quarta-feira, 30 de outubro de 2013

As polainas do Senhor Pierre


Quando desci para comprar o jornal, o Quartier Latin estava ainda embaciado, com aquele jeito outonal que nos faz desejar mais algumas horas de bom sono.
 
Minutos depois, ao estender a mão para pagar o exemplar do Le Figaro, dei por mim a admirar as polainas do Senhor Pierre. De imediato, fiquei na dúvida se o que ficara perdido pelos séculos XVIII e XIX seria o bom gosto do meu vizinho ou o meu olhar.
 
Ali estavam elas, de couro, com o objetivo de proteger os sapatos do cavalheiro, belas, remetendo a imaginação para os romances e os poemas que brotaram na Belle Èpoque, um período delimitado por intensas evoluções culturais que se expressaram em modernos processos de refletir e nutrir o dia-a-dia, tanto em França quanto no Brasil. Uma época áurea, constelada, em estética, em inovação, em talento literário. Um período em que a mente pervagava pelas páginas de Henri Murger, Baudelaire, Balzac, Anatole France, Émile Zola, Verlaine, Mallarmé, Oscar Wilde, Rimbaud, Olavo Bilac, Machado de Assis, Martins Fontes, Coelho Netto, e pelas telas de Alfons Mucha, Toulouse-Lautrec, Edvard Munch, James Whistler, Georges-Pierre Seurat, Paul Sérusier, Paul Gauguim, Pierre Bonnard, Edouard Vuillard, Paul Ranson, Maurice Denis. Todos, artistas que uniram com a sua vocação: Paris ao Rio de Janeiro. Imensos, em sua infinita qualidade.
 
A Belle Èpoque parisiense teve o começo do seu fim aquando do naufrágio do Titanic, a 14 de abril de 1912, já a brasileira foi um pouco mais tarde, no começo dos anos 30, no século XX. E, agora, em pleno século XXI, no Bairro Latino, em Paris, tenho uma reminiscência daquele ciclo áureo.
 
Volto a cabeça para todos os lados, procuro vestígios, outros, da intensidade, da cor e da luz derramadas na pintura dos mestres citados, tento perceber nos escaparates algum indício das páginas douradas, tento divisar novos resplendores naquele bairro e naquela cidade que enamoro todos os dias, porém, encontro apenas, centenas de pessoas, das mais diversas nacionalidades, ávidas por um registo fotográfico, a namorar as realidades antigas e distintas, porém, todas, a trajar a moda confusa da atualidade, as cores banais, as formas esdrúxulas, de mau corte, péssimo gosto e pior acabamento.
 
Quando dou por mim, estou novamente a admirar as polainas do Senhor Pierre e, ele, a meu lado, a ajeitar dois volumes de Hugo, de recente edição, e a soltar dois dedos de prosa com a Senhora da mercearia, simpática mulher, roliça, de alvos dentes e de olhar penetrante. Ali há caso. Faz ela bem, o Senhor Pierre é um homem de bom gosto e eu de olhar atento e saudosista. Faço um gesto de despedida e ele, em tom sarcástico lembra-me Baudelaire:
 
"É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.
 
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos.
 
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: 'É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira'."
 
A minha resposta não tardou, embriagada e poética, em versos de Bilac:

“"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".”

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Hermínio Maçãs: O Idealista Erudito



Em março de 1974, um homem de porte atlético, galantemente vestido com uma impecável farda branca, abraça-me à minha chegada ao aeroporto de Luanda, Angola.
 
O mesmo homem que nove anos antes fora testemunha do meu batizado, e eu, pequeno e inconsciente rebento, naquele mesmo dia, o fui do seu casamento, em Santos, Brasil.
 
Quando, na terra de José Malhoa, às 10:15 horas, do dia 18 de setembro de 2013, o coração desse homem decide encerrar a sua jornada na Terra, termina também ali o percurso de uma vida repleta de Honestidade, Idealismo e Perdão.
 
Hermínio Maçãs foi um Puro! Todo o seu percurso, nos campos profissional e pessoal foi recheado de loas à vida e de ajuda ao próximo.
 
Formado em Filosofia, em 1958, aquele jovem seminarista aproveitara bem todo o seu trajeto estudantil na adolescência, dedicando-se também à Música Erudita e ao Latim. Assim, quando entra na Faculdade de Direito de Lisboa no ano de 1961 era já um rapaz respeitado e admirado pelos seus pares.
 
Em 1962, porém, esse percurso fora interrompido, devido à sua participação na Greve Académica daquele ano. Em fevereiro, o Governo proíbe, uma vez mais, as comemorações do Dia do Estudante, provocando a ira dos estudantes, que, de imediato, tomam de assalto a cantina universitária. Quando, a Academia de Lisboa realiza a greve de protesto, os estudantes de Coimbra solidarizam-se, tornando assim o acontecimento num evento de proporção nacional. A polícia entra, com muita violência, em choque com os estudantes em Lisboa. Como resultado de toda a contenda, ocorre a demissão do reitor Marcello Caetano (que era também professor de Hermínio Maçãs) e é decretado luto académico em Lisboa e Coimbra. Em junho daquele ano, todos os estudantes que participaram dos conflitos foram repreendidos. Hermínio Maçãs foi expulso.
 
O Ministério do Exército não foi complacente e antecipou a chamada do jovem, colocando-o como Oficial miliciano em Mafra, depois na Ilha Terceira, nos Açores, posteriormente em Santa Margarida e, por fim, assumindo grandes responsabilidades, é enviado para a Guiné Bissau. Quando lhe foi retirado o serviço militar obrigatório, ao fim de vários anos, voluntariou-se para o Regimento de Infantaria nº 5, em Caldas da Rainha e, ao término, aceitou realizar uma Comissão de Serviço, em Luanda, no Quartel-General da Região Militar, até ao Dia da Independência de Angola.
 
Depois da estadia em África, seguiram-se sete anos de Brasil (1975-1982), em vida prática. Depois desta, retorna a Portugal, onde, entre outras atividades, reinicia o Curso de Direito, concluído em cinco anos.
 
