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A pedra imperfeita

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Ryoki Inoue

Durante muito tempo, no Brasil, milhares de pessoas leram o mesmo homem sem o saber. Compravam-no em bancas de jornais, levavam-no em viagens longas de autocarro, abandonavam-no sobre mesinhas de cabeceira, dobravam-lhe os cantos, esqueciam-no em salas de espera, estações ferroviárias, consultórios médicos, quartéis, pensões baratas. Mudavam apenas os nomes impressos nas capas. Peter Kapra. Donald Curtis. Mortimer Cody. James Monroe. Jeff Madison. Havia dezenas deles. Quase quarenta identidades diferentes, dispersas por romances policiais, westerns, espionagem, aventuras militares, ficção científica, melodramas sentimentais, narrativas de guerra. O leitor comum dificilmente suspeitaria que, por detrás daquela multiplicação vertiginosa de autores estrangeirados, existia um único brasileiro sentado diante de uma máquina de escrever em São Paulo. Esse homem chamava-se José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue . A sua história é algo anómala, quase biologicamente improvável. Não apenas pelo vo...

Christian Jacq: o último escriba

Durante décadas, milhões de leitores atravessaram desertos imaginários através das páginas escritas por Christian Jacq (1947-), caminharam entre colunas monumentais, ouviram sacerdotes murmurando fórmulas funerárias diante do Nilo e acompanharam faraós que pareciam viver simultaneamente na política e no mito. Poucos escritores contemporâneos conseguiram transformar o Egipto Antigo numa paisagem emocional tão reconhecível. Será isso que explica o fenómeno? O Egipto nunca desapareceu verdadeiramente do imaginário ocidental. Continua ali, imóvel e silencioso, como uma obsessão arqueológica da civilização europeia. Roma caiu. Cartago desapareceu. A Grécia fragmentou-se em ruínas e filosofia. Mas o Egipto, não. O Egipto permaneceu sempre envolvido numa espécie de eternidade mineral. As pirâmides ajudam, claro. Nenhuma civilização compreendeu tão cedo o valor político da pedra. Há regimes modernos inteiros que duram menos do que um corredor funerário em Gizé. E isso produz vertigem. ...

Leopoldo II, o silêncio do mármore

Um fascista que recebeu inúmeras honrarias, mas não pagou pelos crimes que cometeu. A História europeia possui uma habilidade desconcertante para dourar monstros com verniz civilizacional. Presumivelmente porque os impérios sempre tenham compreendido que a pedra, o bronze e a arquitetura ajudam a purificar a memória. Erguem-se avenidas, inauguram-se monumentos, distribuem-se títulos honoríficos, e, lentamente, o sangue desaparece da narrativa oficial. Fica apenas o “estadista”, o “visionário”, o “rei modernizador”. Leopoldo II da Bélgica (1835-1909) pertence precisamente a essa galeria de figuras que a Europa tentou durante décadas contemplar sem olhar diretamente para as mãos. Em Bruxelas, ainda hoje, o seu nome permanece ligado a jardins, edifícios, projetos urbanísticos e grandes obras públicas. Chamaram-lhe o “rei construtor”. E é verdade que transformou parte da paisagem belga através de um programa ambicioso de modernização arquitetónica. O problema, claro, reside na origem...

A gramática da podridão

Há um analfabetismo particularmente perigoso, talvez o mais nocivo de todos, porque não se revela na incapacidade de ler um livro, interpretar um verso de Camões (1524?-1580) ou compreender uma página de História. Esse, apesar de tudo, ainda admite remédio. O outro, mais viscoso, mais subterrâneo, alastra entre corredores partidários, gabinetes acarpetados e salas onde se sorri em excesso. Refiro-me ao analfabetismo moral na política. Desde muito novo que observo criaturas desse género. Figuras que aprenderam cedo a arte da dissimulação, quase como quem frequenta uma academia clandestina de cinismo. Homens, e mulheres também, importa dizê-lo, que sobem degrau a degrau não pelo mérito, nem pela inteligência, muito menos pelo serviço público, mas através da intriga, do favor, da manipulação paciente e daquela habilidade profundamente ibérica de transformar cumplicidades em moeda corrente. Há nisto muito de medieval. Mudaram-se os trajes, desapareceram os castelos, mas o feudo permane...

Quando a cultura se reduz a ornamento

Tenho por hábito acreditar que um político possui o mínimo de sensibilidade para perceber que a verdadeira cultura é uma porta aberta ao enriquecimento de uma comunidade e que, sobretudo, não se deixa reduzir a esquemas binários de leitura, como se fosse possível encerrá-la numa geometria ideológica de Esquerda e Direita, como se tivesse, enfim, um lado certo e outro errado. Mas depois há a realidade, essa coisa menos elegante. Porque, no dia-a-dia político, a cultura raramente é entendida como território autónomo. É mais frequente ser tratada como um ornamento, ou, pior ainda, como um instrumento. Um palco útil para discursos, inaugurações, fotografias oficiais, cortes de fita, pequenas cerimónias onde a estética serve apenas para legitimar a administração do momento. E, no entanto, a cultura, a verdadeira, a que resiste ao tempo, nunca se comportou bem dentro dessas molduras. Vive mal com prazos eleitorais, com relatórios de execução, com a linguagem empobrecida da gestão. Tem ...

Gravata à lavallière

Durante décadas, talvez séculos, houve quem reconhecesse certas afinidades políticas, artísticas ou intelectuais por detalhes quase imperceptíveis da indumentária. Uma dobra específica do chapéu, o corte de um casaco, um lenço atado de forma negligente. A lavallière, com o seu laço amplo e vagamente desalinhado, pertenceu a esse universo de sinais subtis, meio mundanos, meio ideológicos, que dispensavam proclamações ruidosas. No século XIX, e ainda durante o primeiro quartel do século XX, artistas, estudantes e intelectuais de Esquerda, homens e mulheres, exibiam-na nas ruas de Paris, do Rio de Janeiro ou de Lisboa com uma naturalidade hoje difícil de imaginar. Havia nela qualquer coisa de simultaneamente elegante e indisciplinada. Não possuía a rigidez militar do colarinho fechado, nem a secura burguesa da gravata estreita que o capitalismo industrial acabaria por impor como uniforme moral. A lavallière caía, ondulava, respirava. E isso, convenhamos, já era uma forma de insubmissã...