A religião e a política continuam a moldar a nossa experiência do mundo. É difícil imaginar que deixem de o fazer nos próximos séculos — para o bem e para o mal. A religião, em teoria, deveria aproximar-nos do que é maior do que nós, ser um espaço de comunhão e de contemplação. Platão (428/427-348/347 a.C.), no Timeu , lembra-nos da importância de alinhar a alma com o Bem; que o contato com o divino não é apenas crença, mas equilíbrio e virtude. E, no entanto, quantas vezes aquilo que deveria unir, separou-nos? Quantas vezes diferenças espirituais se transformaram em muros invisíveis, em conflitos, em violência? Spinoza (1632-1677) dizia que a verdadeira fé não se opõe à razão; quando a religião é manipulada para servir o poder, corrompe não só as instituições, mas também a essência do espírito humano. A política enfrenta dilemas semelhantes. Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), na Política , defende que a comunidade só se sustenta se os governantes forem guiados pela virtude . Q...
RUI CALISTO
Ator, encenador, professor de Arte Dramática, escritor e jornalista.