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O medo da Cultura

Há um desconforto difuso quando se fala de cultura, uma espécie de retração que não se declara frontalmente, mas que se adivinha nos interstícios do discurso público, nas prioridades sucessivamente adiadas, naquele gesto quase automático de a empurrar para segundo plano, como se fosse um luxo delicado, apropriado apenas a tempos de abundância. E, no entanto, essa desvalorização não é inocente, nem meramente circunstancial. Revela, antes, uma tensão mais funda, enraizada na forma como as sociedades se organizam, distribuem poder e constroem sentido. A cultura, quando não é reduzida a ornamento, introduz complexidade, e a complexidade, convenhamos, raramente é bem-vinda em contextos que privilegiam a eficiência imediata e a estabilidade aparente.

Desde logo, importa reconhecer que a cultura, entendida em sentido amplo, não se limita à produção artística ou à fruição estética. Ela constitui um campo simbólico onde se disputam narrativas, onde se sedimentam identidades e, sobretudo, onde se questionam as estruturas que parecem naturais. É precisamente aqui que a reflexão filosófica encontra a análise sociológica, aquilo que Sócrates (470 a. C.-399 a. C.) inaugurou como exercício individual, o exame crítico da vida, transforma-se, em contexto social, numa prática potencialmente desestabilizadora. Uma comunidade que pensa, que interroga os seus pressupostos, que revisita os seus valores, deixa de ser inteiramente calculável. E essa imprevisibilidade, ainda que fecunda, gera desconforto.

Se avançarmos um pouco mais, percebemos que o receio da cultura está também ligado à sua capacidade de desnaturalizar o que parece evidente. Michel Foucault (1926-1984) mostrou, com uma lucidez quase cirúrgica, que aquilo que tomamos por “verdade” é frequentemente o resultado de construções históricas, atravessadas por relações de poder. A cultura, nesse sentido, não é neutra, nunca foi. Ao produzir discursos, ao legitimar certas formas de ver o mundo em detrimento de outras, participa ativamente na configuração do tecido social. Investir em cultura é, portanto, abrir espaço a novas vozes, a novas interpretações, a possíveis reconfigurações de hierarquias. Ora, essa redistribuição simbólica, subtil, mas efetiva, pode ser sentida como ameaça por estruturas que assentam na estabilidade das suas posições.

Há também uma dimensão económica que, curiosamente, não dissipa o problema, antes o torna mais paradoxal. Sabe-se hoje que o setor cultural representa cerca de 3,39% do PIB mundial e mais de 3,5% do emprego global. Estes números, que deveriam bastar para afastar qualquer ideia de marginalidade, coexistem, no entanto, com uma persistente desvalorização política e social. Como explicar esta contradição? Talvez porque o valor da cultura não se esgota na sua dimensão produtiva. Ela não é apenas geradora de riqueza, é também produtora de sentido, e o sentido, ao contrário dos bens materiais, não se controla com a mesma facilidade. Introduz ambiguidade, convoca interpretação, exige tempo. Num contexto dominado pela lógica da rapidez e da quantificação, essa resistência à simplificação torna-se, de certo modo, incómoda.

Por outro lado, a cultura desempenha um papel decisivo na formação do pensamento crítico, esse elemento tantas vezes invocado, mas nem sempre verdadeiramente desejado. Hannah Arendt (1906-1975) sublinhava que pensar não é apenas um exercício intelectual, mas uma forma de responsabilidade perante o mundo comum. Ora, uma sociedade que investe seriamente na cultura está, inevitavelmente, a fomentar essa capacidade de pensar, de suspender juízos, de questionar normas, de imaginar alternativas. E aqui reside uma tensão inevitável: o pensamento crítico não se limita a aperfeiçoar o sistema, pode, em certos momentos, colocá-lo em causa. Não admira, portanto, que exista uma tendência, ainda que não explicitada, para conter ou suavizar esse potencial.

A isto junta-se uma outra camada, talvez mais subtil, mas não menos relevante. A cultura, ao trabalhar no tempo longo, entra em choque com a temporalidade dominante das sociedades contemporâneas, marcadas pela urgência, pela instantaneidade, pela necessidade de resultados visíveis e imediatos. Investir em cultura implica aceitar um certo grau de incerteza, uma aposta cujo retorno não é linear nem rapidamente mensurável. Exige visão, continuidade, persistência, qualidades que nem sempre encontram eco em contextos políticos e económicos orientados para o curto prazo. E assim, quase sem darmos por isso, aquilo que exige tempo acaba por ser sistematicamente adiado.

No fundo, o medo da cultura não resulta de um único fator, mas de uma confluência de tensões: entre estabilidade e mudança, entre controlo e abertura, entre imediatismo e duração. Talvez não seja a cultura em si que assusta, mas aquilo que ela torna possível, uma sociedade mais consciente de si, mais crítica, mais difícil de conduzir por automatismos. E isso, reconheçamos, implica um grau de exigência que nem sempre estamos dispostos a assumir.

Mas talvez seja necessário dar ainda um passo atrás, ou, quem sabe, para o lado, e perguntar, com alguma paciência: afinal, o que é a cultura? Não em sentido decorativo, não enquanto catálogo de obras ou agenda de eventos, mas na sua estrutura mais íntima. Cultura é, antes de mais, o conjunto de formas através das quais uma sociedade se interpreta a si própria. É linguagem, é memória, é gesto repetido e também ruptura inesperada. É o que permanece e o que se transforma. Poder-se-ia dizer, com algum risco de simplificação, que cultura é aquilo que permite ao humano não se limitar a existir, mas compreender-se enquanto existente.

