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Caldas da Rainha, ou o elogio da distinção vazia


Em 2026, Caldas da Rainha foi distinguida como Capital Europeia do Pequeno Comércio a Retalho, a par de Silandro/Schlanders e Barcelona, num curioso exercício de equivalência simbólica entre cidades de escalas tão distintas. A notícia foi recebida com o previsível júbilo institucional e com o orgulho sereno de uma comunidade habituada a reconhecer-se em títulos e gestos de consagração externa.

Nada há de ilegítimo nesse reconhecimento. Pelo contrário: felicitar a cidade por tal distinção é um gesto devido. Mas, como Walter Benjamin nos ensinou, todo o documento de cultura é simultaneamente um documento de barbárie, na medida em que oculta tanto quanto revela. É precisamente nesse ponto — entre o que se proclama e o que se vive — que se instala a interrogação crítica que este ensaio propõe.

O pequeno comércio a retalho, expressão aparentemente técnica, remete para um universo profundamente humano: proximidade, repetição quotidiana, o rosto conhecido por trás do balcão, o mercado como espaço de sociabilidade e identidade. Em Caldas da Rainha, a Praça da Fruta permanece como um símbolo quase arcaico dessa relação entre cidade e vida, onde o tempo parece resistir à aceleração contemporânea.

Mas toda distinção convoca memória. Muitos recordam um centro urbano pulsante, onde o comércio estruturava o ritmo da cidade. A pergunta impõe-se com desconforto: essa cidade ainda existe, ou sobrevive apenas como imagem interiorizada?

A observação quotidiana sugere a segunda hipótese. O comércio tradicional atravessa anos de erosão silenciosa: lojas efémeras, encerramentos sucessivos, sobrevivências precárias sustentadas por rendas mínimas ou propriedade do imóvel. O prémio, nesse contexto, funciona menos como reconhecimento e mais como narrativa compensatória. Benjamin escreve que a modernidade transforma a cidade num palco de choques sensoriais, onde o flâneur observa restos de experiências urbanas em dissolução. Em Caldas da Rainha, essa dissolução manifesta-se no quotidiano repetido, mas sem base estrutural para sustentar a vitalidade.

Não será ingénuo supor que a distinção europeia tenha resultado de trabalho institucional de bastidores — comunicação, presença em publicações internacionais, construção de narrativa — práticas comuns no mundo contemporâneo da visibilidade. O problema surge quando a imagem substitui o projeto, quando o reconhecimento externo precede — ou dispensa — a transformação interna.

Em 2017, surgiu uma oportunidade paradigmática: a candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027. Tratava-se de uma proposta estratégica, com visão regional e integração de municípios vizinhos, que poderia ter transformado Caldas da Rainha em epicentro cultural do Oeste. A proposta foi acolhida com cordialidade — e, à medida que subia nos escalões da decisão, foi abandonada. Como em muitas narrativas saramaguianas, não faltaram avisos; faltou quem quisesse ver.

Saramago lembrava que somos cegos que veem, mas não reparam. A trajetória cultural recente da cidade parece confirmar esta máxima: oportunidades surgem, são nomeadas, mas não assumidas como responsabilidade histórica. Em alternativa, surgiu a designação de Cidade Criativa da UNESCO no domínio do Artesanato e das Artes Populares. O título é belo, quase calviniano na sua leveza simbólica. Mas Calvino advertia que a leveza verdadeira exige rigor, estrutura e densidade invisível. Sem esses elementos, a leveza converte-se em vazio.

A criatividade não se decreta; constrói-se com tempo, investimento e continuidade. Exige espaços de trabalho, políticas públicas coerentes, diálogo entre instituições formadoras e criadores. Exige uma ideia clara de futuro. Caldas da Rainha possui a ESAD — Escola Superior de Artes e Design — e uma tradição cerâmica internacionalmente reconhecida, mas os artistas trabalham em condições frágeis, sem espaços adequados, sem políticas de valorização estruturadas, sem visibilidade consolidada.

Mais grave ainda é o silêncio que envolve duas áreas historicamente centrais: literatura e artes plásticas. Criadores existem, persistem, produzem — mas são sistematicamente ignorados por uma política cultural reduzida a eventos pontuais e protocolarismos. Confunde-se cultura com entretenimento, quantidade com densidade, aparência com substância.

Resistem, apesar de tudo, alguns organismos vivos: ESAD, SILOS – Contentor Criativo, Museu do Hospital e das Caldas, Museu José Malhôa. Ilhas de exigência num mar de indiferença institucional.

A dimensão arquitetónica constitui igualmente questão central. Caldas da Rainha tornou-se, ao longo dos anos, uma cidade sem rosto, fruto de crescimento desordenado, sem unidade estética ou coerência simbólica. Ruskin escreve que uma cidade revela o seu caráter pelo que escolhe preservar, e não pelo que constrói. Nesta cidade, o património histórico — igrejas, hospitais termais, museus, chafarizes, ermidas — envelhece sem cuidado, à espera de intervenção. Programas públicos de reabilitação existiram; instrumentos financeiros foram criados; mas faltou visão integrada para transformar património em identidade viva.

Entre 2018 e 2026, títulos e distinções acumularam-se; a cidade permaneceu praticamente igual. A política cultural optou pela superfície, não pela estrutura; pela visibilidade, não pela transformação. A sensação de pertença simbólica a uma certa nobreza histórica persiste entre os caldenses, alimentada por memórias termais, presenças régias e circunstâncias políticas externas. Essa percepção funciona como anestesia: permite olhar para a cidade sem a ver, habitar o espaço sem interrogá-lo.

Benjamin afirmava que a crítica consiste em escovar a história a contrapelo. Este ensaio procura fazê-lo: não negar as distinções, mas recusá-las como substituto de pensamento. Porque Caldas da Rainha poderia, de facto, ser um dos concelhos mais notáveis do país. Possui história, talento, instituições, localização. Falta-lhe apenas aquilo que nenhuma chancela internacional pode oferecer: consciência crítica, imaginação cultural e coragem para se pensar a si própria sem ilusões.

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Bibliografia Consultada

·         BENJAMIN, Walter. The Arcades Project. Cambridge, MA: Belknap Press, 1999.

·         CALISTO, Rui. “Edifícios Históricos: Cultura e Turismo”. In.: Jornal das Caldas. Caldas da Rainha, ano XXVI, nº 1347, 28 de fevereiro de 2018, Escaparate, Opinião, p.23.

·         CALVINO, Italo. Se numa noite de inverno um viajante. Lisboa: Editorial Presença, 1981.

·         Câmara Municipal de Caldas da Rainha. Plano de Valorização do Património Cultural e Arquitetónico. Caldas da Rainha: CMCR, 2018.

·         Museu José Malhoa. Inventário do Património e Programação Cultural. Caldas da Rainha: MJM, 2020.

·         PINTO, Isabel Alves. Proposta “Caldas da Rainha: Capital Europeia da Cultura 2027”. União das Freguesias de Caldas da Rainha – Nossa Senhora do Pópulo, Coto e São Gregório, 2017.

·         RUSKIN, John. The Seven Lamps of Architecture. London: Smith, Elder & Co., 1849.

·         SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. Lisboa: Editorial Caminho, 1995.

·         SILOS – Contentor Criativo. Relatório Anual de Atividades. Caldas da Rainha, 2021.

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