Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Júlia Cortines

Mensagens recentes

Eça de Queirós e Victor Hugo

  Há encontros que a história recusa, mas que o espírito, esse, mais livre e mais insinuante, persiste em conjeturar. Entre eles, avulta o possível diálogo entre Eça de Queirós e Victor Hugo, duas consciências literárias de primeira grandeza, tangentes no tempo, embora nunca verdadeiramente coincidentes. Victor Hugo, nascido em 1802, cedo se afirmou como um dos pilares do romantismo europeu. Quando Eça veio ao mundo, já o autor de Les Misérables se erguia como uma figura quase tutelar, não apenas das letras francesas, mas de uma certa ideia de intervenção moral e cívica. Havia na sua escrita um fôlego vasto, uma inclinação para o sublime, para a exaltação das paixões e das injustiças humanas em escala quase monumental. Eça, surgido décadas mais tarde, inscreve-se num outro horizonte. A sua pena, mais contida, embora não menos incisiva, afasta-se do arrebatamento romântico e aproxima-se de uma observação lúcida, por vezes mordaz, da realidade social. Onde Hugo amplifica, Eça ...

Ermida da Ascensão de Cristo

Convém afirmá-lo com nitidez, quase contrariando esse impulso, tão humano, de atenuar o juízo: a ermida da Ascensão de Cristo situa-se hoje numa zona de fronteira, perigosamente tangente a uma perda definitiva. Não estamos perante uma conjectura distante, nem diante de um alarmismo de ocasião, trata-se, isso sim, de um processo em marcha, perceptível, acumulativo, quase paciente na sua progressão. Aquilo que ainda resiste, erguido contra a erosão do tempo, já não assegura, por si mesmo, a continuidade; pelo contrário, revela, numa espécie de eloquência muda, a vulnerabilidade intrínseca de tudo quanto não é amparado. Não basta, por conseguinte, reconhecer-lhe o valor histórico, estético ou simbólico. Nem sequer é suficiente convocar a memória erudita, alinhando cronologias, nomes ilustres, referências bibliográficas. A consciência patrimonial, quando não se converte em gesto, em decisão concreta, arrisca degradar-se em contemplação estéril, quase decorativa. Exige-se, antes, uma a...

Os Pavilhões de Rodrigo Berquó

D. Rodrigo Maria Berquó (1839-1896), nascido no Rio de Janeiro e formado em arquitetura e engenharia, chegou às Caldas da Rainha no ano de 1888 com um desígnio claro: transformar a cidade, o Hospital Termal e o seu entorno numa experiência singular de integração entre saúde e urbanismo. Como diretor do Hospital Termal até ao ano de 1896, Berquó exerceu competências que transcenderam a mera administração hospitalar. Sob a sua supervisão encontravam-se os anexos do hospital, a Mata Rainha D. Leonor, o Parque D. Carlos I e a própria estrutura urbanística da vila. Em demonstração da sua capacidade de intervenção e da confiança nele depositada, chegou mesmo a assumir a presidência da Câmara Municipal durante o último ano da sua vida, como se o tempo, já escasso, exigisse-lhe ainda uma derradeira camada de atuação sobre a cidade que ajudava a moldar. Homem de ação, muito inquieto e extremamente ambicioso, Berquó não se contentava com a preservação do já existente, aspirava à transformação,...

Os cortinados da sala e os modelitos última moda

Há cidades que se deixam interpretar como textos clássicos, densos e lapidares, onde cada monumento funciona como uma frase bem talhada na pedra; outras, mais sensoriais, revelam-se na gramática subtil dos sabores, na persistência de receitas que atravessam gerações com a autoridade silenciosa da tradição; algumas, raríssimas, impõem-se pela vibração das suas gentes, essa eletricidade difusa que não se descreve, apenas se sente. E depois, num registo quase menor, embora não menos revelador, existem aquelas localidades onde o tempo parece ter abdicado da sua vocação natural, não avançando nem recuando, antes se demorando, arrastando-se com uma lassidão que se entranha nas ruas, nas fachadas, nos gestos. É nesse cenário, simultaneamente banal e carregado de uma estranha melancolia, que encontramos a vereadora da “cultura”, figura que, sendo incontornável, o é por vias que escapam aos critérios habituais de relevância pública. Não foi a leitura de qualquer documento oficial, daqueles ...

A prosa desabitada

Passei os olhos, há pouco, por um jornal regional, um semanário muito conhecido no Oeste português, presença habitual nas bancas e nas rotinas de leitura de tantas casas, e confesso, fiquei com uma espécie de melancolia difícil de nomear, quase um desconforto íntimo, desses que não fazem ruído mas permanecem. Não era apenas o conteúdo, nem sequer a habitual linearidade argumentativa que, de vez em quando, se encontra nos textos de opinião. Era outra coisa. Uma ausência, talvez. Ou, mais exatamente, uma presença demasiado regular. Poderia referir-me a diversas passagens de todo o periódico, contudo, ficarei apenas por um artigo, alinhado com uma correção quase irrepreensível. Este exibe uma fluidez contínua, uma uniformidade de tom que, à primeira vista, pode ser confundida com maturidade estilística (mas seguramente não é). Há ali uma espécie de superfície polida em excesso, como uma pedra trabalhada até perder as suas pequenas irregularidades, aquelas que, curiosamente, lhe dão ca...

O medo da Cultura

Há um desconforto difuso quando se fala de cultura, uma espécie de retração que não se declara frontalmente, mas que se adivinha nos interstícios do discurso público, nas prioridades sucessivamente adiadas, naquele gesto quase automático de a empurrar para segundo plano, como se fosse um luxo delicado, apropriado apenas a tempos de abundância. E, no entanto, essa desvalorização não é inocente, nem meramente circunstancial. Revela, antes, uma tensão mais funda, enraizada na forma como as sociedades se organizam, distribuem poder e constroem sentido. A cultura, quando não é reduzida a ornamento, introduz complexidade, e a complexidade, convenhamos, raramente é bem-vinda em contextos que privilegiam a eficiência imediata e a estabilidade aparente. Desde logo, importa reconhecer que a cultura, entendida em sentido amplo, não se limita à produção artística ou à fruição estética. Ela constitui um campo simbólico onde se disputam narrativas, onde se sedimentam identidades e, sobretudo, on...