Hermínio Maçãs doou muito de seu tempo a causas sociais e culturais, sempre de coração aberto e sem interesses. Chegou, inclusive, a exercer dois mandatos, pelo Partido Socialista, como presidente da Junta de Freguesia de Santo Onofre, em Caldas da Rainha (recusando vencimento mensal, dividindo-o pelos outros componentes da Junta), além de ter sido, no ano de 2001, candidato à presidência da Câmara Municipal da mesma cidade.
 
Foi um dedicado maestro de três grupos corais (sem auferir vencimento) e, por estar sempre próximo da religião católica, ajudou desinteressadamente, a organizar missas e inúmeras solenidades promovidas pelos católicos, por todo o concelho.
 
A 19 de setembro, um caudal humano o acompanhou à sua última morada. Com certeza, todos, ali estavam em retribuição pelo bem que dele receberam. Celebrava-se, portanto, a Amizade.
 
Quando, naquele derradeiro momento, coloquei em seu ombro a sua toga, deixei ali ficar também a possibilidade de voltar a ouvir os seus ensinamentos de Música e Latim, a sua crítica construtiva, o seu voto de confiança, e a sua objetividade e clareza perante o deslumbre que é a Vida.
 
Se um dia, após a minha morte, perguntarem quem fui, podem ter certeza que se dirá: “Era, com muito orgulho, sobrinho de Hermínio Maçãs”!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O cachimbo


A manhã começa serena neste meu tugúrio secreto do Quartier Latin. A sensação de imortalidade da alma surge a par do desejo de perceber um pouco mais da razão de existir. Por isso o anseio de paz e silêncio. Por isso a necessidade de pensar e refletir. Por isso o querer compreender o Ser, enquanto se desenvolve o Estar.

Sento-me diante do vidro baço da janela, escutando Deus, encarnado em homem, através da ária So oft ich meine Tobackspfeife, o que me desperta a vontade de reencontrar-me com o meu velho Calabash. Encontro-o em repouso de semanas e, após alguns minutos deixo-o pronto para o deleite.

O tabaco a ser utilizado deve ser sempre aquele cuja composição inclua uma mistura proveniente de quatro continentes, a sua textura, coloração e contraste, devem ser únicos e, para sabermos se o que possuímos está nesse patamar, usamos o olfato, aprimorado depois de anos de habituação, para concluirmos e decidirmos sobre qual saborear. Convém termos em casa três tipos de tabaco, o Aromático, o Virgínia e o Inglês, fazendo assim uma variação diária, para que o nosso paladar absorva e compreenda o que tange a lira da excelência.

A melodia espalha-se no ar. A sensação de bem-estar que sinto é incomparável. Experimento, entre os dedos a textura e nas narinas o aroma, percebo o tabaco, compreendo-o, sei o modo de o compactar, de obter o espaço perfeito no fornilho para que a baforada seja prazerosa. Com haste apropriada acendo o Calabash, para não queimar demasiadamente o tabaco. Jamais o deixo apagar, pois ao reacendê-lo posso sentir um sabor ocre e desagradável. Tem que arder lenta e saborosamente, sem ameaça de morte súbita. O ritmo deve ser marcado, compasso a compasso, nota a nota, sem inalar, enviando lentamente subtis anélitos de ar, da boquilha para o fornilho, assegurando assim o fulgor da ardência.

A melopeia entorpece os sentidos, a atenção volta-se para alguém que passa, longe e leve, junto ao Sena. Enquanto sinto veementes ensejos de volúpia provocados pelo ritual, inebrio-me com a visão da quantidade de trigo conduzido por estas águas, transportadoras também de outros produtos, dos mais variados, uma hidrovia como poucas no mundo. Mais abaixo surge um barco mosca, o famoso Bateau-mouches, tendo em si uma quantidade razoável de pessoas, provavelmente turistas. A vida em Paris é intensa, aliciante e com laivos de encanto esotérico.

O Calabash pede descanso. Um novo cerimonial começa, enquanto admiro a gigante frondosa que repousa atrás dos vidros baços das janelas. Confirmo a frieza do objeto, retiro, lenta e progressivamente, toda a cinza do fornilho, procuro resíduos na boquilha, tento ser a minúcia encarnada em homem, cuido, para usar em outra manhã inspiradora, sinto a minha arte a latejar nas veias, a vontade de atirar letras a um papel, alvo e virtual, nunca arisco.

O Calabash terá repouso, viro o bocal para baixo, pouso-o. Vai adormecer em si. Como um herói em retorno de uma batalha vencida. Só voltará a subir em seu cavalo e a desembainhar a espada dentro de duas semanas. Só seguirá o seu destino quando estiver curado das feridas desta última peleja.

Em subsequente dia devo servir-me de outro Kixima, não este Calabash e, quando isso se der, seguirei o culto, feito moda de princípio de outono, com o blend maduro e os meus olhos a absorverem o amarelo das folhas que caem. Pode até ser em uma das margens do sumptuoso. Que é belo e transpira vida. Que é meu, pois em meu olhar se aventura.

A minha solidão abençoada termina quando a casa é invadida pelos rebentos que a enfloram. Natália, a nossa visita querida, lança-me um olhar cheio de cuidados profissionais e, sem titubeio, pergunta-me pelo artigo que lhe devo. Surpreendendo-a afirmo http://img2.blogblog.com/img/icon18_edit_allbkg.gifque acabei de o escrever. Ela ri. Escuta-o atentamente. Depois coloca em dúvida se um cachimbo pode ser um ornamento da moda cotidiana, e se poderei abordar esse tema em seu blogue. E eu respondo que, se não é estamos com razoáveis problemas, pois devemos desclassificar também os brincos, as meias, e mais alguns panitos… Está aí uma bela ideia: eliminemos tudo. Voltemos às cavernas. A folha de parreira é a moda!

Que venha daí Johann Sebastian Bach. O resto são manias! Fugazes como a vida.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

DIREITOS DE AUTOR

 
Aviso aos mais incautos: Todos os textos de minha autoria estão protegidos pelas respetivas leis do Brasil e de Portugal. Quaisquer cópias, parciais ou integrais, e/ou reprodução de textos meus em outros meios eletrónicos e/ou impressos, só podem ocorrer se forem previamente autorizadas por mim. As citações, por ética, devem ser acompanhadas de referências bibliográficas completas.
 
Desde já, agradeço "ao espertinho" que tentou plagiar-me. Encontramo-nos na barra de um tribunal.
 
