Cidade mais densamente povoada do litoral paulista, Santos apresenta-se, à primeira vista, como uma evidência quase geográfica: uma extensão contínua de cerca de sete quilómetros de praia, recortando o encontro entre a terra e o mar. Mas esse traço, que poderia ser apenas paisagem, transforma-se em signo — quase em ideia — quando se percorrem os jardins que acompanham a orla, reconhecidos como os mais extensos do seu género. Não são apenas jardins. São, de certo modo, uma tentativa de ordenar a natureza, de lhe impor uma medida humana sem a anular por completo. Há ali uma tensão discreta, mas persistente, entre o espontâneo e o cultivado, entre o que cresce por si e o que é cuidadosamente disposto. Talvez seja precisamente nesse equilíbrio — nunca totalmente resolvido — que se começa a compreender a cidade. No plano demográfico, Santos inscreve-se numa realidade que ultrapassa largamente os seus limites físicos. Com uma população que, em 2020, rondava os 433 mil habitantes, integ...
RUI CALISTO
Ator, encenador, professor de Arte Dramática, escritor e jornalista.