Tenho por hábito acreditar que um político possui o mínimo de sensibilidade para perceber que a verdadeira cultura é uma porta aberta ao enriquecimento de uma comunidade e que, sobretudo, não se deixa reduzir a esquemas binários de leitura, como se fosse possível encerrá-la numa geometria ideológica de Esquerda e Direita, como se tivesse, enfim, um lado certo e outro errado. Mas depois há a realidade, essa coisa menos elegante. Porque, no dia-a-dia político, a cultura raramente é entendida como território autónomo. É mais frequente ser tratada como um ornamento, ou, pior ainda, como um instrumento. Um palco útil para discursos, inaugurações, fotografias oficiais, cortes de fita, pequenas cerimónias onde a estética serve apenas para legitimar a administração do momento. E, no entanto, a cultura, a verdadeira, a que resiste ao tempo, nunca se comportou bem dentro dessas molduras. Vive mal com prazos eleitorais, com relatórios de execução, com a linguagem empobrecida da gestão. Tem ...
Ator, encenador, investigador e escritor.