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A democracia não se dispersa à bastonada

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A música de Hermann Hesse

A relação de um escritor com a música pode revelar aspetos da sua formação intelectual e da sua sensibilidade que a obra literária, por si só, não deixa inteiramente à vista. No caso de Hermann Hesse (1877-1962), essa aproximação adquire um significado particular. A música acompanhou-o desde a infância, participou na sua educação sentimental e tornou-se uma presença constante na sua reflexão sobre a arte, a cultura e a vida interior. O volume Música , publicado em Portugal pela DIFEL, em Abril de 2003, reúne uma parte significativa desses testemunhos e oferece uma perspectiva invulgar sobre o universo cultural do escritor alemão. A edição portuguesa, com tradução de Paulo Rêgo e Maria Nóvoa, inclui uma introdução de Hermann Kasack (1896-1966), intitulada “A relação de Hermann Hesse com a música”, e um posfácio de Volker Michels (1943-). A antologia reúne textos de diferentes épocas, escritos ao longo de aproximadamente setenta anos: correspondência pessoal, apontamentos destinados a ...

A Democracia venceu o abismo

O Brasil viveu um dia épico a 25 de Outubro de 2026, quando milhões de cidadãos regressaram às urnas para decidir quem ocuparia o Palácio do Planalto nos quatro anos seguintes. À superfície, dois candidatos disputavam a Presidência da República. Sob essa aparência eleitoral, confrontavam-se concepções profundamente divergentes do poder, da autoridade e da própria liberdade política. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, derrotando Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21%. A diferença, pouco superior a quatro milhões de votos, decidiu o resultado. Não vejo nesta eleição uma simples disputa entre a Esquerda e a Direita. Essa classificação, útil para distinguir programas económicos, tradições ideológicas e diferentes compreensões da sociedade, torna-se insuficiente quando está em causa a natureza do poder e a possibilidade de o limitar. Na minha leitura, o Brasil enfrentou uma escolha entre a continuidade da ordem constitucional e a expansão de uma corrente...

O naufrágio dos salvadores

A bordo do navio camarário, a situação começa a adquirir aquela solenidade própria das grandes catástrofes, sobretudo quando os passageiros ainda discutem quem deverá ficar com o leme, enquanto a água já lhes chega aos tornozelos. O casco geme, as ondas entram sem pedir licença e, na ponte de comando, multiplicam-se reuniões de emergência, mapas e expressões graves. O navio, esse, continua a afundar-se com uma determinação que seria admirável se não ameaçasse levar consigo o concelho inteiro. Os mais velhos, que já viram muita embarcação partir com música e regressar em silêncio, recordam o barquinho do PS, cuja carreira terminou há algum tempo, depois de uma viagem em que a tripulação parecia acreditar que a boa vontade dispensava os conhecimentos necessários para chegar a bom porto. O episódio merecia figurar num manual de história política, no capítulo dedicado aos que confundiram a popularidade do batismo com a resistência do casco. Ficou a lição, ou assim se julgava. Porque, n...

Zangaram-se as comadres

O peixe tem uma virtude que falta a muita gente: não consegue disfarçar durante muito tempo aquilo que é. Pode repousar sobre uma cama de gelo, exibir escamas luzidias e ocupar a banca mais vistosa do mercado. Quando a frescura se perde, porém, nem o pregão mais eloquente consegue enganar o freguês. Foi num mercado desta natureza, povoado de ambições, suscetibilidades e pequenas vaidades, que duas figuras, durante anos dadas como boas companheiras de negócio, acabaram por se desentender. Partilhavam o estabelecimento, distribuíam tarefas e exibiam cordialidade perante a clientela. Até que o responsável pelo mercado decidiu confiar a outras mãos as bancas que uma delas vinha administrando. A notícia correu com a rapidez de uma sardinha atirada para a frigideira. A visada não se retirou em silêncio. Abriu o livro de contas e recordou o trabalho realizado: pescadas bem tratadas, linguados criteriosamente escolhidos, encomendas satisfeitas, clientes conquistados e negócios estabeleci...

Solidariedade com a Rádio Universidade de Coimbra

A democracia não se mede apenas pelos direitos que proclama, mas também pela forma como os seus representantes lidam com a discordância e respeitam as regras das instituições. O pluralismo político pressupõe a possibilidade de contestar decisões e questionar poderes, mas exige igualmente que essa contestação se processe por meios compatíveis com os princípios que sustentam a vida pública. Foi esta exigência que o episódio ocorrido na Rádio Universidade de Coimbra, a 12 de Outubro de 2026, trouxe para a discussão pública: as deputadas Rita Matias e Madalena Cordeiro, acompanhadas por militantes do Chega, entraram nas instalações da Associação Académica de Coimbra e interromperam uma emissão em direto, procurando impor uma participação presencial que não estava prevista nas condições estabelecidas pela organização. O sucedido ultrapassa a dimensão de um incidente partidário. Coloca uma questão fundamental da vida democrática: como pode a contestação política exercer-se sem compromete...

O Nobel e a miopia editorial

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2026 à escritora canadiana Anne Carson, poeta, ensaísta, tradutora e estudiosa da Antiguidade clássica, devolve-nos uma velha questão do panorama editorial português: quem reconhece o valor literário antes de a consagração internacional o transformar em notícia? A obra de Carson, que faz dialogar os mitos gregos com as inquietações contemporâneas e atravessa, sem respeitar fronteiras rígidas, a poesia, a prosa e o ensaio, exige leitores disponíveis para a complexidade. Não se acomoda à leitura apressada nem se presta a fórmulas de consumo. A Academia Sueca distinguiu precisamente a audácia de uma escrita que, em diálogo com a tradição clássica, abre novos caminhos à literatura contemporânea. O panorama brasileiro oferece outro elemento de comparação. Anne Carson começou a ser publicada no Brasil em 2017, o mesmo ano em que a sua obra chegou às livrarias portuguesas, mas a edição brasileira foi conhecendo uma expansão significativa, com ...