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Ideias que o vento leva

Mensagens recentes

A manutenção dos muros

Existe um hábito infeliz na vida política contemporânea, o de transformar o adversário numa fronteira moral intransponível. Escutam-se, com demasiada frequência, dirigentes que erguem bandeiras de exclusão e classificam determinados opositores, muitas vezes pertencentes ao próprio espaço partidário, como “linhas vermelhas”, expressão que, repetida até à exaustão, acaba por perder qualquer densidade conceptual e converte-se num simples instrumento de combate retórico. Uma atitude desta natureza denuncia, quase sempre, uma compreensão empobrecida da própria política. Desde Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), que via na polis o lugar privilegiado da realização humana, até Hannah Arendt (1906-1975), para quem a política encontrava o seu sentido mais elevado na pluralidade e na palavra partilhada, governar nunca significou eliminar a divergência. Pelo contrário, significou aprender a habitá-la. O espaço público nasce precisamente da coexistência entre diferenças, não da sua supressão. ...

Fascismo, não!

Ontem encontrei um "camarada". Escrevo a palavra entre aspas porque as palavras, como as instituições, também conhecem o desgaste. Determinados vocábulos transportam uma herança moral exigente e com o passar dos anos acabam por servir pessoas incapazes de lhes fazer justiça. "Camarada" pressupõe lealdade, solidariedade, respeito pela divergência e consciência de um destino coletivo. Quando essas qualidades desaparecem, resta apenas uma designação vazia, repetida por hábito ou conveniência. Aquele ser pertence à espécie política que floresce sempre que os partidos deixam de ser escolas de cidadania para se converterem em agências de promoção pessoal. Não se aproxima da vida pública para servir uma ideia de comunidade, mas para construir um percurso individual. O partido surge-lhe como um elevador social. As convicções adaptam-se às circunstâncias, os princípios dobram-se perante a oportunidade e a fidelidade dura exatamente o tempo necessário para garantir a próx...

Incêndio, furtos e outras formas de violência

Volta e meia, perguntam-me o que me levou a encerrar a Livraria Martins Fontes Portugal , nas Caldas da Rainha, transferindo-a para outra cidade. A resposta não cabe numa única frase, pois resulta da acumulação de episódios que, isoladamente, já seriam graves; reunidos, tornaram insustentável a permanência naquele lugar. Inaugurada em junho de 2006, a Livraria Martins Fontes Portugal afirmava-se, então, como a maior livraria do distrito de Leiria, ocupando uma área útil de 120 m². Não era, porém, apenas um espaço dedicado ao livro. Acolhia igualmente uma galeria de arte, renovada mensalmente, oferecendo a cada artista a oportunidade de expor a sua obra, e dispunha de um palco amovível onde organizámos numerosos concertos, representações teatrais, apresentações de livros e outras iniciativas de índole cultural. Procurávamos construir um verdadeiro lugar de encontro, onde a cultura pudesse ser vivida na sua expressão mais ampla. Julgo que o conseguimos. Essa ambição teve, infeli...

A permanência dos ausentes

Possuo uma relação serena com a morte. Não direi que a procuro compreender em toda a sua vastidão, porque talvez nenhum ser humano o consiga plenamente, mas deixei, há muito, de a encarar como uma adversária ou como uma ruptura absoluta. Sou espírita desde 1983, ano em que me foi apresentada a obra de Allan Kardec (1804-1869), bem como os escritos de José Herculano Pires (1914-1979) e de outros pensadores que procuraram lançar alguma luz sobre uma das mais antigas inquietações da humanidade. Desde então, a morte deixou de surgir aos meus olhos como um muro intransponível. Passou a assemelhar-se mais a uma porta. Uma passagem que não sabemos abrir por nós mesmos, uma soleira envolta em mistério, um limiar que apenas atravessamos quando chega o momento. Nunca me habituei às manifestações excessivamente dramáticas que tantas vezes acompanham a despedida de alguém. A dor existe, naturalmente. A saudade instala-se. O vazio faz-se sentir. Contudo, por detrás dessas emoções permanece em...

Colóquio António Ferro, setenta anos após o seu desaparecimento

Cumpre-me começar por agradecer à Fundação António Quadros, ao Instituto de Filosofia Luso-Brasileiro, bem como a Mafalda Ferro e a Renato Epifânio, o amável convite que me dirigiram para participar neste colóquio e para aqui partilhar algumas reflexões em torno de D. Manuel II, o Desventurado . Associo-me com particular gosto a esta sessão evocativa, tomando como ponto de partida um texto que, para além do seu inegável interesse biográfico e histórico, permite-nos entrever aspectos significativos da sensibilidade literária do seu autor, do seu olhar sobre as personagens da História e da rara capacidade narrativa com que procurou restituir vida a tempos já remotos. Ao concluir estas breves considerações, creio poder afirmar que D. Manuel II, o Desventurado permanece como um testemunho particularmente expressivo de uma escrita onde a investigação histórica se alia à intuição literária. Mais do que reconstruir um destino singular, o autor procurou captar uma atmosfera, compreender...

Eburobrittium: uma topografia do esquecimento

Lisboa, Roma ou Paris atravessaram guerras, incêndios, epidemias e mudanças de regime sem perderem a continuidade da sua presença humana. Outras conheceram um destino mais estranho, pois foram abandonadas, esquecidas, apagadas da memória dos povos. Eburobrittium insere-se nesta segunda categoria. Sendo uma das histórias mais fascinantes do património português, não apenas pela arqueologia que revelou as suas ruas, as suas termas ou o seu fórum, mas pela reflexão mais profunda que suscita acerca da memória, da civilização e da própria condição humana, vive agora uma condição pouco interessante. Durante séculos, Eburobrittium existiu apenas como um nome mencionado por Plínio, o Velho ( Gaius Plinius Secundus , 23-79), na sua História Natural , algures entre Collipo [1] e Olisipo [2] . Uma denominação que os eruditos copiavam, comentavam e discutiam, mas que ninguém conseguia situar com segurança no território. Era quase uma abstração. Uma realidade documental sem veracidade física...