Agradeço, também, a compreensão de todos os amigos/leitores e, por favor, peço que não levem a mal esta mensagem, pois, naturalmente, não é dirigida a vós.
 
Com os meus melhores cumprimentos,
 
Rui Calisto

sábado, 10 de agosto de 2013

Elegância no Quartier Latin


 
Nesta manhã deliciosamente quente, Natália, a doce e elegante advogada e estilista, proprietária deste blogue de moda, toca à campainha do amplo apartamento, encravado no Quartier Latin, em Paris. É um alvoroço. Todos se manifestam loucamente e, entre beijos e abraços, anunciam as saudades, reciprocamente atiradas ao ar abafado que se faz sentir.

O rio Sena, testemunha muitas vezes secular, observa à distância, o movimento que as figuras apresentam entre janelas imensas.

Os artistas e estudantes nas imediações não esticam pescoços, permanecendo cegos das cenas que se reproduzem ali. Se o fizessem veriam uma mulher deslumbrante a flanar levemente por toda a sala, pousando de janela em janela, analisando do alto de suas belas pernas toda a vida deste bairro boémio e sonhador.

Quando os seus olhos azul-céu vislumbram a Sorbonne, a vetusta Universidade fundada no século XII, algumas lágrimas caem, cada uma mergulha numa profundidade medieval, banhada em latim puro e meigo, somente compreendido pelos cândidos de alma.

Natália está exausta da viagem, mas não quer descansar. Vai refrescar-se rapidamente em tépidas águas e, como uma visão do céu, retorna, desta feita com ganas de passeio e de banho de loja. A primeira parte interessa-me, a segunda nem tanto… mas, como bom cicerone, acompanho-a em rocambolescos desfiles pelo bairro.

A multidão olha de soslaio. Natália causa furor por onde passa. Veste uma delicada túnica branca, deixando claramente à mostra todas as curvas que a natureza lhe ofereceu. Usa tênis confortáveis, também brancos, óculos escuros, chapéu de abas largas e alvamente belo. Lábios pintados com um vermelho suave e tentador, unhas bem tratadas, de verniz novo e encarnado. É a mulher que Michelangelo, Bouguereau ou Da Vinci gostariam de ter retratado. É a mulher que deslumbra, que desfila elegância e beleza na Paris do século XXI.

Uma sacerdotisa, que caminha levemente por entre olhares febricitantes, celebrando, por onde passa, todos os ofícios divinos que a Humanidade, rojada a seus pés, necessita, para viver em comunhão com o Alto.

A sua moda é descontraída e natural, a sua silhueta é cobiçada, o seu olhar provocador atiça ao mais distraído dos passantes, e são muitos, dezenas de turistas e de estudantes, sôfregos por saberem quem poderá ser aquela escultura.

Graças à leveza dos trajes o calor não a incomoda, a mim muito menos, que estou acostumado a momentos abrasados, fazendo com que seja um prazer a longa caminhada.

O vestuário da juventude à nossa volta é, também, descontraído, já os que estão em idade adulta envergam mais sobriedade. As palavras que se entrechocam são dialetos do mundo. Ninhos de nações rodopiam a cada metro percorrido. O furor por Paris é sabor e paladar por todo o planeta, todos os seres culturalmente esclarecidos merecem esta Cidade, e a desejam!

Aquelas pernas ágeis e magras optam por calcorrear todos os quadrantes do Bairro Latino: os recantos mais pitorescos e os monumentos grandiosos são analisados de forma meticulosa: na Igreja Saint-Étienne-du-Mont admiramos a padroeira de Paris, Santa Genoveva, e as tumbas de Jean Racine e Blaise Pascal; no Panteão viajamos pelos sessenta e sete túmulos, por onde nos passam nomes imensos, entre eles: Alexandre Dumas (pai), André Malraux, Diderot, Zola, Fénelon, Rousseau, Marie Curie, Descartes, Voltaire, Victor Hugo; na Igreja de São Julião, o Pobre, deslumbramo-nos com a sua traça, singelamente fascinante, e temos o prazer de beber um magistral concerto, parte do Festival Liszt Chopin.

Sem esboçar cansaço, avançamos para a gótica Catedral de Notre-Dame. Natália está comovida outra vez. Aquele esplendor arquitetónico possui uma história forte e enraizada no início do século XI, e é fruto de um burguesismo endinheirado e de imensa intervenção do clero urbano. Natália cora.

Avançamos, agarro-a pela mão, conduzo-a com uma certeza na mente: a próxima parada vai deixá-la deliciada. Em poucos minutos colocamo-nos diante da Livraria Shakespeare and Company. Distante do circuito tradicional de turismo, este monumento anglo saxônico foi fundado no ano de 1951, pelo americano Georges Whitman, no edifício de um antigo Monastério, datado do século XVI, em frente à Catedral de Notre-Dame. Natália estanca à entrada. A confusão generalizada a assusta. Não imaginava que aquele local pudesse ser tão desordenado como é, com as estantes abarrotadas, livros, revistas e jornais amontoados, muitos clássicos franceses e ingleses de cabeça para baixo, muito pó, muitos ácaros pelo ar, foi a frase dita, porém, que não a impediu de entrar e ingerir o mesmo feitiço que seduziu inúmeros escritores, de todo o mundo, que frequentaram aquele local.

Pouco depois, Natália segura o meu braço com força, estamos diante da Arena de Lutécia, construída no século I, e que é um raro vestígio da Roma Antiga que ainda se pode admirar na Paris atual. Esse local foi utilizado como teatro e, infelizmente, como arena de combate entre gladiadores, e entre homens e animais. A nossa viagem intemporal permitiu-lhe um devaneio: a criação de túnicas com motivos relacionados com as cenas que deveriam ter ali ocorrido.

Eis que se apresenta, então, a estilista, a apaixonada por moda. O momento propício para caminhar em direção a casa. O entardecer faz-nos cócegas na barriga, a vontade de um quitute é grande, alguns crepes, com uma qualquer bebida exótica, ao som de uma boa banda, ou de algum cântico que nos preencha a alma. Pusemo-nos em movimento, comandados por vontades frugais, porém, indispensáveis à permanência da vida.

