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Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2026

O silêncio sobre Saramago

A recente controvérsia em torno de José Saramago não nasce de nenhuma descoberta literária inesperada, nem de um manuscrito perdido que viesse, de súbito, reacender o seu nome. Não, é algo bem mais terreno, quase burocrático à primeira vista. E, no entanto, curioso… porque é precisamente nesses lugares aparentemente técnicos que se decide, sem grande alarido, o que permanece e o que se esbate na memória de um povo. Nos últimos dias, começou a circular a notícia de que os livros de Saramago poderão deixar de ser obrigatórios no 12.º ano, na disciplina de Português. A reação foi imediata, quase instintiva. Houve indignação, perplexidade, alguma confusão à mistura, o habitual, talvez. Mas convém abrandar um pouco, respirar, olhar melhor: não há, para já, decisão final. Trata-se de uma proposta, ainda em consulta pública, integrada na revisão das chamadas Aprendizagens Essenciais . Ou seja, o cenário está em aberto, embora já suficientemente exposto para gerar desconforto. O que está...

Ecos de um Perdão

Esta manhã, ainda sob a luz indecisa que antecede o pleno despertar do dia, recebi, de uma amiga querida, por via digital, uma fotografia que me perturbou mais do que estaria disposto a admitir à primeira vista. Não era, em si mesma, uma imagem extraordinária; e, no entanto, carregava consigo um peso silencioso, quase filosófico, como se condensasse, num único instante, uma longa sucessão de gestos, erros, ressentimentos e destinos cruzados. Nela surgia a figura de um indivíduo que, entre os anos de 1982 e 2000, marcou negativamente o meu percurso, alguém cuja presença, à época, me trouxe prejuízos que não foram apenas circunstanciais, mas também íntimos, difíceis de nomear e ainda mais de esquecer. Há seres que parecem mover-se sob o signo da inquietação permanente, como se carregassem dentro de si uma espécie de desordem essencial. A filosofia antiga, penso, inevitavelmente, nos estoicos, ensinava que o homem perturbado não é aquele que sofre por causas externas, mas aquele que s...

Os Sertões

Euclides da Cunha (1866-1909) publica, em 1902, uma obra de singular magnitude, verdadeira epopeia da existência sertaneja: Os Sertões . Neste livro, o autor retrata, com rigor e mestria, os acontecimentos da Guerra de Canudos (1896-1897), ocorrida no interior do Estado da Bahia, compondo um painel complexo e detalhado da realidade social e humana do sertão, que se articula entre a crueza dos factos históricos e uma reflexão quase metafísica sobre o destino coletivo. Em Os Sertões , manifesta-se de forma inequívoca a visão racial prevalente na época, ao sustentar a ideia de uma “raça superior” e ao defender o embranquecimento da população brasileira, em consonância com o determinismo de Hippolyte Taine (1828-1893), segundo o qual o homem é produto da confluência entre meio ambiente, a raça e o momento histórico. Nessa perspectiva, o mestiço brasileiro é considerado inferior, conceito que se evidencia em passagens que sublinham a instabilidade e a vulnerabilidade das populações sert...

XXV Congresso Nacional do Partido Socialista

Teve, entretanto, início o XXV Congresso Nacional do Partido Socialista, tendo sido escolhido, para acolher tão relevante assembleia, o pavilhão multiusos da cidade de Viseu, espaço amplo, quase simbólico na sua abertura, ainda que, por contraste, certas realidades internas pareçam fechar-se sobre si mesmas. A proclamação, de tonalidade otimista e impregnada de uma esperança deliberada, enunciada por José Luís Carneiro, “Estamos vivos”, poderá, em alguma medida, infundir ânimo aos que permanecem fiéis ao meu PS; todavia, não se afigura suficiente para pôr termo a práticas reiteradas que, de forma insidiosa, vêm corroendo o tecido das concelhias, erguendo barreiras onde outrora existia convivência entre camaradas. Como exemplo cito: desde o final da década de noventa, o PS/Caldas tem vindo a cultivar práticas profundamente nocivas, autênticos golpes na sua própria estrutura, discretos por vezes, mas persistentes. O resultado, esse, impõe-se com uma evidência quase desconfortável. ...

Heranças em movimento

Há dias em que a palavra “cultura” me soa a moeda gasta, dessas que passam de mão em mão até perderem o relevo, o desenho, a própria identidade. E, no entanto, insiste-se, repete-se, discursa-se sobre ela com uma segurança quase irritante. Sobretudo, diga-se, por quem raramente a frequenta, ou melhor, por quem a trata como conceito abstrato, arrumado numa gaveta ao lado de “economia” ou “legislação”. Advogados, por exemplo, ou deputados de ocasião, embora aqui talvez me esteja a alongar, mas há vícios que pedem nome. O curioso é que a cultura, essa coisa inquieta e escorregadia, nunca foi matéria de definição simples. Não cabe num decreto, nem se organiza em alíneas bem comportadas. É, antes, um organismo vivo, irregular, feito de camadas, de hesitações, de heranças contraditórias. Um conjunto de saberes, crenças, práticas, sim, mas também de silêncios, de gestos quase invisíveis, de hábitos que ninguém ensina e todos repetem. Pense-se, por exemplo, na Espanha. À primeira vista, ...