Ora, esta definição, que parece quase abstrata, tem consequências muito concretas. Porque uma sociedade que controla, empobrece ou negligencia a sua cultura está, no fundo, a limitar os instrumentos com que se pensa. E pensar, como já se percebeu, nunca é um ato neutro.

Se recuarmos à Belle Époque, encontramos um momento particularmente revelador desta tensão. À superfície, tratou-se de uma época de otimismo, progresso técnico, florescimento artístico, confiança quase ingénua na ideia de civilização. As cidades iluminavam-se, os cafés fervilhavam de discussão, as artes multiplicavam-se em direções inesperadas. Havia, por assim dizer, uma crença no poder transformador da cultura, não como acessório, mas como motor.

E, no entanto, e aqui a história introduz a sua ironia, esse mesmo período transportava em si as sementes da ruptura. Por baixo da elegância e do refinamento, acumulavam-se tensões sociais, desigualdades profundas, conflitos latentes que viriam a explodir pouco depois. A cultura, longe de ser apenas celebração, funcionava também como espelho dessas contradições. Os movimentos artísticos da época, do simbolismo às vanguardas emergentes, não eram apenas estéticos, eram tentativas de compreender um mundo em rápida transformação.

Talvez resida aqui, então, uma pista importante.

A cultura, quando é levada a sério, nunca se limita a confirmar o presente, ela antecipa, questiona e, por vezes, denuncia. E isso implica lidar com aquilo que ainda não está resolvido. Na Belle Époque, essa tensão era visível, uma confiança no progresso que coexistia com uma inquietação difusa, quase subterrânea. Hoje, de forma diferente, talvez sintamos algo semelhante.

Há, portanto, uma dimensão quase paradoxal, quanto mais uma sociedade investe em cultura, mais se expõe à complexidade de si própria. E essa exposição nem sempre é confortável. Revela fraturas, obriga a rever narrativas, desmonta ilusões de linearidade histórica. Mas é também aí que reside a sua força.

Ignorar a cultura, ou reduzi-la a um papel marginal, pode oferecer uma sensação temporária de estabilidade, uma espécie de silêncio organizado. Mas é um mutismo frágil. Porque aquilo que não é pensado não desaparece, apenas se acumula.

No fim, talvez o medo da cultura seja, em última análise, o medo da lucidez. E esta, como se sabe, nunca foi inteiramente tranquila.

Se quisermos pensar a relação entre cultura e correntes políticas mais radicalizadas, incluindo setores da extrema-direita, talvez seja mais rigoroso começar por outra via, a de observar padrões históricos e comportamentos recorrentes.

Ao longo do século XX, há exemplos claros de regimes associados à extrema-direita que exerceram uma forte pressão sobre a produção cultural. Não por acaso. A cultura, como vimos antes, não é apenas expressão, é também questionamento, ambiguidade, liberdade interpretativa. E isso entra frequentemente em choque com projetos ideológicos que procuram homogeneidade, controlo e afirmação de uma identidade única.

Nestes contextos, surgem tendências reconhecíveis: censura, instrumentalização da arte, rejeição de formas consideradas “degeneradas” ou “desviantes”, tentativa de impor uma narrativa oficial. A cultura deixa de ser espaço de pluralidade para se tornar veículo de legitimação.

Mas, e isto é importante, esse impulso de controlo não é exclusivo de uma única corrente política. Outras formas de poder, em diferentes momentos históricos, também procuraram domesticar a criação cultural quando esta se tornava incómoda. A relação entre poder e cultura é, por natureza, tensa. Sempre foi.

Dito isto, há um traço que muitos analistas identificam em movimentos de extrema-direita, uma tendência para valorizar tradição de forma rígida, frequentemente acompanhada por desconfiança face à inovação cultural, à diversidade estética ou à crítica social. A cultura é então vista menos como espaço de experimentação e mais como instrumento de preservação identitária, o que, em certos casos, pode limitar a sua vitalidade. Mas será correto dizer que é “a maior força destruidora da cultura”? Francamente, não dessa forma linear.

A cultura é mais resistente do que isso. Sobrevive a regimes, adapta-se, infiltra-se, reaparece, às vezes nas margens, às vezes no centro. E, curiosamente, até sob contextos de repressão, muitas das obras mais intensas nasceram precisamente desse confronto. Talvez a questão mais interessante não seja apontar um único “inimigo”, mas compreender algo mais inquietante: a cultura torna-se vulnerável sempre que o pensamento crítico é visto como ameaça, venha essa pressão de onde vier. E aqui voltamos ao essencial.

Uma sociedade que valoriza a cultura, em todas as suas frentes, não o faz por ornamento, mas por necessidade. Porque sabe, ainda que nem sempre o diga, que é nesse espaço que se aprende a discordar, a interpretar, a imaginar alternativas. E isso nunca é totalmente confortável para nenhum poder estabelecido.

 

Bibliografia consultada

·        Arendt, Hannah. A Condição Humana. Lisboa Relógio d’Água, 2026.

·        Foucault, Michel. Vigiar e Punir: nascimento na Prisão. Lisboa, Edições 70, Biblioteca de Teoria Política, 2023.

·        Foucault, Michel. A arqueologia do saber. Lisboa, Edições 70, 2014.

·        Hobsbawm, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

·        Hobsbawm, Eric J. A Era dos Impérios: 1875-1914. São Paulo, Paz & Terra, 2025.

·        Nietzsche, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Alfragide, Ediclube.

 

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