O humanismo recolocou o homem no centro da reflexão. Não para o coroar senhor do mundo, mas para lhe recordar a responsabilidade que decorre da sua liberdade. A diferença é profunda. Durante séculos confundimos dignidade com domínio, inteligência com posse, progresso com acumulação. Pagamos agora o preço dessa antiga ilusão. O ar tornou-se mais pesado, as paisagens perderam silêncio, até a linguagem parece respirar com dificuldade. Não foi apenas a natureza que empobrecemos, foi também a forma de olhar o semelhante, como se cada rosto deixasse de ser um mistério para valer apenas pela utilidade que oferece. Esse empobrecimento não começou nas fábricas nem nas grandes cidades. Instalou-se muito antes, na intimidade da consciência. As civilizações degradam-se primeiro por dentro, quase não damos por isso. É um desgaste sem estrondo, semelhante ao labor persistente da água sobre a rocha, invisível durante anos, irreversível quando finalmente se manifesta. Vivemos convencidos de que ...
Ator, encenador, investigador e escritor.