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Lobo Antunes, sempre!

António Lobo Antunes, que nos deixou hoje, era um dos nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea — e a sua ausência vai ser sentida com uma intensidade que ultrapassa páginas e gerações. Escrevia como quem respira a verdade mais crua da vida: quase sempre fragmentado, com vozes que se entrelaçam e memórias que invadem o presente de forma avassaladora. Foi médico psiquiatra e experienciou de muito perto os horrores da Guerra Colonial, saberes que imprimiram uma marca indelével na sua obra literária— um timbre que jamais se ocultava nem se suavizava, mas que nos conduzia, sem concessões, ao cerne da condição humana, com toda a sua complexidade, fragilidade e contradição. A leitura de Lobo Antunes exigia não apenas atenção e entrega, mas também coragem: confrontávamo-nos com uma prosa densa, intrincada, que desafia a complacência do leitor. E, contudo, a recompensa era incomparável — uma sinceridade literária rara, quase ética, que revela a essência do humano sem artifício...

Eu e a minha circunstância

Quando releio Ortega y Gasset (1883-1955) e a sua frase “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim”, sinto uma espécie de sacudidela. É como se alguém me agarrasse pelo braço e dissesse: acorda, olha à tua volta, não te escondas. É incrível como, em poucas palavras, ele consegue colocar diante de nós toda a complexidade da existência. O “eu” nunca está sozinho; vive entrelaçado com tudo o que o rodeia — pessoas, lugares, acontecimentos. Separar-nos do mundo seria negar a nós mesmos, como cortar uma raiz que ainda pulsa sob a terra. E a segunda parte da frase, “se não a salvo a ela, não me salvo a mim”, pesa ainda mais. Não basta fingir que tudo se resolve sozinho, não basta esperar que o mundo se ajeite sem a nossa intervenção. Cada gesto de cuidado, cada atenção a uma injustiça, cada esforço por melhorar algo — mesmo que mínimo — é também um ato de autossalvação. É curioso como esta lição, tão simples e direta, ecoa o que Heidegger (1889-1976) dis...

A fragilidade da virtude

  A religião e a política continuam a moldar a nossa experiência do mundo. É difícil imaginar que deixem de o fazer nos próximos séculos — para o bem e para o mal. A religião, em teoria, deveria aproximar-nos do que é maior do que nós, ser um espaço de comunhão e de contemplação. Platão (428/427-348/347 a.C.), no Timeu , lembra-nos da importância de alinhar a alma com o Bem; que o contato com o divino não é apenas crença, mas equilíbrio e virtude. E, no entanto, quantas vezes aquilo que deveria unir, separou-nos? Quantas vezes diferenças espirituais se transformaram em muros invisíveis, em conflitos, em violência? Spinoza (1632-1677) dizia que a verdadeira fé não se opõe à razão; quando a religião é manipulada para servir o poder, corrompe não só as instituições, mas também a essência do espírito humano. A política enfrenta dilemas semelhantes. Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), na Política , defende que a comunidade só se sustenta se os governantes forem guiados pela virtude . Q...

A barbearia do Didi

Ao folhear, em formato digital, a imprensa do meu Brasil, deparei-me recentemente com uma notícia que me reconduziu a um passado ainda próximo e profundamente saudoso: o falecimento do lendário Didi. João Araújo — universalmente conhecido por Didi — acompanhou-me durante quase duas décadas, tratando do meu cabelo desde 1983 até janeiro de 2001. A minha primeira visita ao seu estabelecimento, situado quase em frente ao portão 6 do mítico Estádio Urbano Caldeira, ocorreu por intermédio de Dico que, ao observar as minhas longas madeixas, me dirigiu, com a autoridade descontraída de um tricampeão mundial, uma recomendação clara: deveria confiar o meu cabelo ao cuidado de Didi. Resisti inicialmente, invocando razões profissionais — preparava-me então para interpretar a personagem Joaquim Carvalho na peça A Joia , de Arthur Azevedo — mas acabei por acolher o conselho. Na manhã seguinte, sentei-me pela primeira vez na cadeira da barbearia. Com tesoura e pente, Didi imprimiu um discreto ...

A palavra no deserto

Na sequência da experiência notavelmente enriquecedora que constituiu o boletim cultural mensal “A Língua Portuguesa”, cuja publicação veio, todavia, a ser interrompida em virtude dos elevados custos de produção e da manifesta falta de interesse por parte de potenciais entidades patrocinadoras — indício eloquente das fragilidades estruturais que persistentemente afetam o setor cultural — entendi por conveniente suspender a sua edição. Anos mais tarde, estimulado pelo encorajamento de alguns leitores, fundei o jornal mensal “Primeira Página”, cuja distribuição se processava exclusivamente por via digital, sendo produzido em formato PDF. O seu número inaugural foi publicado em outubro de 2020 e o derradeiro em novembro de 2022, perfazendo pouco mais de dois anos de atividade editorial regular — período que, apesar das limitações materiais, se revelou intelectualmente fecundo e pessoalmente gratificante. O termo do projeto ficou a dever-se a um dado aparentemente circunstancial, mas...

Edimburgo e a Cultura como Consciência

  Edimburgo não é apenas a capital da Escócia; é uma cidade que se observa, que se interroga e que se constrói a cada geração. Entre o rochedo e o mar, na névoa atlântica e na luz oblíqua do Norte, parece ter aprendido desde cedo que a identidade não é algo fixo, mas um diálogo contínuo entre passado e futuro, um pacto silencioso entre memória e modernidade. O perfil da cidade é marcado pelo imponente Castelo de Edimburgo, assente sobre um cone vulcânico adormecido, como se a própria natureza tivesse preparado um trono de pedra para a história. Ali ecoam históricas batalhas medievais, coroações e resistências; cada pedra parece carregar o peso de séculos, lembrando-nos que a memória nacional muitas vezes se fez sobreviver. Descer do Castelo pela Royal Mile é atravessar séculos em calçadas irregulares, fachadas austeras e passagens estreitas que serpenteiam entre edifícios, onde o rumor das lendas antigas ainda paira no ar, e onde cada esquina convida a imaginar vidas que se cru...