Esta jovem advogada, conhecedora profunda da moda do mundo, desfilou, hoje, sua leveza, sua alegria, sua beleza e seu talento, pelas ruas de Quartier Latin, como se fosse a verdadeira Cinderela. E ali, a minha teoria esteve sempre em destaque: quando uma mulher é deslumbrante de corpo, profunda de espírito cultural e inteligente, basta trajar o básico, pois nenhuma roupa de marca substituirá toda a luz que de si transborda.

Durante a estada de Natália em Paris, com certeza, muitas discussões saudáveis surgirão. Ela, em defesa da moda, eu, anti moda assumido, a tentar oferecer-lhe fantasmas, invocando Hemingway, Hugo, Rabelais, Verlaine, Molière, Diderot, Voltaire.

E, um dia, assim como eu, ela poderá sentir a Cidade Luz no coração, amando-a como se de uma mulher se tratasse. E parafraseando Victor Hugo, ela poderá dizer:

“… A função de Paris é dispensar ideias. Sacudir sobre o mundo um inesgotável punhado de verdades (…) Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos (…) O que completa e coroa Paris é o literário. A luz da razão é necessariamente a luz da arte. Paris ilumina em dois sentidos: por um lado, a vida real, por outro a vida ideal. Por que esta cidade vive imersa no belo? Por que está imersa no verdadeiro.”

José Saramago - As Intermitências da Vida


Foi com muita alegria que no dia 21 de junho, às 21 horas, apresentei, na Junta de Freguesia de Nossa Senhora do Pópulo, nas Caldas da Rainha, a convite de Maria Teresa Serrenho, o meu ensaio sobre a obra literária de José Saramago.

Esse livro fora lançado em 2010, na Casa Fernando Pessoa em Lisboa, com a mesa de honra composta pelos distintos: Ruy de Carvalho, Annabela Rita (autora do prefácio) e Paulo Mira Coelho, e não ocorrera ainda em solo caldense devido ao excesso de apresentações nas mais diversas livrarias das mais variadas cidades de Portugal, incluindo as das duas redes mais conhecidas.

Em Caldas da Rainha, a sessão contou com a moderação do Professor Doutor Amílcar Couvaneiro, cujas palavras sensibilizaram-me profundamente, e a plateia, estava formada pela fina flor da cultura local, o que muito me honrou.

Por mais de uma hora pude dissertar sobre a obra literária do primeiro Nobel de Literatura em Língua Portuguesa, por mais de uma hora pude ouvir com atenção a experiência de alguns, enquanto leitores de José Saramago.

Ao término da apresentação, ouvi uma elegante senhora dizer-me que já sentia saudade de uma boa palestra literária, como aquelas que assistia nos tempos áureos da cultura caldense, o que muito me envaideceu.

Foi uma noite agradável e quente, em vários aspetos. Uma noite voltada para a tertúlia literária, para a troca de ideias, para a boa disposição. Uma noite que não deverei repetir tão cedo, pois cada vez mais os meus projetos afastam-se das Caldas da Rainha e, creio, em pouco tempo podem afastar-me mesmo de Portugal. Mas, ficarão as recordações de momentos como aquele. Lembranças de um tempo bem passado, com uma plateia que encheu-me de mimos. Um momento gravado pela retina e guardado no coração. Um bem-haja a todos!

domingo, 21 de julho de 2013

Apresentação literária

Amigos. É hoje, às 21 horas, na sede da Junta de Freguesia de Nossa Senhora do Pópulo, em Caldas da Rainha, o "bate-papo" em torno deste livro, que foi lançado em 2010 e apresentado, posteriormente, em mais de 400 locais (livrarias, bibliotecas, fundações, museus etc.), de norte a sul do país. Gostaria de os ver por lá. Cumprimentos.


terça-feira, 18 de junho de 2013

José Rui Faria de Abreu

 
Existem amigos que, quando partem para os confins do Desconhecido, nos deixam uma lacuna na alma, difícil de preencher. Foi o caso do Faria de Abreu.
O primeiro contacto que tive com ele foi em Coimbra, no ano de 2001, quando fui obrigado a levar o meu pai, em consulta oftalmológica, de urgência. Após aquele dia, travamos uma salutar amizade, com vários telefonemas em diversos períodos nos anos que se seguiram, e até inúmeras visitas aquando das minhas várias passagens pela Terra dos Estudantes.
Os colegas diziam que ele era o melhor oftalmologista de Portugal, a Universidade de Coimbra tecia-lhe elogios e louvores, os pacientes – o meu pai incluído – diziam que ele era um médico respeitador e dedicado. Eu digo, simplesmente, que ele era uma figura humana sensível, logo, alguém que compreendia o valor da amizade.
José Rui Faria de Abreu faleceu na manhã do dia 27 de novembro de 2012 no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, aos 67 anos de idade, sendo sepultado no dia seguinte, pelas 15 horas, na Figueira da Foz, sete meses volvidos e só hoje consigo escrever algumas linhas a seu respeito. A dificuldade prendeu-se apenas com o facto do pensamento se desviar do assunto propositadamente, pois a mente não aceita o ocorrido, não admite a ausência, não quer imaginar que Coimbra está hoje muito, mas muito, mais pobre.
Faria de Abreu nasceu em Lisboa, a 10 de julho de 1945. Licenciou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, doutorando-se em Oftalmologia na área de Retinopatia Diabética (tema da sua tese de doutoramento). Seguiu-se a assistência na própria faculdade, sendo depois Investigador do Instituto Biomédico de Investigação de Luz e Imagem – Ibili – Universidade de Coimbra, exercendo trabalho diário no consultório particular, na Clínica Santa Madalena, no Hospital da Universidade de Coimbra, chegando aqui a ser Chefe do Serviço de Oftalmologia. Foi, também, um autor renomado, com uma série de publicações na sua especialidade, todas elas listadas e arquivadas pela Biblioteca Nacional de Portugal.
Uma maleita cardíaca tirou-o do nosso convívio, deixando a todos que o conheciam bem o tal vazio difícil de preencher. Sua esposa (Sra. D. Dirce Moreno) e os seus dois filhos (Eduardo Luís e Luís Pedro) têm mais razões para reclamar a perda, porém, eu tenho a razão da amizade, do ser que compreendia o escritor, por ter sido também um, do estudioso que entendia o valor da investigação literária que desenvolvo há tantos anos, por ter sido também um investigador profundo e cuidadoso.
Hoje reuni forças para homenageá-lo. Mais não faço. Amanhã será um outro dia…


 

sábado, 15 de junho de 2013

Traços Imprecisos



Esta manhã tive uma conversa séria e objetiva com um par de calças. Fui obrigado a dizer-lhe uns quantos impropérios, coisas que nem ouso escrever aqui, pois não sei a idade das pessoas que poderão ler estes rabiscos.

