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A mostrar mensagens de 2026

Quando a cultura se reduz a ornamento

Tenho por hábito acreditar que um político possui o mínimo de sensibilidade para perceber que a verdadeira cultura é uma porta aberta ao enriquecimento de uma comunidade e que, sobretudo, não se deixa reduzir a esquemas binários de leitura, como se fosse possível encerrá-la numa geometria ideológica de Esquerda e Direita, como se tivesse, enfim, um lado certo e outro errado. Mas depois há a realidade, essa coisa menos elegante. Porque, no dia-a-dia político, a cultura raramente é entendida como território autónomo. É mais frequente ser tratada como um ornamento, ou, pior ainda, como um instrumento. Um palco útil para discursos, inaugurações, fotografias oficiais, cortes de fita, pequenas cerimónias onde a estética serve apenas para legitimar a administração do momento. E, no entanto, a cultura, a verdadeira, a que resiste ao tempo, nunca se comportou bem dentro dessas molduras. Vive mal com prazos eleitorais, com relatórios de execução, com a linguagem empobrecida da gestão. Tem ...

Gravata à lavallière

Durante décadas, talvez séculos, houve quem reconhecesse certas afinidades políticas, artísticas ou intelectuais por detalhes quase imperceptíveis da indumentária. Uma dobra específica do chapéu, o corte de um casaco, um lenço atado de forma negligente. A lavallière, com o seu laço amplo e vagamente desalinhado, pertenceu a esse universo de sinais subtis, meio mundanos, meio ideológicos, que dispensavam proclamações ruidosas. No século XIX, e ainda durante o primeiro quartel do século XX, artistas, estudantes e intelectuais de Esquerda, homens e mulheres, exibiam-na nas ruas de Paris, do Rio de Janeiro ou de Lisboa com uma naturalidade hoje difícil de imaginar. Havia nela qualquer coisa de simultaneamente elegante e indisciplinada. Não possuía a rigidez militar do colarinho fechado, nem a secura burguesa da gravata estreita que o capitalismo industrial acabaria por impor como uniforme moral. A lavallière caía, ondulava, respirava. E isso, convenhamos, já era uma forma de insubmissã...

“José Régio ou o pecado de Proteu”, de Mário Cláudio

A reflexão de Mário Cláudio, ao convocar Proteu para pensar José Régio (1901-1969), inscreve-se numa tradição crítica que desconfia das identidades fixas e das coerências demasiado lineares. Não se trata, note-se, de mero recurso ornamental à mitologia clássica, mas de um instrumento interpretativo que ilumina, com alguma acuidade, a natureza oscilante do sujeito regiano. Proteu, na tradição grega, era um antigo deus marinho ligado ao universo de Poseidon. Guardião de focas e conhecedor absoluto do passado, do presente e do futuro, possuía, porém, uma característica singular: recusava-se a revelar aquilo que sabia. Para arrancar-lhe uma resposta era necessário capturá-lo e resistir às suas incessantes metamorfoses. Transformava-se em fogo, água, serpente, árvore, animal feroz. Só quando o interlocutor suportava todas essas mudanças sem o largar é que Proteu regressava à sua forma inicial e consentia finalmente em dizer a verdade. Há, nesta imagem, qualquer coisa de profundamente ...

Manuel Calisto

Há, nas vilas antigas, um modo particular de nascer, ou talvez não seja apenas o nascer, mas a forma como esse instante se inscreve no tempo, quase como se a pedra o guardasse. Assim veio ao mundo Manuel Calisto, em Óbidos, distrito de Leiria, no dia 6 de fevereiro de 1909, pelas duas horas da madrugada. Não foi um nascimento qualquer; deu-se dentro das muralhas do castelo, esse recinto que, ao longo dos séculos, guardou mais do que batalhas e cercos, guardou vidas, silêncios, continuidades. Imagino a casa, arejada, de amplas janelas, para a época, talvez de paredes frias, iluminada por uma luz incerta, e o labor discreto de quem ajudava a trazer a criança ao mundo. Há sempre qualquer coisa de recolhido nesses momentos, um compasso suspenso. Lá fora, a vila dormia, alheia ao singelo acontecimento que, ainda assim, alterava para sempre uma linhagem. Poucos dias depois, a 21 de fevereiro, cumpriu-se o ritual que, durante gerações, marcou a entrada plena na comunidade, o batismo, na...

