Há temas que, durante muito tempo, pareceram menores — quase marginais — e que, no entanto, dizem mais sobre uma sociedade do que muitos dos seus grandes discursos públicos. A forma como lidamos com os nossos mortos é um deles. E, talvez mais discretamente, a forma como nos despedimos dos animais que nos acompanharam ao longo da vida. A existência de cemitérios para animais em todos os concelhos não é, como por vezes se supõe, um capricho sentimental de uma época excessivamente emotiva. É, antes, o reconhecimento de um vínculo que se tornou estrutural na vida contemporânea. Os animais deixaram, há muito, de ocupar apenas um lugar utilitário; tornaram-se companheiros, presença quotidiana, por vezes até — e não será exagero dizê-lo — uma forma de amparo silencioso em vidas marcadas pela solidão ou pela fragmentação das relações humanas. Negar um espaço digno para a sua despedida é, de certo modo, ignorar essa transformação. Porque o luto, mesmo quando dirigido a um animal, não é me...
RUI CALISTO
Ator, encenador, professor de Arte Dramática, escritor e jornalista.