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Entre Figurinos e República

Confesso-me perplexo! Há, nisto tudo, qualquer coisa de estranhamente obsessiva. Como se um momento de evidente peso institucional — a tomada de posse de uma nação — fosse, de súbito, reduzido a quase nada, comprimido até ao mínimo valor político, apenas porque alguém decide deter-se no traje exibido pela esposa do Presidente da República eleito. Que curiosa inversão de prioridades, diga-se de passagem. É como se, na superfície do efémero, se procurasse substituir o exame do essencial. A questão fulcral não reside em sedas, rendas ou cortes de alfaiataria, mas sim na honra, na integridade e na capacidade de quem ocupa o mais alto cargo da República — valores que permanecem intocados pelo que o olhar elementar julga digno de nota.

Vivemos, paradoxalmente, numa era de aparências, onde o trivial se inflama em debates públicos e a reflexão sobre o essencial se dilui em comentários fugazes. O regime é parlamentarista, sim, mas a presença de um chefe de Estado honrado constitui o eixo necessário para o equilíbrio institucional e a confiança na vida cívica. A indumentária de uma senhora, ainda que sob os holofotes da cerimónia inaugural, é, em última análise, um domínio privado, pertencente apenas à sua esfera pessoal, à sua autonomia, e que não deveria servir de arena para debates públicos que confundem estilo com substância.

Se os politólogos de internet tivessem verdadeira preocupação com o país, não se perderiam em trivialidades, mas voltariam o seu olhar para as fissuras da sociedade, para os caminhos da administração local, para as necessidades concretas das freguesias que conhecem de perto. É no calor da experiência comunitária, no contato direto com os cidadãos, na compreensão dos problemas quotidianos que se poderá, de facto, iniciar a transformação de dentro para fora. Só assim o debate político recupera a sua dignidade e se afasta da balofice que tantas vezes contamina a opinião pública.

A verdade — e, no fundo, ela não é particularmente complexa — apresenta-se com uma limpidez quase desarmante: enquanto permanecermos cativos da aparência, detidos na superfície das coisas, a substância continuará a escapar-nos. A vida cívica, a probidade ética, o sentido de responsabilidade na esfera pública — tudo isso se esvai, discretamente, sempre que o olhar coletivo se deixa distrair por ninharias. E é precisamente aí, muito mais do que em qualquer figurino ou adorno circunstancial, que se encontra o autêntico desafio da cidadania.

Seria, aliás, bem mais proveitoso dirigir a atenção para aquilo que verdadeiramente molda o dia-a-dia de uma comunidade. Pense-se, por exemplo, no desempenho do vereador da Educação e da Cultura que acabaram por eleger — ainda que por esse curioso mecanismo político a que, não raras vezes, se chama “efeito dominó”. Bastará observar, com alguma atenção e ao longo de um mandato inteiro, o exercício efetivo do cargo para se compreender — não sem certo desalento — que quatro anos de governação podem, por vezes, equivaler a um recuo de décadas no que toca à qualidade da oferta cultural e educativa que um concelho deveria assegurar aos seus habitantes.

Conheço, de resto, um exemplo eloquente de semelhante realidade; poderia evocá-lo aqui, com nomes e circunstâncias. Mas, para ser franco, já me falta a paciência para me deter nessa figura — personagem algo insípida do tabuleiro político local, dessas que se movem com uma mediocridade resignada enquanto o concelho, silenciosamente, vai definhando dia após dia.

Quanto ao assunto principal — o tal figurino, tantas vezes elevado a tema de debate público — convém recordar o óbvio, ainda que por vezes pareça esquecido: a indumentária pertence apenas a quem a usa. É matéria do foro estritamente pessoal, quase doméstico. E, convenhamos, dificilmente constitui assunto de verdadeira relevância para a vida da res publica.

 

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