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A gramática da podridão

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Quando a cultura se reduz a ornamento

Tenho por hábito acreditar que um político possui o mínimo de sensibilidade para perceber que a verdadeira cultura é uma porta aberta ao enriquecimento de uma comunidade e que, sobretudo, não se deixa reduzir a esquemas binários de leitura, como se fosse possível encerrá-la numa geometria ideológica de Esquerda e Direita, como se tivesse, enfim, um lado certo e outro errado. Mas depois há a realidade, essa coisa menos elegante. Porque, no dia-a-dia político, a cultura raramente é entendida como território autónomo. É mais frequente ser tratada como um ornamento, ou, pior ainda, como um instrumento. Um palco útil para discursos, inaugurações, fotografias oficiais, cortes de fita, pequenas cerimónias onde a estética serve apenas para legitimar a administração do momento. E, no entanto, a cultura, a verdadeira, a que resiste ao tempo, nunca se comportou bem dentro dessas molduras. Vive mal com prazos eleitorais, com relatórios de execução, com a linguagem empobrecida da gestão. Tem ...

Gravata à lavallière

Durante décadas, talvez séculos, houve quem reconhecesse certas afinidades políticas, artísticas ou intelectuais por detalhes quase imperceptíveis da indumentária. Uma dobra específica do chapéu, o corte de um casaco, um lenço atado de forma negligente. A lavallière, com o seu laço amplo e vagamente desalinhado, pertenceu a esse universo de sinais subtis, meio mundanos, meio ideológicos, que dispensavam proclamações ruidosas. No século XIX, e ainda durante o primeiro quartel do século XX, artistas, estudantes e intelectuais de Esquerda, homens e mulheres, exibiam-na nas ruas de Paris, do Rio de Janeiro ou de Lisboa com uma naturalidade hoje difícil de imaginar. Havia nela qualquer coisa de simultaneamente elegante e indisciplinada. Não possuía a rigidez militar do colarinho fechado, nem a secura burguesa da gravata estreita que o capitalismo industrial acabaria por impor como uniforme moral. A lavallière caía, ondulava, respirava. E isso, convenhamos, já era uma forma de insubmissã...

“José Régio ou o pecado de Proteu”, de Mário Cláudio

A reflexão de Mário Cláudio, ao convocar Proteu para pensar José Régio (1901-1969), inscreve-se numa tradição crítica que desconfia das identidades fixas e das coerências demasiado lineares. Não se trata, note-se, de mero recurso ornamental à mitologia clássica, mas de um instrumento interpretativo que ilumina, com alguma acuidade, a natureza oscilante do sujeito regiano. Proteu, na tradição grega, era um antigo deus marinho ligado ao universo de Poseidon. Guardião de focas e conhecedor absoluto do passado, do presente e do futuro, possuía, porém, uma característica singular: recusava-se a revelar aquilo que sabia. Para arrancar-lhe uma resposta era necessário capturá-lo e resistir às suas incessantes metamorfoses. Transformava-se em fogo, água, serpente, árvore, animal feroz. Só quando o interlocutor suportava todas essas mudanças sem o largar é que Proteu regressava à sua forma inicial e consentia finalmente em dizer a verdade. Há, nesta imagem, qualquer coisa de profundamente ...

Manuel Calisto

Há, nas vilas antigas, um modo particular de nascer, ou talvez não seja apenas o nascer, mas a forma como esse instante se inscreve no tempo, quase como se a pedra o guardasse. Assim veio ao mundo Manuel Calisto, em Óbidos, distrito de Leiria, no dia 6 de fevereiro de 1909, pelas duas horas da madrugada. Não foi um nascimento qualquer; deu-se dentro das muralhas do castelo, esse recinto que, ao longo dos séculos, guardou mais do que batalhas e cercos, guardou vidas, silêncios, continuidades. Imagino a casa, arejada, de amplas janelas, para a época, talvez de paredes frias, iluminada por uma luz incerta, e o labor discreto de quem ajudava a trazer a criança ao mundo. Há sempre qualquer coisa de recolhido nesses momentos, um compasso suspenso. Lá fora, a vila dormia, alheia ao singelo acontecimento que, ainda assim, alterava para sempre uma linhagem. Poucos dias depois, a 21 de fevereiro, cumpriu-se o ritual que, durante gerações, marcou a entrada plena na comunidade, o batismo, na...

Memória primeira

  Todos os dias, ao despertar… Acorre-me, com uma insistência quase litúrgica, a imagem da minha Santa mãe. Detenho-me nesses instantes, com uma espécie de recolhimento íntimo, revisitando fragmentos da nossa alegria partilhada, numerosos, sim, mas também curiosamente depurados, como se o tempo lhes tivesse limado as arestas mais ruidosas. A lembrança mais remota, contudo, é a que me reconduz ao berço. E aqui hesito, pelo espanto que semelhante faculdade ainda hoje me causa, quem, afinal, logra recordar-se de tão recuada idade, desse território indistinto da primeira infância? Eu, para minha própria surpresa, retenho não apenas a cena, mas até o eco das palavras, com uma clareza que quase desconcerta. A Senhora Dona Elvira, investida de uma firmeza serena que não admitia contestação leviana, volta-se para o meu pai e declara, em tom resoluto, é essencial encostar o berço à parede e aproximar a nossa cama dele, não vá o rapazinho, num ímpeto qualquer, projetar-se dali e tomb...

O quarto onde cabem muitos

Há livros que se aproximam de um autor pela via da explicação. Este, Los últimos tres días de Fernando Pessoa: Un delirio , não. O texto de António Tabucchi (1943-2012) contorna Fernando Pessoa (1888-1935) como quem entra num quarto onde ainda há presença. Os últimos dias , esse lugar onde a biografia costuma fechar-se com uma espécie de pontuação final, são aqui outra coisa. Não há propriamente um fim. Há uma dilatação. O tempo abranda, hesita, quase se suspende, e é nesse intervalo que começam a surgir as presenças. Como continuidades imperfeitas de uma consciência que nunca foi una. O que Tabucchi faz, e faz com uma precisão quase silenciosa, é deslocar a morte do corpo para um plano menos evidente: o da identidade. Não morre apenas um homem; começa a desfazer-se uma organização instável de vozes. E, no entanto, esse apagar não possui nenhum sinal de violência. Há antes uma espécie de urbanidade final entre criador e criaturas, como se todos soubessem que aquele encontro tardi...