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O direito de não me calar

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Pavilhões do Parque D. Carlos I

Não é fácil olhar para os Pavilhões do Parque D. Carlos I sem experimentar uma certa perplexidade. Estão ali, no coração de um dos espaços mais importantes das Caldas da Rainha, testemunhando uma época em que a cidade se pensava de outra maneira, quando a arquitetura, a medicina, o termalismo e a própria ideia de progresso participavam de uma mesma concepção de cidade. E, no entanto, aquilo que deveria ser hoje uma parte viva da memória caldense foi ficando entregue à erosão, à demora e à indiferença que se instala quando uma situação se prolonga durante demasiado tempo. O mais difícil de compreender não é a passagem dos anos. O tempo passa sobre tudo, e nenhuma obra humana possui o privilégio da eternidade. O que custa compreender é a incapacidade de uma cidade para decidir o que quer fazer com uma herança que recebeu. Desde a morte de D. Rodrigo Berquó (1839-1896), arquiteto/engenheiro e homem de cultura, o projeto que este delineou parece ter perdido a continuidade e a determinação ...

A segunda casa

Regresso das férias, mas a palavra “regresso” parece-me aqui um pouco enganadora. Não volto propriamente de um lugar estranho, daqueles que visitamos durante alguns dias e depois abandonamos com a sensação de termos fechado um pequeno parêntese. Estou a sair da minha segunda casa, de um lugar onde o tempo se demora de outra maneira e onde encontro alguns dos melhores dias da minha vida. A praia, excelente pela extensão, pela beleza e por aquela combinação de mar e horizonte que nunca consigo olhar como coisa já conhecida, tornou-se para mim um lugar onde gosto de estar, para onde vou sempre que quero. Contudo, o último dia é sempre desconfortável. Não é apenas deixar a casa ou interromper aqueles dias junto ao mar. É afastar-me, ainda que por algum tempo, de uma parte da vida em que me sinto particularmente inteiro. Ali, os dias parecem ter outra espessura. O relógio continua a cumprir a sua obrigação, naturalmente, mas nós nem sempre lhe obedecemos. A manhã ali começa devagar e muit...

Acima da consciência

O humanismo recolocou o homem no centro da reflexão. Não para o coroar senhor do mundo, mas para lhe recordar a responsabilidade que decorre da sua liberdade. A diferença é profunda. Durante séculos confundimos dignidade com domínio, inteligência com posse, progresso com acumulação. Pagamos agora o preço dessa antiga ilusão. O ar tornou-se mais pesado, as paisagens perderam silêncio, até a linguagem parece respirar com dificuldade. Não foi apenas a natureza que empobrecemos, foi também a forma de olhar o semelhante, como se cada rosto deixasse de ser um mistério para valer apenas pela utilidade que oferece. Esse empobrecimento não começou nas fábricas nem nas grandes cidades. Instalou-se muito antes, na intimidade da consciência. As civilizações degradam-se primeiro por dentro, quase não damos por isso. É um desgaste sem estrondo, semelhante ao labor persistente da água sobre a rocha, invisível durante anos, irreversível quando finalmente se manifesta. Vivemos convencidos de que ...

A política e o fantasma conveniente

Ontem, durante uma conversa telefónica com uma amiga, fui informado da singular relevância que elementos do meu partido entendem atribuir à minha pessoa. Recebi a notícia com um sorriso difícil de conter. Confesso que nunca imaginei inspirar tamanha inquietação. É reconfortante descobrir que a mera possibilidade de uma hipótese futura consegue provocar tão diligente atividade política (risos). Segundo me foi relatado, três camaradas têm desenvolvido, mais uma vez, um notável esforço para denegrir a minha imagem junto da turba partidária. A narrativa, cuidadosamente construída, não se limitou ao universo interno da organização. Alargou-se, com apreciável ousadia, ao atual presidente da Câmara Municipal, sustentando que o próprio retiraria o seu apoio ao partido, que, convém não esquecer, nem sequer é aquele pelo qual foi eleito, uma vez que chegou ao cargo através de um movimento de independentes, caso o meu nome viesse, em 2029, a surgir como eventual candidato à presidência da aut...

Ideias que o vento leva

É sempre motivo de satisfação verificar que cidadãos se interessam pela vida da sua freguesia ou da sua cidade. Uma comunidade fortalece-se quando os seus habitantes participam no debate público, apresentam propostas, questionam decisões e procuram contribuir para o bem comum. A democracia alimenta-se dessa pluralidade de vozes e empobrece sempre que prevalecem o silêncio ou a indiferença. Ainda assim, existe uma realidade que merece reflexão. Nos últimos tempos tenho acompanhado, sobretudo através das redes sociais, a divulgação de ideias e projetos destinados à freguesia de Nossa Senhora do Pópulo, em Caldas da Rainha. Muitas dessas propostas são apresentadas como se fossem inéditas. Na verdade, não são. Entre 2017 e 2021, durante os trabalhos da Assembleia de Freguesia, uma parte muito significativa dessas iniciativas foi amplamente debatida. Algumas deram origem a recomendações, outras foram objeto de propostas formais, várias suscitaram discussões prolongadas. Nem todas reun...

A manutenção dos muros

Existe um hábito infeliz na vida política contemporânea, o de transformar o adversário numa fronteira moral intransponível. Escutam-se, com demasiada frequência, dirigentes que erguem bandeiras de exclusão e classificam determinados opositores, muitas vezes pertencentes ao próprio espaço partidário, como “linhas vermelhas”, expressão que, repetida até à exaustão, acaba por perder qualquer densidade conceptual e converte-se num simples instrumento de combate retórico. Uma atitude desta natureza denuncia, quase sempre, uma compreensão empobrecida da própria política. Desde Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), que via na polis o lugar privilegiado da realização humana, até Hannah Arendt (1906-1975), para quem a política encontrava o seu sentido mais elevado na pluralidade e na palavra partilhada, governar nunca significou eliminar a divergência. Pelo contrário, significou aprender a habitá-la. O espaço público nasce precisamente da coexistência entre diferenças, não da sua supressão. ...