Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de abril, 2026

O quarto onde cabem muitos

Há livros que se aproximam de um autor pela via da explicação. Este, Los últimos tres días de Fernando Pessoa: Un delirio , não. O texto de António Tabucchi (1943-2012) contorna Fernando Pessoa (1888-1935) como quem entra num quarto onde ainda há presença. Os últimos dias , esse lugar onde a biografia costuma fechar-se com uma espécie de pontuação final, são aqui outra coisa. Não há propriamente um fim. Há uma dilatação. O tempo abranda, hesita, quase se suspende, e é nesse intervalo que começam a surgir as presenças. Como continuidades imperfeitas de uma consciência que nunca foi una. O que Tabucchi faz, e faz com uma precisão quase silenciosa, é deslocar a morte do corpo para um plano menos evidente: o da identidade. Não morre apenas um homem; começa a desfazer-se uma organização instável de vozes. E, no entanto, esse apagar não possui nenhum sinal de violência. Há antes uma espécie de urbanidade final entre criador e criaturas, como se todos soubessem que aquele encontro tardi...

A densidade do humano

Dir-se-ia, por vezes, que viver é uma espécie de sobreposição contínua, como folhas translúcidas, colocadas umas sobre as outras, sem nunca coincidirem perfeitamente. A psicologia, quando não cede à tentação de simplificar, aproxima-se desta ideia. Em A Interpretação dos Sonhos , de Sigmund Freud (1856-1939), o humano aparece como um campo de forças subterrâneas, desejos recalcados, imagens deslocadas, fragmentos que regressam sob disfarce. Não há linearidade, há retorno, insistência, deformação. E, curiosamente, aquilo que se oculta parece adquirir maior densidade do que o que se expõe. Mas não é apenas no oculto que essa espessura se manifesta. Carl Gustav Jung (1875-1961), num registo distinto, fala de arquétipos, formas antigas que atravessam o indivíduo sem lhe pertencerem inteiramente. Como se cada sujeito fosse habitado por narrativas anteriores, ecos coletivos que persistem. Não é identidade estável, mas antes uma espécie de palimpsesto, onde o novo nunca apaga completamente ...

Fenomenologia da alface

Existe algo de profundamente revelador no ridículo, não enquanto desvio episódico, mas como categoria quase filosófica, discreta, persistente, insinuando-se onde menos se espera. Dir-se-ia, aliás, que o burlesco não é o contrário da seriedade, é, isso sim, a sua caricatura involuntária, o seu espelho deformado, onde a intenção se perde e sobra apenas uma espécie de eco deslocado. E então, inevitavelmente, regressamos à alface. Não a hortícola, humilde, destinada ao prato, mas essa outra, transfigurada em indumentária comemorativa, erguida com surpreendente convicção num contexto que pede memória, densidade, até um certo silêncio interior. A Revolução dos Cravos, convenhamos, não se deve prestar a metáforas botânicas de ocasião. Há a flor, é certo, e nela cabe uma ideia inteira de ruptura sem violência, uma estética mínima, quase ascética. A alface, pelo contrário, parece já pertencer a outro domínio, o da proliferação gratuita, da abundância sem centro, da forma que não encontra co...

A persistência do mal

Há qualquer coisa de desconcertante, diria mesmo metafísico, na forma como o mal se insinua na história humana. Não entra de rompante, não se anuncia com trombetas, antes se instala devagar, como uma ideia que, repetida o suficiente, acaba por parecer razoável. E talvez seja esse o seu maior triunfo, não a violência em si, mas a capacidade de se normalizar. O século XX ofereceu-nos figuras que se tornaram, queira-se ou não, arquétipos sombrios. Adolf Hitler (1889-1945), Benito Mussolini (1883-1945) e Francisco Franco (1892-1975) não foram apenas homens com poder, foram encarnações de uma ideia mais vasta, a crença de que a ordem pode nascer da exclusão, de que a unidade exige silêncio, de que o diferente é, por definição, um problema a resolver. É curioso, ou talvez inquietante, como essas premissas, apesar de tão flagrantemente desastrosas, reaparecem com uma regularidade quase teimosa. Hannah Arendt (1906-1975), ao falar da banalidade do mal, sugeria algo profundamente incómodo...

