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A "Rosa" de Luísa Sobral


Luísa Sobral esteve no sábado, 23 de março, no maior palco de Portugal, para um concerto intimista, cujo mote era o lançamento do seu novo trabalho discográfico “Rosa”.

O Centro Cultural e de Congressos de Caldas da Rainha, com excelente assistência, foi um dos sete palcos nacionais escolhidos para a digressão que teve início em fevereiro. Neste novo giro, a jovem intérprete apresentou os novos integrantes da sua banda, músicos sóbrios e talentosos que atuaram de modo impecável. Sérgio Charrinho, no fliscorne, Ângelo Caleira, na trompa, Gil Gonçalves, na tuba (todos, instrumentos do naipe dos sopros, do grupo dos metais) e Manuel Rocha, nas cordas, guitarras elétrica e acústica, e nos vocais.

O início da apresentação foi monótono, dando a entender que Luísa Sobral e banda estavam a tentar tomar o pulso ao público presente. As primeiras três músicas soaram tímidas e emocionalmente apagadas, depois fez-se luz, e o concerto mudou em crescendo.

Luísa Sobral assumiu, perante a Agência Lusa, que o seu trabalho é “um disco de cantautor, em que as letras são mais importantes”. Letras que, na sua maioria, não tocam fundo na alma, mas, deixam-nos um sabor de intimidade com o dia-a-dia emotivo da compositora. Mas, em verdade, temos de aceitar que “foi tudo muito orgânico, muito verdadeiro”, desejos de Luísa Sobral, explanados na declaração que fez àquela Agência e que cumpriu, quase que religiosamente, com a proposta apresentada no palco caldense.

O álbum “Rosa”, o quinto da carreira da artista, possui uma toada muito interessante, mesclando o experimental com o não-experimental, um casamento que resulta, mas, e aqui fica uma observação muito pessoal, senti falta de algumas vozes de apoio em algumas músicas, temas que pediam “um eco” vocal mais intenso, simplesmente para enriquecer a ideia central do tema, e/ou dar mais vivacidade ao refrão. No todo, “Rosa”, produzido magistralmente por Raul Refree (um multi-instrumentista e produtor de gabarito), é um disco para altas cotações, no que trata a prémios nacionais e internacionais, pois, é, sem dúvida, o álbum mais amadurecido e confidente de Luísa Sobral, com uma proposta vincada na sobriedade dos arranjos e na cumplicidade entre criadora e produtor, os seus outros quatro discos são: The Cherry on My Cake (1911), There’s a Flower in my Bedroom (2013), Lu-Pi-I-Pi-Sa-Pa (2014) e Luísa (2016). Uma carreira ainda no início, que muito tem, felizmente, a apresentar ao seu público, sim, Luísa Sobras já possui o seu próprio público, o que é excelente para a motivação em escrever, compor e editar mais álbuns.

E que venham mais.



Imagem: MDPhotography_LuisaSobral-9

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