Confesso que não foi um diálogo nada fácil. Comecei por apontar-lhe alguns defeitos, como o de rasgar, além da conta, nos joelhos, depois da última ida à máquina de lavar. Sobre isso, ouvi uma resposta seca, do tipo “já me compraste rasgada”. E eu, sem titubear, fui obrigado a dizer-lhe que se não fosse o raio da moda que me obrigaram a meter goela abaixo, com certeza, não as compraria. Fui, imediatamente, chamado de volúvel, e de ser facilmente manipulável. Fiquei irado. Não bastava uma voz feminina a encher-me a cabeça, todos os dias, com o raio da moda, agora tenho que aturar, também, um par de calças insolente.

Quando alguém começa a irritar-me, dificilmente consigo olhar com bons olhos a nossa convivência, aliás, raramente o dia-a-dia volta a ser de equilíbrio, sensatez e com aquela política doméstica de boa vizinhança, que deve manter a ordem na casa. A vontade passa a ser uma só: a de aviar-lhe as malas e dizer-lhe que vá procurar pouso em outro lugar, neste caso seria: procurar cabide em outro armário.

Olhei profundamente para a sua cor azul desbotada, preparando-me para um ultimato feroz e definitivo, porém… veio à minha memória uma série de aventuras que vivemos juntos, umas belas taças de bom tinto com algumas amigas, um e outro encontro fortuito onde não fui o único a sair com um ar de felicidade no rosto (lembro-me bem daquele fecho éclair, com todos os dentinhos metálicos arreganhados de felicidade, por ter encontrado um zíper perfeito, e juntos, enrolados, num sofá, curtindo uma madrugada de abertura e fecho completamente louca).
 
Com a passagem dos minutos confesso que comecei a olhar para aquele par de calças com um saudosismo quase patético. Como podia então dizer-lhe tudo o que vinha em catadupa? Não consegui. Os momentos bons foram muito superiores a qualquer desavença que possa ter existido. Decidi por uma trégua. Acariciei-lhe as costuras e pendurei-a com todo o carinho no melhor cabide que encontrei, percebendo discretamente um suspiro de alívio e de agradecimento…

Se existe uma culpada, pelos rasgos aumentados naquelas calças, sem dúvida, só pode ser a máquina de lavar roupa, com aqueles movimentos sem emoção… Hummm… Vou até ali, para ter uma conversinha de pé de orelha com aquela maquineta…

sábado, 1 de junho de 2013

Sua Majestade Imperial Dom Pedro II






Existem pessoas que passam pelo planeta Terra e não deixam nenhuma marca, isso deve-se à pequenez das suas atitudes, das suas ações e dos seus pensamentos. Outras deixam algum mediano vestígio digno de recordação. E, apenas um pequeno número deixa uma mensagem intensa, forte e vibrante, que é impossível não estar sempre a citá-las como exemplo em nossas próprias vidas. Para mim, entre tantos que poderia aqui destacar positivamente, aponto o nome de Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, conhecido por todas as monarquias do mundo como D. Pedro II.

 
O Grande Imperador nasceu no Rio de Janeiro, no dia 2 de dezembro de 1825. Filho de Dom Pedro I (Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon), do ramo brasileiro da Sereníssima Casa de Bragança, e da Arquiduquesa Maria Leopoldina (Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena). A 7 de abril de 1831, com apenas 6 anos de idade, o Príncipe Imperial Pedro tornou-se "Dom Pedro II, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil”.

 
Esse homem, que assombrou a todos que o conheceram, devido às suas capacidades intelectuais, teve a infância e a adolescência voltadas para o estudo. Dominava a Antropologia, a Geologia, a Medicina, o Direito, a Religião, a Filosofia, a Geografia, a Pintura, o Teatro, a Escultura, a Fotografia (foi o primeiro fotógrafo do Brasil, tendo, inclusive adquirido uma câmera de daguerreótipo, em março de 1840, além de ter criado um laboratório fotográfico em São Cristóvão), a Música, a Poesia, a Química (criou um laboratório no Rio de Janeiro), a Física (também no Rio de Janeiro implantou um laboratório), a Astronomia (mandou construir um observatório no Paço) e a Tecnologia. Poliglota, dominava perfeitamente bem o inglês, o francês, o alemão, o italiano, o castelhano, o catalão, o latim, o árabe, o grego, o hebraico, o sânscrito, o aramaico, o chinês e o tupi-guarani.

A 23 de julho de 1840, com o apoio do Partido Liberal, e colocando fim ao Período Regencial Brasileiro, a Assembleia Geral do Senado declarou que D. Pedro II estaria apto para subir ao trono, apesar dos seus modestos 14 anos de idade. Assim sendo, foi ali preparada e aprovada a Declaração da Maioridade, que, acreditava-se, e veio a acontecer, voltaria a unir o Brasil, acabando com as revoltas: Farroupilha, Sabinada, Cabanagem, Revolta dos Malês e Balaiada, além de retirar do poder a Regência Una do Partido Conservador. O Grande Imperador foi aclamado, coroado e consagrado quase um ano depois, no dia 18 de julho de 1841.

Foi durante o seu reinado que surgiu o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Imperial Academia de Música, a Ópera Nacional e o Colégio D. Pedro II.

A Imperial Escola de Belas Artes, criada por seu pai, recebeu inúmeros incentivos financeiros.

Preocupado com a educação espalhou escolas por todo o país e ofereceu bolsas de estudo a inúmeros brasileiros, para que estes pudessem frequentar Escolas de Arte, Conservatórios e Universidades em várias partes da Europa. Financiou a criação do Instituto Pasteur e a Bayreuth Festspielhaus Casa da Ópera (de Richard Wagner).

