Quando
releio Ortega y Gasset (1883-1955) e a sua frase “Eu sou eu e minha
circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim”, sinto uma espécie
de sacudidela. É como se alguém me agarrasse pelo braço e dissesse: acorda,
olha à tua volta, não te escondas. É incrível como, em poucas palavras, ele
consegue colocar diante de nós toda a complexidade da existência. O “eu” nunca
está sozinho; vive entrelaçado com tudo o que o rodeia — pessoas, lugares,
acontecimentos. Separar-nos do mundo seria negar a nós mesmos, como cortar uma
raiz que ainda pulsa sob a terra.
E
a segunda parte da frase, “se não a salvo a ela, não me salvo a mim”, pesa
ainda mais. Não basta fingir que tudo se resolve sozinho, não basta esperar que
o mundo se ajeite sem a nossa intervenção. Cada gesto de cuidado, cada atenção
a uma injustiça, cada esforço por melhorar algo — mesmo que mínimo — é também
um ato de autossalvação. É curioso como esta lição, tão simples e direta, ecoa
o que Heidegger (1889-1976) disse sobre a nossa inserção no planeta: não
vivemos isolados, estamos sempre “no mundo”, ligados às coisas, às pessoas, às
circunstâncias que nos moldam. Sartre (1905-1980) acrescentaria que a liberdade
vem acompanhada de responsabilidade: cada decisão altera não só a nossa vida,
mas a de todos à nossa volta. E Lévinas (1906-1995) lembraria que a ética nasce
do olhar pelo outro, da escuta e do cuidado com o próximo. Ortega não escreve
de forma moralista, mas diz exatamente isso: para existir plenamente, é preciso
cuidar do mundo que nos envolve.
Agora,
se olharmos para a política, tudo isto ganha uma sombra ainda mais clara.
Políticos que fecham os olhos às necessidades do povo, (ou pior, que manipulam
o que os rodeia para benefício próprio) — são a negação viva da filosofia de
Ortega. São como navegadores que ignoram o mapa e depois se queixam da
tempestade. Quando a liderança deixa de proteger, de cuidar, de ouvir, não está
apenas a falhar com a sociedade; está a falhar consigo própria, a negar-se como
“eu” dentro da circunstância que é o país. Cada ato de corrupção, cada
indiferença perante a pobreza, cada decisão egoísta, cria fissuras profundas: a
sociedade começa a tremer, a confiança desaparece, a esperança murcha.
Ortega
y Gasset fala de uma vida cheia de desafios, mas também de oportunidades para
estar presente. A vida só se torna significativa quando estamos despertos,
atentos, sem nos deixarmos adormecer pelo conformismo. Aplicando isto à
política, percebemos que os líderes de verdade são aqueles que olham para os
cidadãos com atenção desperta, prontos para intervir, corrigir erros, suavizar
injustiças. E mesmo pequenas ações, gestos discretos de cuidado, podem
transformar realidades inteiras.
A
beleza desta filosofia está na sua simplicidade e na sua dureza. Viver desperto
é difícil. Estar consciente do mundo que nos envolve é um esforço constante, e
muitas vezes doloroso. Mas só assim podemos salvar o “eu” e a circunstância.
Políticos que compreendem isto, que atuam com responsabilidade e empatia,
tornam possível que o mundo se salve, e que nós nos salvemos com ele. Políticos
que ignoram, que manipulam, (ou que se isolam), transformam oportunidades em
desastres e o potencial de vida plena em mera sobrevivência.
No fim, Ortega não oferece fórmulas mágicas, apenas uma convocatória permanente: olha, age, cuida. Porque a nossa salvação nunca está separada do mundo à nossa volta — e a inação, nesse contexto, é a maior traição que podemos cometer, contra nós próprios e contra os outros.

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