A
frase escapou-se assim — despida, quase agreste — como sucede por vezes quando
a dor antecede o pensamento e a linguagem se limita a acompanhar, com atraso,
aquilo que o espírito mal consegue suportar. Ficou suspensa por um breve
instante, como se o próprio silêncio, esse velho cúmplice das tragédias
humanas, tivesse decidido acolhê-la com uma espécie de gravidade respeitosa. E
não admira. Poucas experiências pertencem tão profundamente à condição humana —
e, paradoxalmente, tão dificilmente se deixam dizer — como a morte.
O
meu pai e os meus tios ocultaram-me o sofrimento que a consumia, o mal que
lentamente se insinuara no seu corpo. Não compreendi, então, essa decisão. Nem
mais tarde souberam explicá-la. Ficou entre nós essa espécie de lacuna —
discreta, mas persistente — como certas páginas rasgadas da memória familiar.
“Não
vi a minha mãe morta.” À primeira vista, a afirmação poderia parecer uma
recusa. Uma evasão, talvez. Contudo, pensada com algum vagar, revela antes
outra natureza: um limite interior, quase instintivo, que o espírito ergue
diante do insuportável. A filosofia, que ao longo de séculos procurou sondar o
enigma do fim, nunca ofereceu respostas definitivas; apenas aproximações
sucessivas, formulações provisórias — lampejos breves lançados sobre um mistério
cuja profundidade permanece intacta.
Entre
os antigos gregos, por exemplo, encontramos uma serenidade que hoje nos
surpreende. Epicurus (341 a.C. – 270 a.C.) sustentava que a morte,
rigorosamente falando, não deveria inquietar-nos. O argumento, de uma limpidez
quase geométrica, é conhecido: enquanto existimos, ela não se encontra
presente; quando finalmente chega, já não estamos aqui para experimentá-la.
Temer aquilo que nunca poderemos sentir seria, portanto, um equívoco do
entendimento. Uma arquitetura intelectual admirável — embora a vida concreta,
convém reconhecê-lo, raramente se submeta a raciocínios tão harmoniosos.
Muitos
séculos depois, Martin Heidegger (1889-1976) abordaria a mesma questão sob um
prisma bem mais inquietante. Para o pensador alemão, o ser humano vive permanentemente
sob o horizonte da própria finitude; somos, na sua expressão célebre, seres-para-a-morte. Não se trata de um
convite à morbidez, mas da consciência de que o fim confere densidade à
existência. Saber que a vida é limitada — que cada instante é, de certo modo,
irrepetível — introduz nas escolhas humanas uma gravidade singular, quase
ontológica.
Todavia,
tudo isto — tratados, sistemas conceptuais, especulações metafísicas — parece
perder consistência quando a morte atravessa o limiar da nossa própria casa.
Há
um abismo entre pensar o fim e experimentá-lo. Entre discorrer sobre a
mortalidade e confrontar o vazio deixado por quem participou na própria origem
da nossa história. A mãe pertence a esse território inaugural da vida: primeira
voz, primeiro abrigo, primeira expressão do cuidado. Não é apenas uma presença
— é uma fonte. A minha fonte.
Talvez
por isso o olhar se retraia. Talvez por isso as lágrimas, ao descerem
lentamente, cavem no rosto sulcos que lembram pequenas crateras de silêncio.
Não
se trata propriamente de negar o acontecimento; a razão conhece os factos. O
que o coração procura preservar é outra coisa — uma continuidade secreta de
imagens vivas. A memória possui, por assim dizer, a sua própria ética: prefere
conservar gestos banais, modulações da voz, hábitos domésticos aparentemente
insignificantes, mas que compõem o tecido invisível da intimidade.
Existe
ainda uma dimensão mais antiga, quase antropológica. Durante séculos, a cultura
europeia rodeou a morte de rituais cuja função era precisamente amortecer o
choque da perda. O velório, a chama discreta das velas, as orações murmuradas
em tom baixo — tudo isso instituía um intervalo simbólico entre o cessar da
vida e o início da lembrança. Como se a comunidade, consciente da fragilidade humana,
erguesse uma espécie de ponte entre o mundo dos vivos e o domínio da memória.
Talvez
por isso alguns escolham não ver.
Não
por fraqueza — julgamento demasiado apressado — mas por fidelidade a uma imagem
interior que desejam preservar intacta. Nem sempre o último retrato precisa de
ser o mais cruel.
E,
no entanto, permanece em mim uma convicção inquieta: eu possuía o direito de
ver a minha mãe morta.
Talvez
porque o olhar, por doloroso que seja, também participa do ato de despedida.
No
fundo, quando alguém murmura — quase como quem se justifica diante da própria
consciência — “não vi a minha mãe morta…”, talvez esteja apenas a confessar uma
verdade silenciosa: que a memória, essa guardiã caprichosa da nossa história
íntima, prefere deter-se noutro lugar.
Num
instante anterior.
Num
tempo remoto — e, no entanto, sempre presente — em que a vida ainda respirava
dentro da casa.

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