Sobre o exercício da Democracia

Há, na Democracia, uma exigência que nem sempre se deixa ver de imediato, quase como aquelas ideias que só ganham forma depois de algum tempo de reflexão: a de reconhecer o outro, mesmo quando dele nos afastamos com convicção. Não se trata de simpatia, nem de cedência, muito menos de concordância. É algo mais sóbrio, talvez mais exigente, uma espécie de contenção interior que, convenhamos, nem sempre encontra espaço num tempo tão apressado como o nosso. Não surpreende, portanto, que, para certos horizontes ideológicos, mais inclinados à rigidez do que à convivência do diverso, esse exercício se torne penoso. A Democracia não é um território de linhas direitas, nem um espaço de unanimidades confortáveis. É, pelo contrário, um campo irregular, feito de tensões, sobreposições, ruído, ainda que um ruído com função própria, quase como o murmúrio constante de uma cidade viva. Ainda assim, esse mesmo regime que admite a pluralidade, exige, em momentos específicos, muita contenção. Pode ...

Madrid e os seus museus

Há cidades que se visitam. E há outras que se percorrem como quem lê, devagar, quase com receio de saltar uma linha. Madrid, sobretudo na zona do Paseo del Prado , pertence claramente a esta segunda categoria. Não é apenas um conjunto de museus, é uma espécie de narrativa contínua, onde cada sala parece responder, ainda que em surdina, à anterior. Começa-se, inevitavelmente, pelo Museo Nacional del Prado . E “começar” talvez nem seja a palavra mais justa, entra-se ali como quem atravessa um limiar. Há qualquer coisa de quase solene naquele espaço, mas sem rigidez. As obras estão lá, sim, mas não como relíquias distantes. Olham-nos. Interpelam-nos, às vezes com uma estranha familiaridade. Diante de As Meninas , de Diego Velázquez (1599-1660), por exemplo, há sempre um momento de suspensão. Não é apenas a técnica, nem sequer a composição, é aquela sensação difícil de explicar de estarmos dentro da pintura sem sabermos exatamente onde nos colocamos. E depois Francisco de Goya (1746-...

Júlia Cortines

Maria Júlia Cortines Laxe , nascida em Rio Bonito a 12 de dezembro de 1868 e falecida no Rio de Janeiro a 2 de abril de 1948, ocupa um lugar singular, embora discreto, mas não despido de significado, na história literária brasileira. Poeta, cronista e professora, de formação exigente e sensibilidade complexa, foi associada à escola Parnasiana, uma das mais elevadas e estruturantes correntes estéticas da tradição literária, responsável por elevar o verso a um patamar de rigor técnico, disciplina formal e depuração estética raramente alcançados, embora a sua escrita revele nuances que excedem, com subtileza, os limites mais rígidos dessa corrente. Filha de João Batista Cortines Laxe (1830-1875), jornalista e homem público, e de Júlia Pereira de Mesquita Cortines Laxe (1840-1869), cresceu num ambiente culturalmente favorecido, repartindo a sua formação entre a terra natal, Niterói e a então capital. Mas não é só isso, há sempre qualquer coisa que escapa aos registos formais: uma infân...

