A recente controvérsia em torno de José Saramago não nasce de nenhuma descoberta literária inesperada, nem de um manuscrito perdido que viesse, de súbito, reacender o seu nome. Não, é algo bem mais terreno, quase burocrático à primeira vista. E, no entanto, curioso… porque é precisamente nesses lugares aparentemente técnicos que se decide, sem grande alarido, o que permanece e o que se esbate na memória de um povo. Nos últimos dias, começou a circular a notícia de que os livros de Saramago poderão deixar de ser obrigatórios no 12.º ano, na disciplina de Português. A reação foi imediata, quase instintiva. Houve indignação, perplexidade, alguma confusão à mistura, o habitual, talvez. Mas convém abrandar um pouco, respirar, olhar melhor: não há, para já, decisão final. Trata-se de uma proposta, ainda em consulta pública, integrada na revisão das chamadas Aprendizagens Essenciais . Ou seja, o cenário está em aberto, embora já suficientemente exposto para gerar desconforto. O que está...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.