Convém afirmá-lo com nitidez, quase contrariando esse impulso, tão humano, de atenuar o juízo: a ermida da Ascensão de Cristo situa-se hoje numa zona de fronteira, perigosamente tangente a uma perda definitiva. Não estamos perante uma conjectura distante, nem diante de um alarmismo de ocasião, trata-se, isso sim, de um processo em marcha, perceptível, acumulativo, quase paciente na sua progressão. Aquilo que ainda resiste, erguido contra a erosão do tempo, já não assegura, por si mesmo, a continuidade; pelo contrário, revela, numa espécie de eloquência muda, a vulnerabilidade intrínseca de tudo quanto não é amparado. Não basta, por conseguinte, reconhecer-lhe o valor histórico, estético ou simbólico. Nem sequer é suficiente convocar a memória erudita, alinhando cronologias, nomes ilustres, referências bibliográficas. A consciência patrimonial, quando não se converte em gesto, em decisão concreta, arrisca degradar-se em contemplação estéril, quase decorativa. Exige-se, antes, uma a...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.