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Mensagens

A mostrar mensagens de abril, 2026

Os cortinados da sala e os modelitos última moda

Há cidades que se deixam interpretar como textos clássicos, densos e lapidares, onde cada monumento funciona como uma frase bem talhada na pedra; outras, mais sensoriais, revelam-se na gramática subtil dos sabores, na persistência de receitas que atravessam gerações com a autoridade silenciosa da tradição; algumas, raríssimas, impõem-se pela vibração das suas gentes, essa eletricidade difusa que não se descreve, apenas se sente. E depois, num registo quase menor, embora não menos revelador, existem aquelas localidades onde o tempo parece ter abdicado da sua vocação natural, não avançando nem recuando, antes se demorando, arrastando-se com uma lassidão que se entranha nas ruas, nas fachadas, nos gestos. É nesse cenário, simultaneamente banal e carregado de uma estranha melancolia, que encontramos a vereadora da “cultura”, figura que, sendo incontornável, o é por vias que escapam aos critérios habituais de relevância pública. Não foi a leitura de qualquer documento oficial, daqueles ...

A prosa desabitada

Passei os olhos, há pouco, por um jornal regional, um semanário muito conhecido no Oeste português, presença habitual nas bancas e nas rotinas de leitura de tantas casas, e confesso, fiquei com uma espécie de melancolia difícil de nomear, quase um desconforto íntimo, desses que não fazem ruído mas permanecem. Não era apenas o conteúdo, nem sequer a habitual linearidade argumentativa que, de vez em quando, se encontra nos textos de opinião. Era outra coisa. Uma ausência, talvez. Ou, mais exatamente, uma presença demasiado regular. Poderia referir-me a diversas passagens de todo o periódico, contudo, ficarei apenas por um artigo, alinhado com uma correção quase irrepreensível. Este exibe uma fluidez contínua, uma uniformidade de tom que, à primeira vista, pode ser confundida com maturidade estilística (mas seguramente não é). Há ali uma espécie de superfície polida em excesso, como uma pedra trabalhada até perder as suas pequenas irregularidades, aquelas que, curiosamente, lhe dão ca...

O medo da Cultura

Há um desconforto difuso quando se fala de cultura, uma espécie de retração que não se declara frontalmente, mas que se adivinha nos interstícios do discurso público, nas prioridades sucessivamente adiadas, naquele gesto quase automático de a empurrar para segundo plano, como se fosse um luxo delicado, apropriado apenas a tempos de abundância. E, no entanto, essa desvalorização não é inocente, nem meramente circunstancial. Revela, antes, uma tensão mais funda, enraizada na forma como as sociedades se organizam, distribuem poder e constroem sentido. A cultura, quando não é reduzida a ornamento, introduz complexidade, e a complexidade, convenhamos, raramente é bem-vinda em contextos que privilegiam a eficiência imediata e a estabilidade aparente. Desde logo, importa reconhecer que a cultura, entendida em sentido amplo, não se limita à produção artística ou à fruição estética. Ela constitui um campo simbólico onde se disputam narrativas, onde se sedimentam identidades e, sobretudo, on...