Nenhuma tradição iniciática verdadeiramente séria começa pela promessa de perfeição. Principia, quase sempre, pelo reconhecimento da falha. A Maçonaria compreendeu isso cedo, herdando dos antigos construtores não apenas os instrumentos simbólicos da arquitetura, mas sobretudo uma visão profundamente exigente da condição humana: o homem nasce inacabado. A imagem da pedra bruta emerge precisamente desse entendimento. Não como metáfora decorativa, dessas que sobrevivem apenas pela repetição ritual, mas como formulação filosófica rigorosa. A pedra representa aquilo que no indivíduo permanece informe, excessivo, obscuro, incapaz ainda de ordem interior. E desbastá-la significa muito mais do que “melhorar-se”. Significa aceitar o labor contínuo de corrigir em si próprio aquilo que resiste à medida, à lucidez e ao equilíbrio. Os antigos canteiros sabiam-no empiricamente. Um bloco retirado da pedreira nunca possui imediatamente utilidade arquitetónica. Carrega fissuras, irregularidades, ...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.