Existe um hábito infeliz na vida política contemporânea, o de transformar o adversário numa fronteira moral intransponível. Escutam-se, com demasiada frequência, dirigentes que erguem bandeiras de exclusão e classificam determinados opositores, muitas vezes pertencentes ao próprio espaço partidário, como “linhas vermelhas”, expressão que, repetida até à exaustão, acaba por perder qualquer densidade conceptual e converte-se num simples instrumento de combate retórico. Uma atitude desta natureza denuncia, quase sempre, uma compreensão empobrecida da própria política. Desde Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), que via na polis o lugar privilegiado da realização humana, até Hannah Arendt (1906-1975), para quem a política encontrava o seu sentido mais elevado na pluralidade e na palavra partilhada, governar nunca significou eliminar a divergência. Pelo contrário, significou aprender a habitá-la. O espaço público nasce precisamente da coexistência entre diferenças, não da sua supressão. ...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.