Confesso — e não o digo sem um certo cansaço moral, quase uma fadiga da lucidez — que fico verdadeiramente pasmado quando me detenho sobre certos textos produzidos por alguns camaradas. Há, neles, uma estranha habilidade, quase uma arte refinada, de velar o passado, de suavizar — ou antes, de encobrir — a matéria menos digna dos seus próprios atos enquanto exerceram funções no seio da estrutura que agora, com voz grave e pose de tribuno, dizem querer regenerar. Não deixa de ser curioso — e, por momentos, até perturbador — observar como muitos desses mesmos autores se erguem em lições de moral, proclamando com solenidade princípios de igualdade entre pares, como se tais valores tivessem sido, em algum momento, prática viva das suas condutas. Mas não foram. E é precisamente essa dissociação entre palavra e gesto que fragiliza qualquer discurso. Como advertia Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), “entre o forte e o fraco, é a liberdade que oprime e a lei que liberta” — mas quando a lei é...
RUI CALISTO
Ator, encenador, professor de Arte Dramática, escritor e jornalista.