Há, nas vilas antigas, um modo particular de nascer, ou talvez não seja apenas o nascer, mas a forma como esse instante se inscreve no tempo, quase como se a pedra o guardasse. Assim veio ao mundo Manuel Calisto, em Óbidos, distrito de Leiria, no dia 6 de fevereiro de 1909, pelas duas horas da madrugada. Não foi um nascimento qualquer; deu-se dentro das muralhas do castelo, esse recinto que, ao longo dos séculos, guardou mais do que batalhas e cercos, guardou vidas, silêncios, continuidades. Imagino a casa, arejada, de amplas janelas, para a época, talvez de paredes frias, iluminada por uma luz incerta, e o labor discreto de quem ajudava a trazer a criança ao mundo. Há sempre qualquer coisa de recolhido nesses momentos, um compasso suspenso. Lá fora, a vila dormia, alheia ao singelo acontecimento que, ainda assim, alterava para sempre uma linhagem. Poucos dias depois, a 21 de fevereiro, cumpriu-se o ritual que, durante gerações, marcou a entrada plena na comunidade, o batismo, na...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.