Devido à infância reclusa, o Grande Imperador era tímido, carente e solitário, vendo o mundo pelo prisma da literatura, sendo esta um refúgio, um porto seguro à sua alma. Aqueles que esperavam um imaturo adolescente a assumir o trono enganaram-se, pois a sua dedicação a todos os assuntos do reino, as suas inspeções diárias, as suas visitas repentinas às repartições públicas, mostraram que ele sabia perfeitamente bem o que o povo necessitava e o que o país esperava de si.

D. Pedro II herdou um Império quase extinto, porém, a sua grandeza de espírito, a sua força interior, o seu modo de ser e estar, fizeram do Brasil a grande potência emergente daquela era. A estabilidade política, a liberdade de expressão, o crescimento económico veloz, o respeito aos direitos civis, todo um conjunto de fatores que foi marcando o seu nome na história das Monarquias, fez com que o Brasil fosse catapultado para uma esfera altíssima de respeito e admiração internacional, porém, foi a sua forma direta de governo, uma monarquia parlamentar constitucional, a raiz de todo o sucesso. A Monarquia de Dom Pedro II foi a verdadeira Democracia coroada.

As dificuldades apresentavam-se a todo o instante, por exemplo: três conflitos internacionais de grande monta: a Guerra do Prata, a Guerra do Paraguai e a Guerra do Uruguai, além de vários “enervamentos” caseiros, sim, por que apesar do sucesso do seu reinado, os insatisfeitos, naturalmente os que ambicionavam o poder e os benefícios deste, estavam sempre a tentar perturbar a paz instalada.

D. Pedro II foi um fervoroso adepto da abolição da Escravatura, logo conquistando muitos inimigos, foi também um incentivador e patrocinador da cultura e da ciência, e com tanto sucesso que recebeu congratulações, respeito, admiração e amizade de ilustres figuras, entre elas: Friedrich Nietzsche, Charles Darwin, Alexandre Herculano, Alexander Graham Bell, Louis Pasteur, Victor Hugo, Henry Wadsworth Longfellow, Arthur de Gobineau, Frédéric Mistral, Alessandro Manzoni, Camilo Castelo Branco, James Cooley Fletcher, Richard Wagner, Louis Agassiz, John Greenleaf Whittier, Michel Eugène Chevreul, e António Carlos Gomes. Foi, deste último, um grande mecenas, bem como de Vítor Meirelles, Pedro Américo, Gonçalves Dias, Gonçalves Magalhães, entre outros, apoiando-os social e financeiramente na carreira que abraçaram.

 
No ano de 1875, foi eleito com pompa e circunstância Membro da Academie des Sciences de France, é de destacar que somente Pedro, o Grande e Napoleão Bonaparte receberam igual honraria até àquela data.

 
O Grande Imperador foi um dedicado investigador das novas tecnologias, logo, interessou-se pelo telefone (foi o primeiro brasileiro a falar num aparelho desses, e isso ocorreu numa conversa com Graham Bell, no ano de 1876, na Exposição Universal, em Filadélfia, Pensilvânia, na comemoração do Centenário de Independência dos Estados Unidos, que foi inaugurada pelo próprio D. Pedro II e pelo presidente americano Ulysses S. Grant, nascido Hiram Ulysses Grant), pelo telégrafo, pelo cabo submarino, pela implantação da maior rede ferroviária da América do Sul, pela abertura de vários estaleiros para a construção naval, pela apresentação do comércio brasileiro para o capital externo, pela inauguração da iluminação a gás no Rio de Janeiro, pela permissão e apoio da entrada de europeus no Brasil, sendo também um incentivador e financiador da agricultura, do comércio e da indústria em solo brasileiro.

O povo admirava e respeitava o seu Imperador, mas, os inimigos do reino, acompanhados por um pequeno grupo de militares, desejavam a instalação da República e para ela trabalharam na sombra, minando diversos setores da nação. Inesperadamente um estúpido golpe de Estado retira D. Pedro II do trono. Um final incomum para um homem brilhante.

Com a deposição do Grande Imperador sucederam-se longos períodos de governos fracos, de crises financeiras, culturais e educacionais, além de ditaduras que mancharam o bom nome do Brasil perante o mundo.

Aquele fatídico 15 de novembro de 1889, dia da rebelião que depôs D. Pedro II, é uma mancha na história do Brasil.

Sereno, o Grande Imperador, quando soube da sua deposição, teve a modéstia e a simplicidade a ampará-lo: “Se assim é, será a minha aposentadoria. Trabalhei demais e estou cansado. Agora vou descansar”. Sendo obrigados a exilarem-se, D. Pedro II, a esposa Dona Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias (Teresa Cristina Maria Giuseppa Gasparre Baltassarre Melchiore Gennara Rosalia Lúcia Francesca d'Assisi Elisabetta Francesca di Padova Donata Bonosa Andréa d'Avelino Rita Liutgarda Geltruda Venância Taddea Spiridione Rocca Matilde, 1822 – 1889) e as filhas, princesas Dona Isabel (Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, 1846-1921) e Dona Leopoldina (Leopoldina Teresa Francisca Carolina Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, 1847-1871). A Família Imperial seguiu para a Europa a 17 do mesmo mês e ano (o casal teve outros dois filhos, porém, estes morreram em tenra idade: os príncipes Dom Afonso (1845-1847) e Dom Pedro (1848-1850)). O novo regime político suprimiu com severa brutalidade todas as tentativas de impedir a partida do Grande Imperador. A Liberdade foi tolhida, a voz do povo silenciada.

A Imperatriz Dona Teresa Cristina faleceu poucos dias depois da sua chegada à cidade do Porto, em Portugal.

D. Pedro II refugiou-se em Paris onde viveu dois anos cheios de tristeza e nostalgia. Vítima de uma pneumonia, a 5 de dezembro de 1891, às 00:35 horas, o seu coração parou.

