meus tios ocultaram-me o sofrimento que a consumia, o mal que lentamente se insinuara no seu corpo. Não compreendi, então, essa decisão. Nem mais tarde souberam explicá-la. Ficou entre nós essa espécie de lacuna — discreta, mas persistente — como certas páginas rasgadas da memória familiar. “Não vi a minha mãe morta.” À primeira vista, a afirmação poderia parecer uma recusa. Uma evasão, talvez. Contudo, pensada com algum vagar, revela antes out...
RUI CALISTO
Ator, encenador, professor de Arte Dramática, escritor e jornalista.