Há
cidades que se deixam interpretar como textos clássicos, densos e lapidares,
onde cada monumento funciona como uma frase bem talhada na pedra; outras, mais
sensoriais, revelam-se na gramática subtil dos sabores, na persistência de
receitas que atravessam gerações com a autoridade silenciosa da tradição;
algumas, raríssimas, impõem-se pela vibração das suas gentes, essa eletricidade
difusa que não se descreve, apenas se sente. E depois, num registo quase menor,
embora não menos revelador, existem aquelas localidades onde o tempo parece ter
abdicado da sua vocação natural, não avançando nem recuando, antes se
demorando, arrastando-se com uma lassidão que se entranha nas ruas, nas
fachadas, nos gestos. É nesse cenário, simultaneamente banal e carregado de uma
estranha melancolia, que encontramos a vereadora da “cultura”, figura que,
sendo incontornável, o é por vias que escapam aos critérios habituais de
relevância pública.
Não
foi a leitura de qualquer documento oficial, daqueles que, com zelo
burocrático, procuram fixar a realidade em fórmulas previsíveis, que me
conduziu até ela. Nem relatório, nem ata, nem memorando. Foi, antes, uma dessas
vozes que habitam os interstícios da vida urbana, uma vendedora de couves da
praça, mulher de olhar arguto e dicção certeira, que, entre o peso das folhas
verdes e o tilintar breve das moedas, me confidenciou, com uma convicção quase
teatral: “Ó meu caro e estimado amigo, aquilo não são roupas, são cortinas”. A
afirmação, proferida com a segurança de quem não admite réplica, instalou-se em
mim com uma persistência inesperada e, a partir desse instante, tornou-se
impossível não ver.
Cada
aparição pública da tal senhora vereadora converte-se, assim, num verdadeiro
acontecimento têxtil, expressão que aqui não é metáfora indulgente, mas
descrição rigorosa. Não se trata de um episódio ocasional de gosto duvidoso,
daqueles que a benevolência social rapidamente dissolve na indiferença; há,
pelo contrário, uma regularidade obstinada, uma coerência que quase se poderia
qualificar de doutrinária. Os tecidos apresentam-se de tal modo exdrúxulos,
como se transportassem consigo não apenas matéria, mas memória; os padrões,
saturados de um passado decorativo já amplamente abandonado, insinuam salas de
estar onde o tempo se acumulou em camadas sucessivas; as pregas, abundantes e
insistentes, conferem aos conjuntos uma volumetria que, em certos momentos,
parece desafiar não só o bom senso, mas a própria lógica física. E há, cumpre
reconhecê-lo sem rodeios, modelitos que suscitam um espanto próximo do clamor,
de bradar, efetivamente, aos céus.
Num
dia, a senhora vereadora irrompe num conjunto cujas cores parecem ter travado
uma disputa civilizada, mas feroz, com a paleta do ambiente, enquanto os
padrões, anacrónicos e desproporcionados, competem entre si por atenção, numa
espécie de congresso estético desordenado; a peça, de tal modo estapafúrdia,
sugere a capacidade de lançar sombras sobre toda uma janela, como se tivesse
retido, de forma obstinada, a sua função original de cortinado. Noutro,
apresenta-se com um traje que aparenta ter sido resgatado de um varão antigo,
corroído pelo tempo, impregnado de história e, ouso imaginar, de uma camada
respeitável de pó, tal como se exigisse respeito ao observador. Existem ainda
momentos em que o tecido parece adquirir vida própria, ondulando com autonomia
quase inquietante, como se o corpo que o sustenta fosse apenas um hóspede
temporário e o verdadeiro lar estivesse na sala de estar, aquele espaço doméstico
que se tornou o destino natural e inevitável do pano, enquanto contempla,
impassível, a passagem do tempo.
É
precisamente aqui que o quadro ganha uma inflexão quase burlesca, difícil de
ignorar sem um certo esforço de contenção. A senhora vereadora, de estatura
modesta e de uma robustez que se poderia descrever, com a devida indulgência
lexical, como semi-anafada, vê-se literalmente envolvida por estes volumes
exuberantes, como se o tecido, em vez de a servir, a absorvesse. O efeito,
longe de conferir imponência, produz antes uma desproporção visual que roça o
caricatural: uma figura compacta, quase recolhida, subitamente amplificada por
metros de pano que insistem em expandir-se para além do razoável. Há momentos
em que não se percebe bem onde termina a pessoa e começa o cortinado, como se
ambos tivessem celebrado uma fusão estética de consequências imprevisíveis.
A
mesma vendedora, entre o riso e a condescendência, ofereceu uma síntese
lapidar: “Isso é reciclagem, mas da antiga. Da que ninguém pediu.” E, por
paradoxal que pareça, a observação contém uma lucidez difícil de contestar.
Todavia,
seria redutor fixarmo-nos exclusivamente na superfície do tecido, por mais
dominante que se apresente. Há, igualmente, o exercício do cargo, ou antes, a
maneira peculiar e quase íntima como esse desempenho se manifesta. Numa cidade
em que a cultura parece existir sobretudo como ideia vaga, abstração mais do
que prática, promessa mais do que concretização, a edil encontrou uma vocação
inesperada: não na gestão de eventos, não na defesa de políticas culturais, mas
na tarefa silenciosa de lidar com aquilo que se insinua, persistente e
incómodo, nos cantos do dia-a-dia. São essas “baratas” imaginárias, pequenas
evasões, assuntos esquecidos, decisões adiadas ou completamente erradas, que
infestam os espaços formais, resistentes, invisíveis, lembrando constantemente
a precariedade da autoridade que se pretende.
