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Vidago, a civilização da água

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Cancelamento: o recurso dos insignificantes

Durante grande parte da minha vida, vi pessoas procurarem um lugar no mundo através daquilo que sabiam fazer. Hoje descobriu-se outro caminho, mais rápido e bastante mais cómodo: retirar espaço a quem já o conquistou. É a esse processo de deslegitimação pública, pelo qual alguém procura retirar a outro reconhecimento, autoridade ou lugar, recorrendo à exposição, à condenação e à mobilização coletiva contra a sua pessoa, que se chama cancelamento. Tornou-se, assim, uma curiosa forma de notoriedade por procuração, em que a pessoa que não consegue construir uma obra encontra no nome alheio matéria suficiente para edificar a sua própria importância. Conheci, ao longo de décadas de teatro, rádio, literatura e vida académica, pessoas que trabalharam anos para conquistar alguma autoridade e outras que confundiam notoriedade com valor. A diferença percebe-se depressa. Uma obra exige tempo, estudo, disciplina e humildade perante aquilo que ainda não sabemos. Uma acusação pode caber num pará...

Tertúlia

Não há muito tive a grata satisfação de bebericar um café com um amigo de longa data, pessoa que muito estimo e que não via há longos anos. O último encontro ocorrera na cadeira “Práticas de Escrita”, ministrada pela saudosa Prof.ª Dra. Teresa Amado (1940-2013). Depois, os afazeres profissionais foram-nos afastando, como tantas vezes acontece entre pessoas que não romperam qualquer laço, mas deixaram que a vida, com a sua habilidade burocrática para nos dispersar, tratasse do resto. Como o encontro ocorreu, casualmente, próximo do Martinho da Arcada, era inevitável que os nossos minutos de pasmaceira acabassem por ali. Dos muitos assuntos pendentes, obviamente estava a política. E ele, num tiro certeiro, sem meias palavras, atirou-me à cara: “soube que o teu PS acabou nas Caldas da Rainha”. O café, como sempre sem açúcar, entalou e produziu uma espécie de curto-circuito nas cordas vocais; senti um estremecimento e um calor excessivamente incómodo. Durante um segundo, que me parec...

Vinho, cerveja e futebol

Portugal é um país extraordinariamente competente a festejar aquilo que passa. Ergue palcos, pendura bandeiras, ilumina fachadas, contrata artistas, abre barris, distribui copos, inventa festivais e, quando a bola entra na baliza certa, descobre subitamente uma espécie de fraternidade nacional que nenhum tratado filosófico conseguiria produzir com tanta eficácia. O vinho cumpre a sua antiga função civilizadora, a cerveja resolve democraticamente certas diferenças de classe e o futebol, essa liturgia profana dos nossos dias, consegue reunir num estádio, ou diante de um ecrã, pessoas que, noutras circunstâncias, dificilmente concordariam sequer sobre o estado do tempo. Nada tenho contra isto. Uma cidade precisa de alegria. O que me angustia é a relação desigual que estabelecemos com o tempo. Para o presente encontramos muito dinheiro, entusiasmo, cartazes, microfones e fotografias. Para o passado encontramos, com demasiada frequência, uma cave. Um país pode beber o seu vinho, assis...

O direito de não me calar

Sempre tive dificuldade em assistir a uma injustiça e fingir que não a vi. É daí que vem a minha capacidade crítica. Desde cedo, as respostas prontas me pareceram insuficientes. Queria saber por que razão as coisas aconteciam, quem decidia, quem beneficiava, quem ficava prejudicado. Pensar, para mim, nunca foi apenas acumular conhecimento. Foi aprender a desconfiar das certezas demasiado cómodas. A cultura teve um papel decisivo nesse percurso. Os livros ensinaram-me que nenhuma época possui o monopólio da verdade; a História mostrou-me quanto podem ser perigosas as certezas absolutas; a literatura revelou-me a complexidade humana; o teatro ensinou-me a olhar uma mesma personagem de diferentes ângulos. A Universidade acrescentou a esse caminho a disciplina do estudo, o confronto com outras ideias e a exigência de fundamentar aquilo que se afirma. Entre os palcos, os livros, a escrita, a Universidade e a intervenção cívica, fui consolidando uma convicção simples: compreender não signifi...

Pavilhões do Parque D. Carlos I

Não é fácil olhar para os Pavilhões do Parque D. Carlos I sem experimentar uma certa perplexidade. Estão ali, no coração de um dos espaços mais importantes das Caldas da Rainha, testemunhando uma época em que a cidade se pensava de outra maneira, quando a arquitetura, a medicina, o termalismo e a própria ideia de progresso participavam de uma mesma concepção de cidade. E, no entanto, aquilo que deveria ser hoje uma parte viva da memória caldense foi ficando entregue à erosão, à demora e à indiferença que se instala quando uma situação se prolonga durante demasiado tempo. O mais difícil de compreender não é a passagem dos anos. O tempo passa sobre tudo, e nenhuma obra humana possui o privilégio da eternidade. O que custa compreender é a incapacidade de uma cidade para decidir o que quer fazer com uma herança que recebeu. Desde a morte de D. Rodrigo Berquó (1839-1896), arquiteto/engenheiro e homem de cultura, o projeto que este delineou parece ter perdido a continuidade e a determinação ...

A segunda casa

Regresso das férias, mas a palavra “regresso” parece-me aqui um pouco enganadora. Não volto propriamente de um lugar estranho, daqueles que visitamos durante alguns dias e depois abandonamos com a sensação de termos fechado um pequeno parêntese. Estou a sair da minha segunda casa, de um lugar onde o tempo se demora de outra maneira e onde encontro alguns dos melhores dias da minha vida. A praia, excelente pela extensão, pela beleza e por aquela combinação de mar e horizonte que nunca consigo olhar como coisa já conhecida, tornou-se para mim um lugar onde gosto de estar, para onde vou sempre que quero. Contudo, o último dia é sempre desconfortável. Não é apenas deixar a casa ou interromper aqueles dias junto ao mar. É afastar-me, ainda que por algum tempo, de uma parte da vida em que me sinto particularmente inteiro. Ali, os dias parecem ter outra espessura. O relógio continua a cumprir a sua obrigação, naturalmente, mas nós nem sempre lhe obedecemos. A manhã ali começa devagar e muit...