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Fernando Patriarca Calisto

 

O meu pai - e quem o conheceu pode comprovar o que aqui escrevo - possuiu uma superioridade absoluta na compreensão da essência humana - a natureza íntima de Deus - pois exprimia-se, no dia-a-dia, pelo coração.

Não divisei mais nenhum outro homem que exala-se tanta bondade, tanta afabilidade, tanto carinho pela espécie humana.

Toda a sua vida foi um puro ato de amor, pois, foi soberanamente justo e bom.

Quem com ele privou percebeu a sua sabedoria, expressa nos atos e nos gestos contínuos de amor ao próximo. Uma sapiência que nos permite conhecer, sem jamais duvidar, o que é a justiça e a benevolência de Deus.

O meu pai não morreu, pois os seres humanos bons nunca desaparecem. Os seus espíritos permanecem como sustentáculos da Terra. Enquanto homem era um puro, vindo a este planeta para insuflar de bem-querer os corações que dele se acercaram. Um ser que não possuía nenhuma influência da matéria, sendo, somente, amor filial. Possuidor de uma superioridade moral absoluta, despojava-se das máculas que lhe tentavam impingir, oferecendo constantemente, e com toda a simplicidade, a outra face, revestida de consolo, de felicidade, de clemência, de benquerença.

Foi um mensageiro, um ministro de Deus, que primou pela harmonia suprema, exprimindo-se numa santidade humanitária elevada e altruísta.

Quantas vezes ouvi chamarem-no de anjo. Nesse instante, reflexivo, olhava ternamente para o outro e dizia-lhe que era apenas uma pessoa que não queria o mal de ninguém. Modesto. Simples. Calmo. Leal. Excecional. Singular. Exalando ternura e simpatia por todos os poros.

Para mim, os verdadeiros anjos não possuem asas, trazem em si fraternidade e amor para ofertar às mancheias. Se meu pai foi um anjo? Que o diga quem com ele confraternizou. No meu caso, digo apenas que não conheci ninguém que fosse a encarnação mais autêntica da frase “Amai-vos uns aos outros”.

Sei de antemão que foi um espírito que percorreu os incontáveis e possíveis degraus da dimensão mais sublime, destituído de todas as nódoas da materialidade. Graças a isso, certamente, quem por ele rezar não terá de sofrer agruras, nem expiações, não estando, assim sendo, represado à reencarnação em corpos findáveis. Realizando-se, portanto, na vida eterna, irmanado ao âmago de Deus.

Muitos são os que se lembram de quanto auxiliou a quem necessitava, sem jamais exigir retorno, ou glória. Dedicando-se ao bem, viveu a plenitude do tempo sem reivindicar, somente a distribuir. Pela natureza da sua disposição moral, pela sua intuição acerca do que verdadeiramente deve conduzir o ser humano, creio que vive agora em Luz, e permanentemente a repartir as flores da sua condescendência interior.

Quem conviveu com o meu pai sabe, perfeitamente bem que, junto a ele, a boa ordem sucedia à desordem. Tudo ao seu redor transformava-se em harmonia, equilíbrio e solidariedade. O que alterava, de imediato, o coração, a mente, e o espírito de quem o escutava. Retemperando-se, assim, a fonte da vida, tornando-a - como o seu bom espírito - muito mais celestial.

Tenho recebido inúmeras, infinitas, expressões de amor pelo meu pai. Manifestações de saudade e de muita ternura. Agradeço, penhoradamente, a todos os bons corações que assim se expressam.

Cada frase que ouço vem acompanhada de um pedido, uma tentativa de retribuir tudo o que dele receberam. Como filho, fico jubiloso, diante de tanta sinceridade, tanta demonstração de amor. Porém, o que lhes posso dizer?

Apenas isto: No seu túmulo, todas as flores serão poucas; todas as preces serão ínfimas; todas as lágrimas serão bênçãos. Ámen.

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