Segundo
se murmura, e aqui a linha entre testemunho e boato se desfaz, enquanto
projetos culturais permanecem esquecidos em gavetas onde a poeira se instala
com solenidade burocrática, há uma atividade que nunca é adiada nem maquilhada
por retórica: no recanto mais discreto do gabinete, desenrola-se, diariamente,
um combate silencioso com a inércia. A senhora vereadora, munida do instrumento
que o momento lhe oferece, um despacho, um telefonema, uma decisão que nunca
chega, fixa o alvo com a determinação de quem prefere a ilusão da ação à
responsabilidade do resultado; as “baratas”, ágeis e persistentes, avançam sem
pressa, sobrevivendo à margem de tudo, testando limites, desafiando
expectativas. E, nesse confronto, há resultados mensuráveis: aqui uma pequena
vitória simbólica, ali uma derrota inevitável, numa sequência que,
ironicamente, revela uma eficácia que nunca se traduz nas verdadeiras tarefas
do mandato, deixando à vista o contraste entre aparência e substância, entre
palco e bastidores.
Tudo
isto compõe um quadro cuja densidade simbólica se oferece à interpretação,
embora resista a uma leitura unívoca. Poder-se-ia ver aqui a imagem de uma
cidade que abdicou de grandes ambições, contentando-se com vitórias mínimas,
quase rasteiras; ou, numa chave menos indulgente, o triunfo de um certo absurdo
administrativo, onde o essencial se perde e o acessório ganha protagonismo. Mas
talvez, e esta conjectura não deva ser preterida, não se justifique carregar o
cenário com interpretações profundas; quiçá se trate apenas disto, o puro e
simples riso, a comicidade literal de uma vereadora envolta em cortinados
transfigurados, desfilando modelitos improváveis, enquanto, a escassos metros,
trava uma guerra meticulosamente paciente contra baratas obstinadas.
Importa,
contudo, regressar à questão estética, porque nela reside uma das dimensões
mais intrigantes deste fenómeno. Existe, de facto, uma linha ténue, quase
imperceptível, entre o que se veste e o que se pendura, uma fronteira onde o
tecido deixa de ser mero objeto para se tornar portador de memória. Tudo parece
apontar para a sala de estar como lugar de origem, não a sala contemporânea,
depurada, mas aquela outra, carregada de traquitanas e de tempo, onde os
cortinados desempenham uma função que ultrapassa a utilidade: filtram a luz,
sim, mas também organizam o espaço simbólico, guardam silêncios, acumulam
história. São essas bambinelas, ornamentadas, quase solenes, que parecem ter
sido convocadas para uma segunda existência, agora no espaço público.
Transformadas
ou, mais rigorosamente, deslocadas, em “modelitos última moda” (expressão que
aqui se usa com deliberada cautela), surgem em cerimónias, inaugurações,
discursos que se prolongam para além do razoável. A teatralidade que daí
resulta não é a do palco clássico, disciplinado e consciente, mas antes uma
encenação involuntária, onde o figurino assume uma primazia absoluta, relegando
o conteúdo para um plano secundário, quando não residual. Os tecidos mantêm
intacta a sua memória, percebe-se nas cores que já não pertencem ao presente,
nos padrões que evocam décadas passadas, na resistência à adaptação que a
costura tenta, sem sucesso pleno, impor. Aquilo não foi concebido para vestir;
foi pensado para pender, para permanecer, para habitar.
E,
no entanto, ali está, vestido, assumido, exibido com uma confiança que desarma
qualquer crítica imediata.
A
moda, enquanto fenómeno cultural, alimenta-se de reinvenções, de regressos, de
citações mais ou menos explícitas do passado. Mas aqui a operação parece menos
conceptual e mais literal, menos teórica e mais doméstica. Poder-se-ia, com
alguma indulgência interpretativa, falar de uma estética do reaproveitamento
emocional; ou, com maior franqueza, reconhecer o triunfo persistente do
cortinado sobre o bom senso. Ainda assim, há nesta insistência uma coerência
que não deixa de ser, de forma paradoxal, comovente: num mundo obcecado com a
novidade e a velocidade, a senhora vereadora afirma, ainda que
involuntariamente, uma forma de resistência, impondo ao presente um passado que
se recusa a desaparecer.
No
fim, permanece a interrogação: até que ponto os trastes que nos rodeiam acabam
por nos vestir, não apenas no plano material, mas também no simbólico? Talvez
mais do que estamos dispostos a admitir. Ou talvez, simplesmente, tudo isto se
resuma a uma escolha, persistente, desconcertante, ligeiramente absurda, a de
transformar os cortinados da sala, com todo o seu peso e a sua memória, em
modelitos de última moda.
Pergunta-se, entre o assombro e a incredulidade: será que esta senhora vereadora habita de facto o mundo dos vivos, ou não passa de uma miragem coletiva, concebida pelas esperanças adormecidas e pelo olhar fatigado da cidade?
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