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O naufrágio dos salvadores

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Zangaram-se as comadres

O peixe tem uma virtude que falta a muita gente: não consegue disfarçar durante muito tempo aquilo que é. Pode repousar sobre uma cama de gelo, exibir escamas luzidias e ocupar a banca mais vistosa do mercado. Quando a frescura se perde, porém, nem o pregão mais eloquente consegue enganar o freguês. Foi num mercado desta natureza, povoado de ambições, suscetibilidades e pequenas vaidades, que duas figuras, durante anos dadas como boas companheiras de negócio, acabaram por se desentender. Partilhavam o estabelecimento, distribuíam tarefas e exibiam cordialidade perante a clientela. Até que o responsável pelo mercado decidiu confiar a outras mãos as bancas que uma delas vinha administrando. A notícia correu com a rapidez de uma sardinha atirada para a frigideira. A visada não se retirou em silêncio. Abriu o livro de contas e recordou o trabalho realizado: pescadas bem tratadas, linguados criteriosamente escolhidos, encomendas satisfeitas, clientes conquistados e negócios estabeleci...

Solidariedade com a Rádio Universidade de Coimbra

A democracia não se mede apenas pelos direitos que proclama, mas também pela forma como os seus representantes lidam com a discordância e respeitam as regras das instituições. O pluralismo político pressupõe a possibilidade de contestar decisões e questionar poderes, mas exige igualmente que essa contestação se processe por meios compatíveis com os princípios que sustentam a vida pública. Foi esta exigência que o episódio ocorrido na Rádio Universidade de Coimbra, a 12 de Outubro de 2026, trouxe para a discussão pública: as deputadas Rita Matias e Madalena Cordeiro, acompanhadas por militantes do Chega, entraram nas instalações da Associação Académica de Coimbra e interromperam uma emissão em direto, procurando impor uma participação presencial que não estava prevista nas condições estabelecidas pela organização. O sucedido ultrapassa a dimensão de um incidente partidário. Coloca uma questão fundamental da vida democrática: como pode a contestação política exercer-se sem compromete...

O Nobel e a miopia editorial

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2026 à escritora canadiana Anne Carson, poeta, ensaísta, tradutora e estudiosa da Antiguidade clássica, devolve-nos uma velha questão do panorama editorial português: quem reconhece o valor literário antes de a consagração internacional o transformar em notícia? A obra de Carson, que faz dialogar os mitos gregos com as inquietações contemporâneas e atravessa, sem respeitar fronteiras rígidas, a poesia, a prosa e o ensaio, exige leitores disponíveis para a complexidade. Não se acomoda à leitura apressada nem se presta a fórmulas de consumo. A Academia Sueca distinguiu precisamente a audácia de uma escrita que, em diálogo com a tradição clássica, abre novos caminhos à literatura contemporânea. O panorama brasileiro oferece outro elemento de comparação. Anne Carson começou a ser publicada no Brasil em 2017, o mesmo ano em que a sua obra chegou às livrarias portuguesas, mas a edição brasileira foi conhecendo uma expansão significativa, com ...

A Democracia diante da vertigem

O avanço da extrema-direita no Brasil já não pertence ao campo das inquietações episódicas. A sua presença no Congresso Nacional e no Senado, reforçada pela eleição de numerosos representantes de posições radicalizadas, revela uma transformação mais profunda da vida pública brasileira. O que está em causa não é a existência, perfeitamente legítima, de uma direita conservadora numa sociedade plural. Uma democracia precisa de conservadores, de socialistas, de liberais, de progressistas, de vozes discordantes. O perigo começa quando a política deixa de reconhecer no adversário um cidadão com direito à palavra e passa a enxergá-lo como uma ameaça à própria existência da nação. O Brasil tem uma memória demasiado longa para se permitir essa amnésia. Conheceu o autoritarismo, a censura, a perseguição política e a mutilação das liberdades durante a ditadura militar. A democracia que nasceu da lenta reabertura política não caiu do céu nem foi oferecida como dádiva aos brasileiros. Foi recon...

Lula da Silva: as razões de uma continuidade

Uma eleição presidencial é sempre um exercício de memória. O presente chega à urna acompanhado daquilo que um país viveu, das promessas que cumpriu, das que deixou pelo caminho e das feridas que ainda não conseguiu fechar. No Brasil de 2026, a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva apresenta-se sob o signo da continuidade. Para os seus apoiantes, essa continuidade não significa simplesmente prolongar um mandato presidencial. Significa preservar uma determinada concepção do Estado e da sociedade, fundada na redução da pobreza, na valorização do trabalho, na proteção social, na defesa dos direitos humanos e na recuperação de uma estabilidade institucional que os últimos anos submeteram a uma tensão excepcional. O desgoverno de Jair Bolsonaro deixou feridas profundas no Brasil, que se fizeram sentir em praticamente todos os campos da vida pública, da proteção social às políticas de saúde, da defesa do ambiente aos direitos dos povos indígenas, da igualdade racial à própria relação en...

O homem que desceu ao subsolo

Quando regresso às páginas de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), o que encontro não é apenas o antigo funcionário público de São Petersburgo, sem nome, que se retirou da vida e passou a habitar o território da própria consciência. Deparo-me com uma voz que conhece demasiado bem os caminhos do ressentimento, da humilhação e do orgulho, uma voz que transforma cada lembrança numa nova disputa e cada gesto numa matéria para intermináveis acertos de contas. É difícil permanecermos inteiramente à margem daquele homem, porque o seu subterrâneo é feito de coisas demasiado humanas: aquilo que não dissemos, as respostas que chegámos tarde demais a encontrar, as pequenas humilhações que o tempo não conseguiu apagar. Memórias do Subterrâneo , publicado em 1864, divide-se em duas partes. Na primeira, “O Subterrâneo”, o narrador entrega-se a um longo monólogo em que pensamento, ressentimento e consciência se confundem até ao ponto de já não sabermos onde termina a lucidez e começa a própria doença ...