Eça de Queirós e Victor Hugo

  Há encontros que a história recusa, mas que o espírito, esse, mais livre e mais insinuante, persiste em conjeturar. Entre eles, avulta o possível diálogo entre Eça de Queirós e Victor Hugo, duas consciências literárias de primeira grandeza, tangentes no tempo, embora nunca verdadeiramente coincidentes. Victor Hugo, nascido em 1802, cedo se afirmou como um dos pilares do romantismo europeu. Quando Eça veio ao mundo, já o autor de Les Misérables se erguia como uma figura quase tutelar, não apenas das letras francesas, mas de uma certa ideia de intervenção moral e cívica. Havia na sua escrita um fôlego vasto, uma inclinação para o sublime, para a exaltação das paixões e das injustiças humanas em escala quase monumental. Eça, surgido décadas mais tarde, inscreve-se num outro horizonte. A sua pena, mais contida, embora não menos incisiva, afasta-se do arrebatamento romântico e aproxima-se de uma observação lúcida, por vezes mordaz, da realidade social. Onde Hugo amplifica, Eça ...

Ermida da Ascensão de Cristo

Convém afirmá-lo com nitidez, quase contrariando esse impulso, tão humano, de atenuar o juízo: a ermida da Ascensão de Cristo situa-se hoje numa zona de fronteira, perigosamente tangente a uma perda definitiva. Não estamos perante uma conjectura distante, nem diante de um alarmismo de ocasião, trata-se, isso sim, de um processo em marcha, perceptível, acumulativo, quase paciente na sua progressão. Aquilo que ainda resiste, erguido contra a erosão do tempo, já não assegura, por si mesmo, a continuidade; pelo contrário, revela, numa espécie de eloquência muda, a vulnerabilidade intrínseca de tudo quanto não é amparado. Não basta, por conseguinte, reconhecer-lhe o valor histórico, estético ou simbólico. Nem sequer é suficiente convocar a memória erudita, alinhando cronologias, nomes ilustres, referências bibliográficas. A consciência patrimonial, quando não se converte em gesto, em decisão concreta, arrisca degradar-se em contemplação estéril, quase decorativa. Exige-se, antes, uma a...

Os Pavilhões de Rodrigo Berquó

D. Rodrigo Maria Berquó (1839-1896), nascido no Rio de Janeiro e formado em arquitetura e engenharia, chegou às Caldas da Rainha no ano de 1888 com um desígnio claro: transformar a cidade, o Hospital Termal e o seu entorno numa experiência singular de integração entre saúde e urbanismo. Como diretor do Hospital Termal até ao ano de 1896, Berquó exerceu competências que transcenderam a mera administração hospitalar. Sob a sua supervisão encontravam-se os anexos do hospital, a Mata Rainha D. Leonor, o Parque D. Carlos I e a própria estrutura urbanística da vila. Em demonstração da sua capacidade de intervenção e da confiança nele depositada, chegou mesmo a assumir a presidência da Câmara Municipal durante o último ano da sua vida, como se o tempo, já escasso, exigisse-lhe ainda uma derradeira camada de atuação sobre a cidade que ajudava a moldar. Homem de ação, muito inquieto e extremamente ambicioso, Berquó não se contentava com a preservação do já existente, aspirava à transformação,...

Os cortinados da sala e os modelitos última moda

Há cidades que revelam, com o tempo, certas mentalidades. Insinuam-se quase em surdina, naquilo que escapa ao discurso organizado, um gesto, um rumor, um detalhe que persiste. Outras afirmam-se por camadas mais sensoriais, receitas herdadas, vozes que atravessam o tempo com uma autoridade discreta. E há ainda aquelas onde o próprio tempo, caprichoso, se demora, nem avança nem recua, arrasta-se. É nesse pano de fundo, banal à primeira vista, mas tingido de uma melancolia espessa, que surge a vereadora da “cultura”, figura inevitável por razões, digamos, pouco ortodoxas. Não cheguei até ela por via de papéis oficiais, esses artefactos onde a realidade se domestica em fórmulas previsíveis. Foi uma vendedora de couves, olhar vivo, verbo certeiro, que me lançou a chave interpretativa, entre moedas e folhas verdes: “Ó meu caro e estimado amigo, aquilo não são roupas, são cortinas”. A frase ficou, como ficam certas verdades ditas sem cerimónia, e desde então tornou-se impossível não ver. Ca...