Picadeiro Real

Sou o Picadeiro Real, testemunha silenciosa do tempo e do poder que se move a galope. Em 1726, D. João V (1689-1750) trouxe-me para Belém, na Quinta de Baixo, junto ao Tejo. Não era apenas um edifício; era um recanto modesto de equitação, um espaço onde a corte praticava e mostrava o domínio dos cavalos, refletindo a presença diária do rei e da sua vida entre palácios e jardins. Décadas depois, em 1786, o infante D. João (1767-1826), que se tornaria D. João VI, decidiu transformar-me. Chamou Giacomo Azzolini (1723-1791), arquiteto italiano, para erguer-me em grandeza e elegância, criando um salão de cinquenta metros por dezassete, com dois pisos e tribunas superiores ligadas por galerias colunadas, permitindo à família real assistir às demonstrações sem interromper a vida que se desenrolava abaixo. As obras começaram em 1787. Num impulso quase decidido, dir-se-ia urgente, ergui-me depressa, ganhando forma, volume, presença. Um ano bastou para que o meu corpo se afirmasse. Mas a alm...

A Filosofia e os animais

Entre os pensadores que, na contemporaneidade, se debruçaram com maior densidade e alcance sobre a ética animal, avulta, com particular nitidez, Peter Singer (1946-). A sua obra, vasta e insistente, gravita em torno da questão do estatuto moral dos seres não humanos, tema que, outrora periférico, ganhou centralidade graças, em parte, à sua intervenção teórica. Importa, todavia, situar essa figura num horizonte mais amplo, onde outras vozes, distintas no tom, divergentes no fundamento, também se fazem ouvir. Desde logo, o próprio Singer. Em 1975, deu à estampa Libertação Animal (Animal Liberation), texto que muitos, com alguma hipérbole, mas não sem razão, qualificam como a “bíblia” do moderno movimento pelos direitos dos animais. A sua posição radica no utilitarismo: não é a racionalidade, nem a linguagem, que confere relevância ética, mas antes a capacidade de sofrer e experimentar prazer, a chamada senciência. Daqui decorre uma tese incómoda, quase perturbadora: os interesses ...

Entre a memória e o afeto

Há temas que, durante muito tempo, pareceram menores — quase marginais — e que, no entanto, dizem mais sobre uma sociedade do que muitos dos seus grandes discursos públicos. A forma como lidamos com os nossos mortos é um deles. E, talvez mais discretamente, a forma como nos despedimos dos animais que nos acompanharam ao longo da vida. A existência de cemitérios para animais em todos os concelhos não é, como por vezes se supõe, um capricho sentimental de uma época excessivamente emotiva. É, antes, o reconhecimento de um vínculo que se tornou estrutural na vida contemporânea. Os animais deixaram, há muito, de ocupar apenas um lugar utilitário; tornaram-se companheiros, presença quotidiana, por vezes até — e não será exagero dizê-lo — uma forma de amparo silencioso em vidas marcadas pela solidão ou pela fragmentação das relações humanas. Negar um espaço digno para a sua despedida é, de certo modo, ignorar essa transformação. Porque o luto, mesmo quando dirigido a um animal, não é me...

A Alma de Santos

Cidade mais densamente povoada do litoral paulista, Santos apresenta-se, à primeira vista, como uma evidência quase geográfica: uma extensão contínua de cerca de sete quilómetros de praia, recortando o encontro entre a terra e o mar. Mas esse traço, que poderia ser apenas paisagem, transforma-se em signo — quase em ideia — quando se percorrem os jardins que acompanham a orla, reconhecidos como os mais extensos do seu género. Não são apenas jardins. São, de certo modo, uma tentativa de ordenar a natureza, de lhe impor uma medida humana sem a anular por completo. Há ali uma tensão discreta, mas persistente, entre o espontâneo e o cultivado, entre o que cresce por si e o que é cuidadosamente disposto. Talvez seja precisamente nesse equilíbrio — nunca totalmente resolvido — que se começa a compreender a cidade. No plano demográfico, Santos inscreve-se numa realidade que ultrapassa largamente os seus limites físicos. Com uma população que, em 2020, rondava os 433 mil habitantes, integ...

Falsidades políticas

Confesso — e não o digo sem um certo cansaço moral, quase uma fadiga da lucidez — que fico verdadeiramente pasmado quando me detenho sobre certos textos produzidos por alguns camaradas. Há, neles, uma estranha habilidade, quase uma arte refinada, de velar o passado, de suavizar — ou antes, de encobrir — a matéria menos digna dos seus próprios atos enquanto exerceram funções no seio da estrutura que agora, com voz grave e pose de tribuno, dizem querer regenerar. Não deixa de ser curioso — e, por momentos, até perturbador — observar como muitos desses mesmos autores se erguem em lições de moral, proclamando com solenidade princípios de igualdade entre pares, como se tais valores tivessem sido, em algum momento, prática viva das suas condutas. Mas não foram. E é precisamente essa dissociação entre palavra e gesto que fragiliza qualquer discurso. Como advertia Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), “entre o forte e o fraco, é a liberdade que oprime e a lei que liberta” — mas quando a lei é...

Não vi a minha mãe morta…

A frase escapou-se assim — despida, quase agreste — como sucede por vezes quando a dor antecede o pensamento e a linguagem se limita a acompanhar, com atraso, aquilo que o espírito mal consegue suportar. Ficou suspensa por um breve instante, como se o próprio silêncio, esse velho cúmplice das tragédias humanas, tivesse decidido acolhê-la com uma espécie de gravidade respeitosa. E não admira. Poucas experiências pertencem tão profundamente à condição humana — e, paradoxalmente, tão dificilmente se deixam dizer — como a morte. O meu pai e os meus tios ocultaram-me o sofrimento que a consumia, o mal que lentamente se insinuara no seu corpo. Não compreendi, então, essa decisão. Nem mais tarde souberam explicá-la. Ficou entre nós essa espécie de lacuna — discreta, mas persistente — como certas páginas rasgadas da memória familiar. “Não vi a minha mãe morta.” À primeira vista, a afirmação poderia parecer uma recusa. Uma evasão, talvez. Contudo, pensada com algum vagar, revela antes out...