Há dias em que a palavra “cultura” me soa a moeda gasta, dessas que passam de mão em mão até perderem o relevo, o desenho, a própria identidade. E, no entanto, insiste-se, repete-se, discursa-se sobre ela com uma segurança quase irritante. Sobretudo, diga-se, por quem raramente a frequenta, ou melhor, por quem a trata como conceito abstrato, arrumado numa gaveta ao lado de “economia” ou “legislação”. Advogados, por exemplo, ou deputados de ocasião, embora aqui talvez me esteja a alongar, mas há vícios que pedem nome. O curioso é que a cultura, essa coisa inquieta e escorregadia, nunca foi matéria de definição simples. Não cabe num decreto, nem se organiza em alíneas bem comportadas. É, antes, um organismo vivo, irregular, feito de camadas, de hesitações, de heranças contraditórias. Um conjunto de saberes, crenças, práticas, sim, mas também de silêncios, de gestos quase invisíveis, de hábitos que ninguém ensina e todos repetem. Pense-se, por exemplo, na Espanha. À primeira vista, ...
RUI CALISTO
Ator, encenador, professor, escritor e jornalista.