Trezentas mil pessoas, entre elas, quase todos os representantes do governo francês, além de Francisco II, ex-rei das Duas Sicílias, Isabel II, ex-rainha da Espanha, Luís Filipe, Conde de Paris, representantes de outros governos, dos continentes americano, europeu e asiático. A maioria dos membros da Academia Francesa, do Instituto de França, da Academia de Ciências Morais, da Academia de Inscrições e Belas-Artes, da Royal Society, da Academia das Ciências da Rússia, das Reais Academias de Ciências e Artes da Bélgica, da Sociedade Geográfica Americana, compareceram às homenagens fúnebres. Quando estas terminaram, o esquife foi levado em cortejo até à estação do caminho-de-ferro, com destino a Lisboa, onde chegaria aclamado pela população e autoridades. A 12 de dezembro foi depositado no Panteão dos Braganças, na Igreja de São Vicente de Fora.

Quando soube da morte do Grande Imperador, o povo brasileiro cobriu-se de luto (sendo ferozmente combatidos pelos republicanos), fechando as portas dos estabelecimentos comerciais, ostentando tarjas negras nas roupas, colocando bandeiras a meia haste, executando toques de finados, realizando missas solenes por todo o país, pronunciando inúmeros discursos fúnebres em quase todo o território nacional.

Para o povo do Brasil, de Portugal e de muitas outras nações, com a morte de D. Pedro II, desaparecia um governante sábio, austero, honesto, benevolente e caridoso.

Em 1921, os seus restos mortais (bem como os da Imperatriz Dona Teresa Cristina) foram levados para o Brasil. Foi decretado feriado nacional. Uma grande manifestação popular ocorreu nesse momento, com o povo ajoelhando-se perante a passagem das urnas, batiam-se palmas, os mais velhos choravam, os mais novos mantinham a fronte baixa, não se via diferenças de raça, não se sabia quem era monárquico ou republicano, eram todos brasileiros, a clamar pelo seu Imperador.

O maior de todos voltava à sua pátria, para ali ficar para todo o sempre.

E eu, daqui do meu exílio, ofereço a minha mais alta estima e consideração a Sua Majestade Imperial Dom Pedro II, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil.

 
 
 
 
 

sábado, 25 de maio de 2013

 
 
O meu querido amigo Ruy de Carvalho mostra-se indignado com o facto de ter recebido uma carta das Finanças a indicar que ele já não é considerado um "Artista", passando a sua categoria a simples "prestador de serviços", perdendo direitos conexos e de propriedade intelectual. Sim, devemos ficar indignados. É digno de revolta. Porém, era um cenário previsível, pois investindo na política neoliberal como se investe desde há muito, é natural que esse tipo de injustiça aconteça. Estou ao lado de Ruy de Carvalho (sempre), mas, estou também ao lado de todos os desempregados, de todos os que passam fome, de todos os que perderam as suas casas, de todos os que são obrigados a sair de Portugal, devido, única e exclusivamente ao facto de existirem governos, passados e presente, que investiram, e investem, as divisas da nação a sustentar vícios políticos e a alimentar a corrupção que se conhece. Políticos que espalham a sua soberba, a sua arrogância e o seu claro e evidente DESPREZO por Portugal, a cada dia que passa, com as suas atitudes anti-Pátria. Políticos que merecem ser fuzilados, acusados de crime de lesa-Pátria (crime contra o poder soberano de um Estado). Tenho dito!

domingo, 19 de maio de 2013

O que é a moda, senão aquilo que fazemos dela?



 
O ato de vestir-me todos os dias é um ato de saturação mental. Não consigo compreender como alguém pode ter prazer em passar horas diante de um espelho a experimentar esta ou aquela peça. Isso enerva-me de tal modo que, sem apoio, seria capaz de rasgar tudo o que estivesse a provar.

Para mim, o óbvio é olhar para o guarda-roupa e vestir-me pensando apenas no básico: uma boa combinação de cores. Sempre primando pela discrição. O ser discreto é fundamental para não ser alvo de olhares menos bons. Creio que, se desejamos ser “espampanantes” no vestir, devemos fazê-lo no Carnaval. Período do ano em que podemos passar por “pessoas divertidas”. Quer dizer… por favor, não me interpretem mal, afinal, garanto-vos que sou uma pessoa divertida, mas creio que isso só se percebe num jantar, rodeado daqueles que amo e, naturalmente, com um tinto de qualidade a “molhar a goela”.

Lembro-me, com uma certa saudade, das calças “boca-de-sino” dos anos setenta no, logo longínquo, século XX. Lembro-me muito bem, aliás. Bem como daquelas camisas com padrões coloridos, réstia de sóis dos hippies dos anos sessenta. Bons tempos. Hoje acho graça. E, fico a matutar, muitas vezes, se ousaria repetir aqueles figurinos.

Nos anos oitenta passei a usar um estilo anos cinquenta: calças jeans, t-shirt branca, casaco de couro preto, sapatos “bico-fino”. As garotas adoravam e eu sentia-me o Elvis, o Brando, ou o Dean.

Nos noventa, com muito teatro e literatura cabeça dentro, vestia-me como um hippie dos anos sessenta. Ah… Garanto-vos que tomava banho, uma das minhas grandes predileções, ao contrário dos “garotos do Iê-iê-iê”, que tinham “fama de maus”, e o banho era coisa estranha para eles.

Entrou a primeira década deste novo século e passei ao estilo: “querida, o que vou vestir?”.

Na segunda década, acusam-me de não ter desenvolvido um estilo próprio na vestimenta. Enganam-se, pois “a minha alma” continua com calças jeans, t-shirt branca, casaco de couro preto e sapatos “bico-fino”. Já a casca, bom, essa, coitada, deseja mesmo um calção de banho e o último modelo de uma famosa marca brasileira de chinelos.
 
Aí está o que vou fazer da moda. Ou, não me digam que vivendo numa praia paradisíaca o meu figurino não estará adequado?

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Habemus Papam




Não é um devoto que vos escreve. Nunca fui devoto de nenhuma religião. Admiro profundamente uma série de homens e mulheres que dedicaram a sua vida a grandes causas, especialmente aquelas que podem mudar o coração do ser humano, para melhor.

Não trato como santos aqueles que para mim apenas fazem o que todo o indivíduo deveria fazer: distribuir caridade, bondade e fraternidade. Não são santos, mas são pessoas que merecem todo o meu respeito e admiração. Francisco de Assis é um deles, Jesus Cristo outro e, se deixar a mente procurar nas lembranças, creio que posso vos dar uma centena de nomes, tanto ocidentais quanto orientais. Verdadeiros espécimes que a Sabedoria e a Razão plantaram em nosso castigado planeta. Deus, para mim, é Sabedoria e Razão. Nem homem, nem mulher.

