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A Democracia venceu o abismo

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O naufrágio dos salvadores

A bordo do navio camarário, a situação começa a adquirir aquela solenidade própria das grandes catástrofes, sobretudo quando os passageiros ainda discutem quem deverá ficar com o leme, enquanto a água já lhes chega aos tornozelos. O casco geme, as ondas entram sem pedir licença e, na ponte de comando, multiplicam-se reuniões de emergência, mapas e expressões graves. O navio, esse, continua a afundar-se com uma determinação que seria admirável se não ameaçasse levar consigo o concelho inteiro. Os mais velhos, que já viram muita embarcação partir com música e regressar em silêncio, recordam o barquinho do PS, cuja carreira terminou há algum tempo, depois de uma viagem em que a tripulação parecia acreditar que a boa vontade dispensava os conhecimentos necessários para chegar a bom porto. O episódio merecia figurar num manual de história política, no capítulo dedicado aos que confundiram a popularidade do batismo com a resistência do casco. Ficou a lição, ou assim se julgava. Porque, n...

Zangaram-se as comadres

O peixe tem uma virtude que falta a muita gente: não consegue disfarçar durante muito tempo aquilo que é. Pode repousar sobre uma cama de gelo, exibir escamas luzidias e ocupar a banca mais vistosa do mercado. Quando a frescura se perde, porém, nem o pregão mais eloquente consegue enganar o freguês. Foi num mercado desta natureza, povoado de ambições, suscetibilidades e pequenas vaidades, que duas figuras, durante anos dadas como boas companheiras de negócio, acabaram por se desentender. Partilhavam o estabelecimento, distribuíam tarefas e exibiam cordialidade perante a clientela. Até que o responsável pelo mercado decidiu confiar a outras mãos as bancas que uma delas vinha administrando. A notícia correu com a rapidez de uma sardinha atirada para a frigideira. A visada não se retirou em silêncio. Abriu o livro de contas e recordou o trabalho realizado: pescadas bem tratadas, linguados criteriosamente escolhidos, encomendas satisfeitas, clientes conquistados e negócios estabeleci...

Solidariedade com a Rádio Universidade de Coimbra

A democracia não se mede apenas pelos direitos que proclama, mas também pela forma como os seus representantes lidam com a discordância e respeitam as regras das instituições. O pluralismo político pressupõe a possibilidade de contestar decisões e questionar poderes, mas exige igualmente que essa contestação se processe por meios compatíveis com os princípios que sustentam a vida pública. Foi esta exigência que o episódio ocorrido na Rádio Universidade de Coimbra, a 12 de Outubro de 2026, trouxe para a discussão pública: as deputadas Rita Matias e Madalena Cordeiro, acompanhadas por militantes do Chega, entraram nas instalações da Associação Académica de Coimbra e interromperam uma emissão em direto, procurando impor uma participação presencial que não estava prevista nas condições estabelecidas pela organização. O sucedido ultrapassa a dimensão de um incidente partidário. Coloca uma questão fundamental da vida democrática: como pode a contestação política exercer-se sem compromete...

O Nobel e a miopia editorial

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2026 à escritora canadiana Anne Carson, poeta, ensaísta, tradutora e estudiosa da Antiguidade clássica, devolve-nos uma velha questão do panorama editorial português: quem reconhece o valor literário antes de a consagração internacional o transformar em notícia? A obra de Carson, que faz dialogar os mitos gregos com as inquietações contemporâneas e atravessa, sem respeitar fronteiras rígidas, a poesia, a prosa e o ensaio, exige leitores disponíveis para a complexidade. Não se acomoda à leitura apressada nem se presta a fórmulas de consumo. A Academia Sueca distinguiu precisamente a audácia de uma escrita que, em diálogo com a tradição clássica, abre novos caminhos à literatura contemporânea. O panorama brasileiro oferece outro elemento de comparação. Anne Carson começou a ser publicada no Brasil em 2017, o mesmo ano em que a sua obra chegou às livrarias portuguesas, mas a edição brasileira foi conhecendo uma expansão significativa, com ...

A Democracia diante da vertigem

O avanço da extrema-direita no Brasil já não pertence ao campo das inquietações episódicas. A sua presença no Congresso Nacional e no Senado, reforçada pela eleição de numerosos representantes de posições radicalizadas, revela uma transformação mais profunda da vida pública brasileira. O que está em causa não é a existência, perfeitamente legítima, de uma direita conservadora numa sociedade plural. Uma democracia precisa de conservadores, de socialistas, de liberais, de progressistas, de vozes discordantes. O perigo começa quando a política deixa de reconhecer no adversário um cidadão com direito à palavra e passa a enxergá-lo como uma ameaça à própria existência da nação. O Brasil tem uma memória demasiado longa para se permitir essa amnésia. Conheceu o autoritarismo, a censura, a perseguição política e a mutilação das liberdades durante a ditadura militar. A democracia que nasceu da lenta reabertura política não caiu do céu nem foi oferecida como dádiva aos brasileiros. Foi recon...

Lula da Silva: as razões de uma continuidade

Uma eleição presidencial é sempre um exercício de memória. O presente chega à urna acompanhado daquilo que um país viveu, das promessas que cumpriu, das que deixou pelo caminho e das feridas que ainda não conseguiu fechar. No Brasil de 2026, a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva apresenta-se sob o signo da continuidade. Para os seus apoiantes, essa continuidade não significa simplesmente prolongar um mandato presidencial. Significa preservar uma determinada concepção do Estado e da sociedade, fundada na redução da pobreza, na valorização do trabalho, na proteção social, na defesa dos direitos humanos e na recuperação de uma estabilidade institucional que os últimos anos submeteram a uma tensão excepcional. O desgoverno de Jair Bolsonaro deixou feridas profundas no Brasil, que se fizeram sentir em praticamente todos os campos da vida pública, da proteção social às políticas de saúde, da defesa do ambiente aos direitos dos povos indígenas, da igualdade racial à própria relação en...