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A prosa desabitada

Passei os olhos, há pouco, por um jornal regional, um semanário muito conhecido no Oeste português, presença habitual nas bancas e nas rotinas de leitura de tantas casas, e confesso, fiquei com uma espécie de melancolia difícil de nomear, quase um desconforto íntimo, desses que não fazem ruído mas permanecem. Não era apenas o conteúdo, nem sequer a habitual linearidade argumentativa que, de vez em quando, se encontra nos textos de opinião. Era outra coisa. Uma ausência, talvez. Ou, mais exatamente, uma presença demasiado regular.

Poderia referir-me a diversas passagens de todo o periódico, contudo, ficarei apenas por um artigo, alinhado com uma correção quase irrepreensível. Este exibe uma fluidez contínua, uma uniformidade de tom que, à primeira vista, pode ser confundida com maturidade estilística (mas seguramente não é). Há ali uma espécie de superfície polida em excesso, como uma pedra trabalhada até perder as suas pequenas irregularidades, aquelas que, curiosamente, lhe dão caráter.

Para minha surpresa, também em algumas peças assinadas por jornalistas da casa surge esse mesmo desenho uniforme, essa limpidez contínua. Curioso, ou talvez apenas revelador, sobretudo quando se recorda que certas vozes, até há pouco tempo, apresentavam um outro tipo de textura, mais irregular, com pequenas falhas ortográficas, deslizes evidentes, imperfeições que se reconheciam quase de imediato. Agora, porém, esses novos produtos, que a princípio levam a referência autoral, surgem redondamente certos, sem arestas, como se tivessem sido cuidadosamente envernizados.

Ora, pouco importa aqui a origem exata das palavras, ou o modo como foram compostas. O que se torna mais visível, ou mais sensível, talvez, é a forma como o texto se apresenta ao leitor. Porque, por exemplo, a escrita de opinião, quando respira, não se limita a expor ideias, insinua desvios, acolhe hesitações, deixa algum espaço para pequenas inflexões que não obedecem inteiramente a um plano prévio.

Há, na tradição jornalística portuguesa, mesmo na mais modesta imprensa local, uma herança feita de vozes distintas, por vezes irregulares, por vezes surpreendentes. Durante décadas, esses espaços acolheram textos que não escondiam o seu ritmo próprio, a sua cadência singular, quase como se cada frase carregasse consigo a presença de quem a escreveu. E ler assim, com essa leve irregularidade, tem qualquer coisa de vivo. Talvez por isso, quando se regressa a esse género de escrita, ainda que de modo episódico, se insinua uma alegria contida. Há pausas que não parecem impostas, inflexões que se desviam sem esforço, e, nesse jogo subtil de avanços e suspensões, instala-se uma proximidade de difícil nomeação.

Não se trata, pois, de contrapor modelos, nem de instituir hierarquias estanques. A escrita, à semelhança de tantas outras práticas humanas, tem conhecido sucessivas metamorfoses, ajustando-se aos meios de que dispõe e às circunstâncias que a convocam. E, todavia, persiste algo, uma vibração quase imperceptível, que se deixa reconhecer sempre que ocorre.

Talvez seja isso, em última instância, o que verdadeiramente subsiste. Essa impressão delicada, quase elusiva, de que o texto não se circunscreve ao ato de ser lido, mas se deixa arrastar, ainda que por instantes fugazes, no próprio fluxo do pensamento em formação.

E, quando se oferece a oportunidade de um encontro presencial com alguns dos autores que hoje recorrem a tal expediente, bastam, por vezes, as primeiras palavras, dez, talvez menos, para que se torne imediatamente perceptível uma dissonância subtil, porém inequívoca: aquilo que outrora se diria nascido da pena não coincide, afinal, com o que brota da oralidade espontânea. E, nesse desfasamento, revela-se uma clivagem quase tangível, impossível de ignorar, como se as palavras tivessem perdido parte do seu pulso vital no percurso até ao papel.

E, talvez, importe ainda acrescentar isto, sem solenidade excessiva, mas com alguma clareza: a boa escrita não surge por geração espontânea, nem se improvisa ao sabor da urgência. Exige tempo, maturação lenta, esse labor quase invisível que se vai sedimentando através da leitura contínua, exigente, variada. É aí, nesse convívio prolongado com diferentes vozes, que o vocabulário se expande, ganha densidade, escapa ao previsível. Sem esse lastro, corre-se o risco de resvalar para o lugar-comum, para fórmulas gastas que dizem sem verdadeiramente dizer. Escrever bem, no fundo, é também saber ouvir o que já foi dito e, a partir daí, tentar, com alguma hesitação talvez, dizer de outro modo.

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