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Lula da Silva: as razões de uma continuidade

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O homem que desceu ao subsolo

Quando regresso às páginas de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), o que encontro não é apenas o antigo funcionário público de São Petersburgo, sem nome, que se retirou da vida e passou a habitar o território da própria consciência. Deparo-me com uma voz que conhece demasiado bem os caminhos do ressentimento, da humilhação e do orgulho, uma voz que transforma cada lembrança numa nova disputa e cada gesto numa matéria para intermináveis acertos de contas. É difícil permanecermos inteiramente à margem daquele homem, porque o seu subterrâneo é feito de coisas demasiado humanas: aquilo que não dissemos, as respostas que chegámos tarde demais a encontrar, as pequenas humilhações que o tempo não conseguiu apagar. Memórias do Subterrâneo , publicado em 1864, divide-se em duas partes. Na primeira, “O Subterrâneo”, o narrador entrega-se a um longo monólogo em que pensamento, ressentimento e consciência se confundem até ao ponto de já não sabermos onde termina a lucidez e começa a própria doença ...

Vidago, a civilização da água

A Europa teve, durante mais de dois séculos, uma maneira muito particular de tratar a doença, o ócio e a sociabilidade: inventou as cidades termais. A partir do século XVIII, lugares como Bath, Baden-Baden, Vichy, Karlovy Vary ou Montecatini Terme cresceram em torno de nascentes minerais e transformaram o tratamento numa experiência que envolvia arquitetura, jardins, hotéis, música, passeio e vida mundana. A água estava na origem, mas à sua volta nasceu uma verdadeira cultura. As onze cidades que integram o sítio transnacional The Great Spa Towns of Europe , inscrito pela UNESCO em 2021, constituem alguns dos testemunhos mais expressivos desse fenómeno. Vidago pertence a essa história sem possuir a escala urbana das grandes estâncias centro-europeias. Não tem as colunatas de Karlovy Vary, a monumentalidade de Baden-Baden ou a dimensão histórica de Bath. A sua singularidade está noutra relação com o território: o parque, a floresta, as águas e o hotel formam um conjunto em que a pai...

Cancelamento: o recurso dos insignificantes

Durante grande parte da minha vida, vi pessoas procurarem um lugar no mundo através daquilo que sabiam fazer. Hoje descobriu-se outro caminho, mais rápido e bastante mais cómodo: retirar espaço a quem já o conquistou. É a esse processo de deslegitimação pública, pelo qual alguém procura retirar a outro reconhecimento, autoridade ou lugar, recorrendo à exposição, à condenação e à mobilização coletiva contra a sua pessoa, que se chama cancelamento. Tornou-se, assim, uma curiosa forma de notoriedade por procuração, em que a pessoa que não consegue construir uma obra encontra no nome alheio matéria suficiente para edificar a sua própria importância. Conheci, ao longo de décadas de teatro, rádio, literatura e vida académica, pessoas que trabalharam anos para conquistar alguma autoridade e outras que confundiam notoriedade com valor. A diferença percebe-se depressa. Uma obra exige tempo, estudo, disciplina e humildade perante aquilo que ainda não sabemos. Uma acusação pode caber num pará...

Tertúlia

Não há muito tive a grata satisfação de bebericar um café com um amigo de longa data, pessoa que muito estimo e que não via há longos anos. O último encontro ocorrera na cadeira “Práticas de Escrita”, ministrada pela saudosa Prof.ª Dra. Teresa Amado (1940-2013). Depois, os afazeres profissionais foram-nos afastando, como tantas vezes acontece entre pessoas que não romperam qualquer laço, mas deixaram que a vida, com a sua habilidade burocrática para nos dispersar, tratasse do resto. Como o encontro ocorreu, casualmente, próximo do Martinho da Arcada, era inevitável que os nossos minutos de pasmaceira acabassem por ali. Dos muitos assuntos pendentes, obviamente estava a política. E ele, num tiro certeiro, sem meias palavras, atirou-me à cara: “soube que o teu PS acabou nas Caldas da Rainha”. O café, como sempre sem açúcar, entalou e produziu uma espécie de curto-circuito nas cordas vocais; senti um estremecimento e um calor excessivamente incómodo. Durante um segundo, que me parec...

Vinho, cerveja e futebol

Portugal é um país extraordinariamente competente a festejar aquilo que passa. Ergue palcos, pendura bandeiras, ilumina fachadas, contrata artistas, abre barris, distribui copos, inventa festivais e, quando a bola entra na baliza certa, descobre subitamente uma espécie de fraternidade nacional que nenhum tratado filosófico conseguiria produzir com tanta eficácia. O vinho cumpre a sua antiga função civilizadora, a cerveja resolve democraticamente certas diferenças de classe e o futebol, essa liturgia profana dos nossos dias, consegue reunir num estádio, ou diante de um ecrã, pessoas que, noutras circunstâncias, dificilmente concordariam sequer sobre o estado do tempo. Nada tenho contra isto. Uma cidade precisa de alegria. O que me angustia é a relação desigual que estabelecemos com o tempo. Para o presente encontramos muito dinheiro, entusiasmo, cartazes, microfones e fotografias. Para o passado encontramos, com demasiada frequência, uma cave. Um país pode beber o seu vinho, assis...

O direito de não me calar

Sempre tive dificuldade em assistir a uma injustiça e fingir que não a vi. É daí que vem a minha capacidade crítica. Desde cedo, as respostas prontas me pareceram insuficientes. Queria saber por que razão as coisas aconteciam, quem decidia, quem beneficiava, quem ficava prejudicado. Pensar, para mim, nunca foi apenas acumular conhecimento. Foi aprender a desconfiar das certezas demasiado cómodas. A cultura teve um papel decisivo nesse percurso. Os livros ensinaram-me que nenhuma época possui o monopólio da verdade; a História mostrou-me quanto podem ser perigosas as certezas absolutas; a literatura revelou-me a complexidade humana; o teatro ensinou-me a olhar uma mesma personagem de diferentes ângulos. A Universidade acrescentou a esse caminho a disciplina do estudo, o confronto com outras ideias e a exigência de fundamentar aquilo que se afirma. Entre os palcos, os livros, a escrita, a Universidade e a intervenção cívica, fui consolidando uma convicção simples: compreender não signifi...