Confesso
— e não o digo sem um certo cansaço moral, quase uma fadiga da lucidez — que
fico verdadeiramente pasmado quando me detenho sobre certos textos produzidos
por alguns camaradas. Há, neles, uma estranha habilidade, quase uma arte
refinada, de velar o passado, de suavizar — ou antes, de encobrir — a matéria menos
digna dos seus próprios atos enquanto exerceram funções no seio da estrutura
que agora, com voz grave e pose de tribuno, dizem querer regenerar.
Não
deixa de ser curioso — e, por momentos, até perturbador — observar como muitos
desses mesmos autores se erguem em lições de moral, proclamando com solenidade
princípios de igualdade entre pares, como se tais valores tivessem sido, em
algum momento, prática viva das suas condutas. Mas não foram. E é precisamente
essa dissociação entre palavra e gesto que fragiliza qualquer discurso. Como
advertia Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), “entre o forte e o fraco, é a
liberdade que oprime e a lei que liberta” — mas quando a lei é apenas invocada
e não vivida, torna-se um ornamento retórico, vazio de substância.
Na
verdade, o que se entrevê — ainda que disfarçado por construções eloquentes — é
a persistência de uma lógica antiga, quase hobbesiana, onde o avanço individual
se faz à custa do outro, numa competição silenciosa, mas implacável. Thomas
Hobbes (1588-1679) lembrava que “o homem é o lobo do homem” (homo homini lupus), e há momentos em que
a observação desses comportamentos parece dar-lhe uma razão desconfortável. Sob
o pretexto de ascensão — legítima, dir-se-ia, se não fosse o modo — pisam-se,
contornam-se e, por vezes, iludem-se precisamente aqueles que deveriam ser
protegidos e defendidos.
A
palavra Democracia — tão frequentemente evocada — surge, assim, esvaziada da
sua densidade histórica e ética. Reduz-se a um signo, a um som articulado que
pouco ou nada tem que ver com a sua exigência intrínseca. Recordo, a propósito,
Alexis de Tocqueville (1805-1859), quando alertava que “o maior perigo das
democracias não está no excesso de liberdade, mas na sua erosão silenciosa” — e
talvez seja exatamente essa erosão que aqui se pressente, discreta, mas
persistente.
Depois
— inevitavelmente — vem a perplexidade encenada perante o crescimento de forças
políticas mais radicais, como se tal fenómeno surgisse do nada, desligado das
práticas e incoerências acumuladas ao longo do tempo. Há, nesta surpresa, algo
de profundamente ingénuo… ou, quem sabe, de convenientemente amnésico. Hannah
Arendt (1906-1975) escrevia que “a mentira organizada tende a destruir não
apenas a verdade, mas o próprio sentido da realidade”, e talvez seja esse o
ponto: quando o discurso se afasta demasiado da experiência vivida, abre-se
espaço para outras narrativas, por mais inquietantes que sejam.
No
fundo — e custa admiti-lo, embora não surpreenda — parece que, para alguns, o
horizonte se reduz ao próprio umbigo. Uma visão estreita, autorreferencial,
onde o coletivo é apenas um instrumento e nunca um fim. Divide-se,
fragmenta-se, alimenta-se a desconfiança — porque, como já ensinavam
estratégias antigas, dividir é governar. Ou, dito de outro modo, governar sem
verdadeiramente servir.
E
fica — pelo menos em mim, e não sem uma certa relutância em dizê-lo tão cruamente
— uma interrogação persistente, quase um incómodo que regressa, teimoso: até
que ponto se pode continuar a invocar valores que nunca se praticaram sem que,
mais cedo ou mais tarde, o próprio discurso acabe por ceder, por colapsar sob o
peso da sua própria inconsistência?
No
caso concreto da minha concelhia — e custa admiti-lo assim, de frente, sem
adornos — a resposta parece ter vindo sendo dada ao longo de décadas, de forma
lenta, quase silenciosa, mas inexorável. Desde finais dos anos 90, aquilo que
poderia ter sido um percurso de consolidação transformou-se, pouco a pouco,
numa sucessão de escolhas que, sendo branda a expressão, dificilmente se podem
considerar inspiradas. Candidaturas sem densidade, sem visão, desprovidas de
chama — sensaboronas, sim, no sentido mais pleno da palavra — foram sendo
apresentadas como inevitáveis, como se a mediocridade tivesse passado a ser
critério suficiente.
E
por detrás dessa repetição — que já não surpreende, mas ainda assim desilude —
insinua-se um propósito menor, quase doméstico: o de “encher a pança”,
expressão rude, é certo, mas talvez a mais honesta para descrever uma lógica de
proveito próprio que se sobrepôs, sem grande disfarce, à ideia de serviço
público. Não se trata apenas de falhanços eleitorais; é algo mais fundo, mais
estrutural, uma erosão contínua de credibilidade que foi afastando, pouco a
pouco, aqueles que ainda acreditavam.
Descalabro
após descalabro — e aqui a repetição não é mero efeito estilístico, mas
constatação amarga — o partido foi perdendo chão, relevância, voz. Até que
hoje, olhando em redor, o que se vê é quase uma sombra do que poderia ter sido:
uma presença residual, à beira da extinção no concelho a que pertence. E há
nisto qualquer coisa de trágico, não no sentido grandioso, mas naquele mais
discreto, quase banal — o daquilo que se perde não por inevitabilidade, mas por
uma longa sucessão de pequenas escolhas erradas, persistentes, tecidas ao longo
do tempo como quem, sem dar por isso, vai desfazendo o próprio tecido que o sustém.

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