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Publicado em sueco, lido na Escandinávia


Quando se fala do Prémio Nobel da Literatura, há um detalhe que quase ninguém fora do meio literário conhece, mas que, na prática, tem enorme peso. Para que um escritor entre verdadeiramente no radar da Academia Sueca, responsável pelo Nobel, é quase essencial que uma grande parte da sua obra literária esteja traduzida para sueco. Não é uma regra formal, dessas que se encontram num regulamento; é, antes, uma realidade pragmática: os académicos precisam de ler, reler, discutir, voltar a ler… e fazê-lo na própria língua torna tudo muito mais fácil.

Por isso, quando um autor começa a ser publicado em sueco, diz-se — sempre com alguma prudência — que passou a existir uma pequena porta aberta. Uma possibilidade de que o seu nome circule mais intensamente no mundo literário da Escandinávia. Não quer dizer, claro, que o Nobel esteja à espera no fim do corredor; longe disso. Mas a porta abre-se, e isso já é alguma coisa.

É aqui que entra António Lobo Antunes. O romancista português, autor de uma obra vasta — mais de trinta romances, sem falar nas crónicas e outros registos literários — foi traduzido e publicado na Suécia. Só isso já é revelador: a sua escrita, intensa e complexa, despertou atenção para além das fronteiras lusas. Entre as editoras que se dedicaram a este trabalho destaca-se a Modernista, que tem vindo a trazer várias das suas obras para leitores suecos, permitindo que o público do Norte da Europa se debruce sobre um universo literário que, de outro modo, seria quase inacessível.

Entre os títulos publicados em sueco encontramos Fado Alexandrino (2021), Tingens naturliga ordning (A Ordem Natural das Coisas), Carlos Gardels död (A Morte de Carlos Gardel), Betraktelse över själens passioner (Tratado das Paixões da Alma) e De förrådda, que corresponde ao célebre Os Cus de Judas. Estes romances atravessam os temas centrais da escrita de Lobo Antunes: memórias fragmentadas, cicatrizes da guerra colonial, labirintos familiares e a lenta erosão das ilusões humanas. Não são histórias fáceis; pedem atenção, paciência, uma entrega quase física à leitura.

Grande parte dessas traduções deve-se ao trabalho de Marianne Eyre, tradutora que se tem dedicado à literatura portuguesa na Escandinávia. E não é por acaso. Traduzir António Lobo Antunes não é uma tarefa simples. As suas frases longas, o fluxo de memórias que se entrecruzam, o ritmo quase musical da narrativa — tudo exige sensibilidade, não apenas técnica. Quem já tentou ler Lobo Antunes noutro idioma percebe que se trata de quase «ouvir» o pensamento do autor a formar-se diante do leitor.

O facto de estar publicado em sueco trouxe, inevitavelmente, alguns rumores, especulações e até alguma esperança de que o autor pudesse vir a conquistar o Prémio Nobel da Literatura. O seu nome surgiu em previsões, listas informais, conversas discretas que reaparecem todos os anos, à medida que se aproxima o anúncio do prémio. Mas o que se esperava nunca aconteceu. Apesar de traduzido para sueco e para muitas outras línguas, apesar do prestígio internacional e da admiração que desperta entre leitores e críticos, António Lobo Antunes, como se sabe, não venceu o Nobel.

Há, porém, algo de curioso — e até poético — nisso. A literatura, tal como a vida, raramente segue uma lógica justa ou previsível. Estar traduzido em sueco é, sem dúvida, uma condição importante para chamar a atenção da Academia; mas não garante reconhecimento final. No caso de Lobo Antunes, permanece a obra imensa, a influência silenciosa, os livros que continuarão a marcar gerações de leitores. E é disso que um escritor verdadeiramente necessita: ser lido.

Há autores que acumulam prémios; outros, mais silenciosos, deixam livros que continuam a inquietar e a fascinar leitores décadas depois. Talvez seja essa persistência, essa capacidade de atravessar tempo e fronteiras, que verdadeiramente permanece.

A presença de Lobo Antunes no espaço editorial sueco não é episódica; é consistente, fruto de um interesse profundo pela sua obra. No catálogo da Modernista figuram vários dos seus romances mais emblemáticos, permitindo que leitores suecos se aproximem de uma escrita densamente introspectiva, marcada pelo entrelaçar de memórias e vozes, e pelo olhar crítico sobre a história portuguesa contemporânea.

Entre estes títulos, destacam-se De förrådda (Os Cus de Judas), publicado originalmente em 1979 e profundamente marcado pela experiência do autor na guerra colonial em Angola; Betraktelse över själens passioner (Tratado das Paixões da Alma), Tingens naturliga ordning (A Ordem Natural das Coisas) e Carlos Gardels död (A Morte de Carlos Gardel), frequentemente associados à narrativa lisboeta de Benfica; e ainda Fado Alexandrino, romance coral que acompanha quatro antigos combatentes da guerra colonial numa noite longa de reencontro em Lisboa.

A tradução e publicação destes livros revelam algo essencial: a literatura portuguesa, mesmo a mais exigente, consegue atravessar fronteiras linguísticas e culturais, tocar leitores em geografias inesperadas e permanecer viva ao longo do tempo. Lobo Antunes, mesmo sem Nobel, mostra isso com clareza: uma escrita que se impõe pela força, pela densidade e pela humanidade que transporta.

Vai fazer falta!

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