Durante décadas, milhões de leitores atravessaram desertos imaginários através das páginas escritas por Christian Jacq (1947-), caminharam entre colunas monumentais, ouviram sacerdotes murmurando fórmulas funerárias diante do Nilo e acompanharam faraós que pareciam viver simultaneamente na política e no mito. Poucos escritores contemporâneos conseguiram transformar o Egipto Antigo numa paisagem emocional tão reconhecível. Será isso que explica o fenómeno? O Egipto nunca desapareceu verdadeiramente do imaginário ocidental. Continua ali, imóvel e silencioso, como uma obsessão arqueológica da civilização europeia. Roma caiu. Cartago desapareceu. A Grécia fragmentou-se em ruínas e filosofia. Mas o Egipto, não. O Egipto permaneceu sempre envolvido numa espécie de eternidade mineral. As pirâmides ajudam, claro. Nenhuma civilização compreendeu tão cedo o valor político da pedra. Há regimes modernos inteiros que duram menos do que um corredor funerário em Gizé. E isso produz vertigem. ...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.