Durante muito tempo, no Brasil, milhares de pessoas leram o mesmo homem sem o saber. Compravam-no em bancas de jornais, levavam-no em viagens longas de autocarro, abandonavam-no sobre mesinhas de cabeceira, dobravam-lhe os cantos, esqueciam-no em salas de espera, estações ferroviárias, consultórios médicos, quartéis, pensões baratas. Mudavam apenas os nomes impressos nas capas. Peter Kapra. Donald Curtis. Mortimer Cody. James Monroe. Jeff Madison. Havia dezenas deles. Quase quarenta identidades diferentes, dispersas por romances policiais, westerns, espionagem, aventuras militares, ficção científica, melodramas sentimentais, narrativas de guerra. O leitor comum dificilmente suspeitaria que, por detrás daquela multiplicação vertiginosa de autores estrangeirados, existia um único brasileiro sentado diante de uma máquina de escrever em São Paulo. Esse homem chamava-se José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue . A sua história é algo anómala, quase biologicamente improvável. Não apenas pelo vo...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.