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A praia da minha infância



É de uma extensão absurdamente bela, com palmeiras, amendoeiras e outras espécies arbóreas a estenderem-se por 218.800m2. Entre a magnificência da natureza repousam estátuas, hermas e bustos das mais significativas personalidades. Nos bem cuidados canteiros saltam-nos à vista as mais diversas castas de inenarráveis exemplares florícias que dão ao imenso jardim um colorido estonteante, inefavelmente estético.

Caminhar por aquelas alamedas; brincar entre alfobres; subir ao leão (criação de Sigismundo Fernandes, instalado em 10 de outubro de 1940) e ao jaguar (executado pelos alunos do Instituto D. Escholástica Rosa, na sua Oficina de Fundição Artística), - ambos em betão e pintados de branco - para se deixar fotografar, é um delicioso entretenimento; sentar em um dos inúmeros bancos e ver a passagem dos navios de alto calado, a caminho da entrada do porto, é outro.

É de destacar que esses são os maiores jardins frontais de praia do mundo, abrangendo sete bairros (José Menino, Pompeia, Gonzaga, Boqueirão, Aparecida, Embaré e Ponta da Praia), possuindo ainda um impressionante manancial de refúgios biológicos, e um admirável leque de estirpes de flores e de pássaros.

Quase 30 funcionários fazem a manutenção de toda a área verde, entre estes estão jardineiros, auxiliares de poda, técnicos de reflorestamento, biólogos vegetais (ou botânicos), paisagistas, etc.. Cada profissional, envolvido na conservação daquele património ecológico, possui apurada aptidão, gosto e talento, dando o melhor de si para que o local seja, cada vez mais, uma das grandes referências mundiais no que trata à preservação do ambiente.

É um trabalho pouco facilitado, pois é necessário possuir muito saber em aprimoramento genético de espécies; criação de mudas; inventário de castas; manuseamento e produção das famílias natas e singulares; anatomia, fisiologia taxonomia e sistemática vegetal; biologia de polinização e procriação; além de compreender o que significa a etnobotânica e a farmacobotânica. Não podemos esquecer do trabalho incansável da própria natureza, pois é ela que, com a sua sumptuosidade, oferece o estado do tempo e do clima adequados à explosão de cores e aromas das suas florescências.

De um dos lados desses famosos jardins temos as vias de rodagem, do outro encontra-se a extensa faixa de areia e o mar calmo, que traduz em poesia as marulhantes ondas que o compõem. Não é à toa que aquela é uma terra de poetas.

Brincar nesse imenso areal é extremamente benéfico para as crianças, já os adultos divertem-se com os mais variados jogos, não apenas com o futebol. Quem beneficia daquele local passa por um extremo desenvolvimento sensorial, devido aos estímulos constantes na visão, no olfato, no tato, na audição. É um local de encontro familiar, de ajuntamento de amigos, de troca de emoções.

Uma das minhas grandes e relaxantes atividades era a caminhada diária no calçadão que compõe a paisagem. Percorrer, de lés-a-lés, toda aquela área mantém a saúde do nosso organismo, oxigenando-o, purificando-o, sendo, inclusive, um bálsamo para o espírito.

Faço minhas as palavras do poeta Martins Fontes (1884-1937): “Bendita sejas, ó Formosa e Libertadora! Tenho certeza de que estás contente de mim, porque, se a tua nobreza me orgulha, o fervor do meu afeto te consola. Deste-me a vida. Dou-te a flor do meu ser. Em ti flori, em ti repousarei. Sonho integrar-me no teu solo, desfazer-me na tua terra, desabrochar nas tuas rosas, ser tu mesma, pelo calor, pela seiva nutriz, pelo poder da luz, pela magia da matéria”.

Pensando, todos os dias, na minha cidade de Santos - a pátria que me ensinou a caridade e a liberdade – vou emotiva e ternamente sobrevivendo.

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