Possuo uma relação serena com a morte. Não direi que a procuro compreender em toda a sua vastidão, porque talvez nenhum ser humano o consiga plenamente, mas deixei, há muito, de a encarar como uma adversária ou como uma ruptura absoluta. Sou espírita desde 1983, ano em que me foi apresentada a obra de Allan Kardec (1804-1869), bem como os escritos de José Herculano Pires (1914-1979) e de outros pensadores que procuraram lançar alguma luz sobre uma das mais antigas inquietações da humanidade. Desde então, a morte deixou de surgir aos meus olhos como um muro intransponível. Passou a assemelhar-se mais a uma porta. Uma passagem que não sabemos abrir por nós mesmos, uma soleira envolta em mistério, um limiar que apenas atravessamos quando chega o momento. Nunca me habituei às manifestações excessivamente dramáticas que tantas vezes acompanham a despedida de alguém. A dor existe, naturalmente. A saudade instala-se. O vazio faz-se sentir. Contudo, por detrás dessas emoções permanece em...
Ator, encenador, investigador e escritor.