No dia do meu nascimento, a minha mãe ajoelhou-se na Capela Santo António, na Sociedade Portuguesa de Beneficência, em Santos, e pediu por um bom parto. Quinze dias depois, fui batizado na Paróquia Imaculado Coração de Maria, na mesma cidade. Com tão pouca idade não pude decidir sobre se queria ou não ser batizado e em que religião. Confesso que preferia que me tivessem levado para as águas da baía, ali na minha terra natal e, sem pompa, nem circunstância, pela mão de um qualquer elemento da família, ter recebido não apenas um punhado de água na cabeça mas sim um banho revigorante e fortalecedor. Enquanto isso, podiam entoar qualquer cântico, de qualquer ordem religiosa, pois, naturalmente, eu não saberia o que se estava a passar. Certamente, o meu batismo chegaria a Deus, a toda a Sabedoria e Razão, e eu estaria uno com Ele.

Por ter nascido num hospital que tem Santo António como orago, e ter sido batizado numa igreja que possui a Virgem Maria como padroeira, eu poderia, nos dias que correm, ser um fervoroso católico. Não é o caso. Porém, tenho uma profunda admiração por aqueles locais, bem como por aquelas personagens. E, não teria nenhum problema em ajoelhar-me e agradecer-lhes por bênçãos recebidas, se tivesse certeza absoluta que essas benesses tinham, de facto, sido ofertadas por esses etéreos seres.

Apesar de uma visível distância religiosa, no que trata a ideias, conceitos e devoções, considero-me um verdadeiro cristão, pois sou apologista e seguidor da tríade: caridade, bondade e fraternidade.

Sofro, todos os dias, com a dor dos que sofrem. Tenho esperança num mundo melhor, num planeta onde a Humanidade compreenda que ser caridoso, ser bom e ser fraterno é o caminho para uma vida plena, repleta de harmonia e equilíbrio.

Entristece-me ver e ouvir as disputas religiosas que acontecem pelo mundo. Entristece-me saber que as religiões levam o ser humano a matar os seus semelhantes. Onde está a Razão disso? Onde paira a Sabedoria que deveria nortear a cabeça de cada um?

Todos os dias leio e reflito, reflito e leio, volto os pensamentos para detalhes, uns sem importância, outros cuja existência explica-me o motivo da vida. Chego a conclusões tristes na maioria das vezes. E acabo por culpar o ser humano, acusando-o de causador de todo o sofrimento que existe no planeta Terra.

Às vezes, começo a sentir que tudo pode mudar, para melhor. Geralmente, essa sensação surge quando ocorre o aparecimento de um novo líder religioso, alguém que trará nova luz à treva existente. Neste momento, estou a sentir que pode existir essa mudança. O recém-eleito Papa da Igreja Católica Apostólica Romana parece ser um homem cordato. Não conheço o seu passado, nada sei do seu presente, gostaria muito de me rejubilar com o seu futuro.

Jorge Mário Bergoglio, nascido em Buenos Aires, Argentina, a 17 de dezembro de 1936, foi eleito Papa a 13 de março de 2013, no segundo dia do Conclave. Escolheu o nome pontifício de Francisco, passando, por isso, a ter uma responsabilidade acrescida, ou não estivesse a ostentar o pseudónimo de um dos vultos mais importantes da história da Humanidade e, claro, da própria Igreja Católica, o querido Irmão de Assis, batizado à nascença física como Giovanni di Pietro di Bernardone e à nascença religiosa como Francisco de Assis.

O Papa Francisco I é o primeiro jesuíta e o primeiro sul-americano, a ser eleito, é também o primeiro não europeu empossado como Bispo de Roma em mais de 1.200 anos, desde São Gregório III, nascido na Síria, e que fora governante da Igreja Católica entre 731 e 741.

Preocupam-me alguns comentários sobre o novo Papa, entre eles, o de ser contra o Aborto (também não sou favorável ao ato em si, porém, sou a favor de que a mulher (ou o casal) possa decidir livremente que rumo tomar), o de ser contra a eutanásia (creio que só quem padece de determinado mal é que pode decidir o que fazer com a sua vida, e não o Papa), e o de ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo (aqui, também, um ato de decisão apenas e só dos envolvidos, e não do Sumo Pontífice, dessa ou de qualquer outra religião).

Se Jorge Mário Bergoglio escolheu o nome de Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis, deve, então, seguir-lhe os passos, no que trata à caridade, à bondade e à fraternidade. Espalhando pelo mundo, pelos seres humanos e pelos animais todas as bênçãos, e apoios que tanto necessitam. Deve também despojar-se de toda a riqueza, distribuindo verdadeiramente o pão a quem precisa. Saindo de encontro à multidão que sofre e apaziguando as suas dores. Elevando a voz, para que se ouça em todos os quadrantes, no apoio à Paz e à harmonia entre os povos. Sendo um conciliador, tentando unir em fraterna paz todas as religiões do mundo.

Para ser fraterno, caridoso e bom, deve dissolver o ego. Elevar-se perante a maldade, o preconceito e a injustiça. Pedro nunca se sentou em um trono de ouro, Francisco também não o deve fazer! O ser humano precisa reavaliar a sua própria vida, mudar os valores que o norteiam, buscar caminhos onde a Fraternidade, a Caridade e a Bondade sejam o mote da Existência. Creio que este é o momento para uma mudança na mentalidade e no gesto do ser humano, e se essa transformação se der pela mão de quem conduz a maior organização religiosa de que se tem notícia, muito bem, estaremos no bom caminho.

Francisco I deveria agora reavaliar, com conta peso e medida, o que a Igreja pretende continuar a fazer com o Medo, a Morte e o Vazio da Existência Humana. Três ínfimos detalhes que mantêm, não só a cúpula católica, mas também todas as outras cúpulas religiosas existentes à face da Terra, desde tempos imemoriais.

Se a Misericórdia o elegeu, que a Misericórdia conduza as suas ações, a caminho de um verdadeiro paraíso na Terra. No meu dom de observar e ao encontro de minhas convicções, continuarei sempre a afirmar: Deus, para mim, é Sabedoria e Razão. Nem homem, nem mulher.