Confesso-me perplexo! Há, nisto tudo, qualquer coisa de estranhamente obsessiva. Como se um momento de evidente peso institucional — a tomada de posse de uma nação — fosse, de súbito, reduzido a quase nada, comprimido até ao mínimo valor político, apenas porque alguém decide deter-se no traje exibido pela esposa do Presidente da República eleito. Que curiosa inversão de prioridades, diga-se de passagem. É como se, na superfície do efémero, se procurasse substituir o exame do essencial. A questão fulcral não reside em sedas, rendas ou cortes de alfaiataria, mas sim na honra, na integridade e na capacidade de quem ocupa o mais alto cargo da República — valores que permanecem intocados pelo que o olhar elementar julga digno de nota. Vivemos, paradoxalmente, numa era de aparências, onde o trivial se inflama em debates públicos e a reflexão sobre o essencial se dilui em comentários fugazes. O regime é parlamentarista, sim, mas a presença de um chefe de Estado honrado constitui o eixo ne...
RUI CALISTO
Ator, encenador, professor de Arte Dramática, escritor e jornalista.