Há cidades que se deixam interpretar como textos clássicos, densos e lapidares, onde cada monumento funciona como uma frase bem talhada na pedra; outras, mais sensoriais, revelam-se na gramática subtil dos sabores, na persistência de receitas que atravessam gerações com a autoridade silenciosa da tradição; algumas, raríssimas, impõem-se pela vibração das suas gentes, essa eletricidade difusa que não se descreve, apenas se sente. E depois, num registo quase menor, embora não menos revelador, existem aquelas localidades onde o tempo parece ter abdicado da sua vocação natural, não avançando nem recuando, antes se demorando, arrastando-se com uma lassidão que se entranha nas ruas, nas fachadas, nos gestos. É nesse cenário, simultaneamente banal e carregado de uma estranha melancolia, que encontramos a vereadora da “cultura”, figura que, sendo incontornável, o é por vias que escapam aos critérios habituais de relevância pública. Não foi a leitura de qualquer documento oficial, daqueles ...
Ator, encenador, investigador e escritor.