O peixe tem uma virtude que falta a muita gente: não consegue disfarçar durante muito tempo aquilo que é. Pode repousar sobre uma cama de gelo, exibir escamas luzidias e ocupar a banca mais vistosa do mercado. Quando a frescura se perde, porém, nem o pregão mais eloquente consegue enganar o freguês. Foi num mercado desta natureza, povoado de ambições, suscetibilidades e pequenas vaidades, que duas figuras, durante anos dadas como boas companheiras de negócio, acabaram por se desentender. Partilhavam o estabelecimento, distribuíam tarefas e exibiam cordialidade perante a clientela. Até que o responsável pelo mercado decidiu confiar a outras mãos as bancas que uma delas vinha administrando. A notícia correu com a rapidez de uma sardinha atirada para a frigideira. A visada não se retirou em silêncio. Abriu o livro de contas e recordou o trabalho realizado: pescadas bem tratadas, linguados criteriosamente escolhidos, encomendas satisfeitas, clientes conquistados e negócios estabeleci...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.