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“José Régio ou o pecado de Proteu”, de Mário Cláudio

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Manuel Calisto

Há, nas vilas antigas, um modo particular de nascer, ou talvez não seja apenas o nascer, mas a forma como esse instante se inscreve no tempo, quase como se a pedra o guardasse. Assim veio ao mundo Manuel Calisto, em Óbidos, distrito de Leiria, no dia 6 de fevereiro de 1909, pelas duas horas da madrugada. Não foi um nascimento qualquer; deu-se dentro das muralhas do castelo, esse recinto que, ao longo dos séculos, guardou mais do que batalhas e cercos, guardou vidas, silêncios, continuidades. Imagino a casa, arejada, de amplas janelas, para a época, talvez de paredes frias, iluminada por uma luz incerta, e o labor discreto de quem ajudava a trazer a criança ao mundo. Há sempre qualquer coisa de recolhido nesses momentos, um compasso suspenso. Lá fora, a vila dormia, alheia ao singelo acontecimento que, ainda assim, alterava para sempre uma linhagem. Poucos dias depois, a 21 de fevereiro, cumpriu-se o ritual que, durante gerações, marcou a entrada plena na comunidade, o batismo, na...

Memória primeira

  Todos os dias, ao despertar… Acorre-me, com uma insistência quase litúrgica, a imagem da minha Santa mãe. Detenho-me nesses instantes, com uma espécie de recolhimento íntimo, revisitando fragmentos da nossa alegria partilhada, numerosos, sim, mas também curiosamente depurados, como se o tempo lhes tivesse limado as arestas mais ruidosas. A lembrança mais remota, contudo, é a que me reconduz ao berço. E aqui hesito, pelo espanto que semelhante faculdade ainda hoje me causa, quem, afinal, logra recordar-se de tão recuada idade, desse território indistinto da primeira infância? Eu, para minha própria surpresa, retenho não apenas a cena, mas até o eco das palavras, com uma clareza que quase desconcerta. A Senhora Dona Elvira, investida de uma firmeza serena que não admitia contestação leviana, volta-se para o meu pai e declara, em tom resoluto, é essencial encostar o berço à parede e aproximar a nossa cama dele, não vá o rapazinho, num ímpeto qualquer, projetar-se dali e tomb...

O quarto onde cabem muitos

Há livros que se aproximam de um autor pela via da explicação. Este, Los últimos tres días de Fernando Pessoa: Un delirio , não. O texto de António Tabucchi (1943-2012) contorna Fernando Pessoa (1888-1935) como quem entra num quarto onde ainda há presença. Os últimos dias , esse lugar onde a biografia costuma fechar-se com uma espécie de pontuação final, são aqui outra coisa. Não há propriamente um fim. Há uma dilatação. O tempo abranda, hesita, quase se suspende, e é nesse intervalo que começam a surgir as presenças. Como continuidades imperfeitas de uma consciência que nunca foi una. O que Tabucchi faz, e faz com uma precisão quase silenciosa, é deslocar a morte do corpo para um plano menos evidente: o da identidade. Não morre apenas um homem; começa a desfazer-se uma organização instável de vozes. E, no entanto, esse apagar não possui nenhum sinal de violência. Há antes uma espécie de urbanidade final entre criador e criaturas, como se todos soubessem que aquele encontro tardi...

A densidade do humano

Dir-se-ia, por vezes, que viver é uma espécie de sobreposição contínua, como folhas translúcidas, colocadas umas sobre as outras, sem nunca coincidirem perfeitamente. A psicologia, quando não cede à tentação de simplificar, aproxima-se desta ideia. Em A Interpretação dos Sonhos , de Sigmund Freud (1856-1939), o humano aparece como um campo de forças subterrâneas, desejos recalcados, imagens deslocadas, fragmentos que regressam sob disfarce. Não há linearidade, há retorno, insistência, deformação. E, curiosamente, aquilo que se oculta parece adquirir maior densidade do que o que se expõe. Mas não é apenas no oculto que essa espessura se manifesta. Carl Gustav Jung (1875-1961), num registo distinto, fala de arquétipos, formas antigas que atravessam o indivíduo sem lhe pertencerem inteiramente. Como se cada sujeito fosse habitado por narrativas anteriores, ecos coletivos que persistem. Não é identidade estável, mas antes uma espécie de palimpsesto, onde o novo nunca apaga completamente ...

Fenomenologia da alface

Existe algo de profundamente revelador no ridículo, não enquanto desvio episódico, mas como categoria quase filosófica, discreta, persistente, insinuando-se onde menos se espera. Dir-se-ia, aliás, que o burlesco não é o contrário da seriedade, é, isso sim, a sua caricatura involuntária, o seu espelho deformado, onde a intenção se perde e sobra apenas uma espécie de eco deslocado. E então, inevitavelmente, regressamos à alface. Não a hortícola, humilde, destinada ao prato, mas essa outra, transfigurada em indumentária comemorativa, erguida com surpreendente convicção num contexto que pede memória, densidade, até um certo silêncio interior. A Revolução dos Cravos, convenhamos, não se deve prestar a metáforas botânicas de ocasião. Há a flor, é certo, e nela cabe uma ideia inteira de ruptura sem violência, uma estética mínima, quase ascética. A alface, pelo contrário, parece já pertencer a outro domínio, o da proliferação gratuita, da abundância sem centro, da forma que não encontra co...

A persistência do mal

Há qualquer coisa de desconcertante, diria mesmo metafísico, na forma como o mal se insinua na história humana. Não entra de rompante, não se anuncia com trombetas, antes se instala devagar, como uma ideia que, repetida o suficiente, acaba por parecer razoável. E talvez seja esse o seu maior triunfo, não a violência em si, mas a capacidade de se normalizar. O século XX ofereceu-nos figuras que se tornaram, queira-se ou não, arquétipos sombrios. Adolf Hitler (1889-1945), Benito Mussolini (1883-1945) e Francisco Franco (1892-1975) não foram apenas homens com poder, foram encarnações de uma ideia mais vasta, a crença de que a ordem pode nascer da exclusão, de que a unidade exige silêncio, de que o diferente é, por definição, um problema a resolver. É curioso, ou talvez inquietante, como essas premissas, apesar de tão flagrantemente desastrosas, reaparecem com uma regularidade quase teimosa. Hannah Arendt (1906-1975), ao falar da banalidade do mal, sugeria algo profundamente incómodo...