Memória primeira

  Todos os dias, ao despertar… Acorre-me, com uma insistência quase litúrgica, a imagem da minha Santa mãe. Detenho-me nesses instantes, com uma espécie de recolhimento íntimo, revisitando fragmentos da nossa alegria partilhada, numerosos, sim, mas também curiosamente depurados, como se o tempo lhes tivesse limado as arestas mais ruidosas. A lembrança mais remota, contudo, é a que me reconduz ao berço. E aqui hesito, pelo espanto que semelhante faculdade ainda hoje me causa, quem, afinal, logra recordar-se de tão recuada idade, desse território indistinto da primeira infância? Eu, para minha própria surpresa, retenho não apenas a cena, mas até o eco das palavras, com uma clareza que quase desconcerta. A Senhora Dona Elvira, investida de uma firmeza serena que não admitia contestação leviana, volta-se para o meu pai e declara, em tom resoluto, é essencial encostar o berço à parede e aproximar a nossa cama dele, não vá o rapazinho, num ímpeto qualquer, projetar-se dali e tomb...

O quarto onde cabem muitos

Há livros que se aproximam de um autor pela via da explicação. Este, Los últimos tres días de Fernando Pessoa: Un delirio , não. O texto de António Tabucchi (1943-2012) contorna Fernando Pessoa (1888-1935) como quem entra num quarto onde ainda há presença. Os últimos dias , esse lugar onde a biografia costuma fechar-se com uma espécie de pontuação final, são aqui outra coisa. Não há propriamente um fim. Há uma dilatação. O tempo abranda, hesita, quase se suspende, e é nesse intervalo que começam a surgir as presenças. Como continuidades imperfeitas de uma consciência que nunca foi una. O que Tabucchi faz, e faz com uma precisão quase silenciosa, é deslocar a morte do corpo para um plano menos evidente: o da identidade. Não morre apenas um homem; começa a desfazer-se uma organização instável de vozes. E, no entanto, esse apagar não possui nenhum sinal de violência. Há antes uma espécie de urbanidade final entre criador e criaturas, como se todos soubessem que aquele encontro tardi...

A densidade do humano

Dir-se-ia, por vezes, que viver é uma espécie de sobreposição contínua, como folhas translúcidas, colocadas umas sobre as outras, sem nunca coincidirem perfeitamente. A psicologia, quando não cede à tentação de simplificar, aproxima-se desta ideia. Em A Interpretação dos Sonhos , de Sigmund Freud (1856-1939), o humano aparece como um campo de forças subterrâneas, desejos recalcados, imagens deslocadas, fragmentos que regressam sob disfarce. Não há linearidade, há retorno, insistência, deformação. E, curiosamente, aquilo que se oculta parece adquirir maior densidade do que o que se expõe. Mas não é apenas no oculto que essa espessura se manifesta. Carl Gustav Jung (1875-1961), num registo distinto, fala de arquétipos, formas antigas que atravessam o indivíduo sem lhe pertencerem inteiramente. Como se cada sujeito fosse habitado por narrativas anteriores, ecos coletivos que persistem. Não é identidade estável, mas antes uma espécie de palimpsesto, onde o novo nunca apaga completamente ...

Fenomenologia da alface

Existe algo de profundamente revelador no ridículo, não enquanto desvio episódico, mas como categoria quase filosófica, discreta, persistente, insinuando-se onde menos se espera. Dir-se-ia, aliás, que o burlesco não é o contrário da seriedade, é, isso sim, a sua caricatura involuntária, o seu espelho deformado, onde a intenção se perde e sobra apenas uma espécie de eco deslocado. E então, inevitavelmente, regressamos à alface. Não a hortícola, humilde, destinada ao prato, mas essa outra, transfigurada em indumentária comemorativa, erguida com surpreendente convicção num contexto que pede memória, densidade, até um certo silêncio interior. A Revolução dos Cravos, convenhamos, não se deve prestar a metáforas botânicas de ocasião. Há a flor, é certo, e nela cabe uma ideia inteira de ruptura sem violência, uma estética mínima, quase ascética. A alface, pelo contrário, parece já pertencer a outro domínio, o da proliferação gratuita, da abundância sem centro, da forma que não encontra co...

A persistência do mal

Há qualquer coisa de desconcertante, diria mesmo metafísico, na forma como o mal se insinua na história humana. Não entra de rompante, não se anuncia com trombetas, antes se instala devagar, como uma ideia que, repetida o suficiente, acaba por parecer razoável. E talvez seja esse o seu maior triunfo, não a violência em si, mas a capacidade de se normalizar. O século XX ofereceu-nos figuras que se tornaram, queira-se ou não, arquétipos sombrios. Adolf Hitler (1889-1945), Benito Mussolini (1883-1945) e Francisco Franco (1892-1975) não foram apenas homens com poder, foram encarnações de uma ideia mais vasta, a crença de que a ordem pode nascer da exclusão, de que a unidade exige silêncio, de que o diferente é, por definição, um problema a resolver. É curioso, ou talvez inquietante, como essas premissas, apesar de tão flagrantemente desastrosas, reaparecem com uma regularidade quase teimosa. Hannah Arendt (1906-1975), ao falar da banalidade do mal, sugeria algo profundamente incómodo...

Sobre o exercício da Democracia

Há, na Democracia, uma exigência que nem sempre se deixa ver de imediato, quase como aquelas ideias que só ganham forma depois de algum tempo de reflexão: a de reconhecer o outro, mesmo quando dele nos afastamos com convicção. Não se trata de simpatia, nem de cedência, muito menos de concordância. É algo mais sóbrio, talvez mais exigente, uma espécie de contenção interior que, convenhamos, nem sempre encontra espaço num tempo tão apressado como o nosso. Não surpreende, portanto, que, para certos horizontes ideológicos, mais inclinados à rigidez do que à convivência do diverso, esse exercício se torne penoso. A Democracia não é um território de linhas direitas, nem um espaço de unanimidades confortáveis. É, pelo contrário, um campo irregular, feito de tensões, sobreposições, ruído, ainda que um ruído com função própria, quase como o murmúrio constante de uma cidade viva. Ainda assim, esse mesmo regime que admite a pluralidade, exige, em momentos específicos, muita contenção. Pode ...

Madrid e os seus museus

Há cidades que se visitam. E há outras que se percorrem como quem lê, devagar, quase com receio de saltar uma linha. Madrid, sobretudo na zona do Paseo del Prado , pertence claramente a esta segunda categoria. Não é apenas um conjunto de museus, é uma espécie de narrativa contínua, onde cada sala parece responder, ainda que em surdina, à anterior. Começa-se, inevitavelmente, pelo Museo Nacional del Prado . E “começar” talvez nem seja a palavra mais justa, entra-se ali como quem atravessa um limiar. Há qualquer coisa de quase solene naquele espaço, mas sem rigidez. As obras estão lá, sim, mas não como relíquias distantes. Olham-nos. Interpelam-nos, às vezes com uma estranha familiaridade. Diante de As Meninas , de Diego Velázquez (1599-1660), por exemplo, há sempre um momento de suspensão. Não é apenas a técnica, nem sequer a composição, é aquela sensação difícil de explicar de estarmos dentro da pintura sem sabermos exatamente onde nos colocamos. E depois Francisco de Goya (1746-...

Júlia Cortines

Maria Júlia Cortines Laxe , nascida em Rio Bonito a 12 de dezembro de 1868 e falecida no Rio de Janeiro a 2 de abril de 1948, ocupa um lugar singular, embora discreto, mas não despido de significado, na história literária brasileira. Poeta, cronista e professora, de formação exigente e sensibilidade complexa, foi associada à escola Parnasiana, uma das mais elevadas e estruturantes correntes estéticas da tradição literária, responsável por elevar o verso a um patamar de rigor técnico, disciplina formal e depuração estética raramente alcançados, embora a sua escrita revele nuances que excedem, com subtileza, os limites mais rígidos dessa corrente. Filha de João Batista Cortines Laxe (1830-1875), jornalista e homem público, e de Júlia Pereira de Mesquita Cortines Laxe (1840-1869), cresceu num ambiente culturalmente favorecido, repartindo a sua formação entre a terra natal, Niterói e a então capital. Mas não é só isso, há sempre qualquer coisa que escapa aos registos formais: uma infân...