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Joaquim Simões da Hora e o Órgão de Santa Maria de Óbidos




Nos dias 7 e 8 de março de 1979, Joaquim Simões da Hora (1941-1996) - o melhor organista português do século XX – realizou um memorável concerto na Igreja de Santa Maria de Óbidos.

O pequeno órgão, localizado no Coro Alto, do lado do Evangelho, construído no ano de 1710 por Joaquim António Peres Fontanes (1750-1818), “com a clássica maneira da colocação do instrumento, da sua concepção técnica (divisão de registos, registo auxiliar, fole colocado por baixo do teclado) e da sua disposição (18 meios registos, corneta e clarim nos agudos, trombeta vertical nos graves, ausência de uma pedaleira), |…| representa o típico instrumento da organaria portuguesa da primeira metade do século XVIII, tal como se pode encontrar, hoje em dia, em inúmeras igrejas paroquiais e igrejas de antigos conventos pequenos. Foi a Oficina Sampaio, de Lisboa, que, em 1949, restaurou o órgão de Santa Maria de Óbidos. Assim, retirou-se, p.e., a original “oitava curta”, substituíram-se as camadas das teclas e instalaram-se, numa sala ao lado do coro alto, novos foles com o respectivo canal de vento e, em 1969, o ventilador eléctrico”.

Desse concerto resultou uma gravação, e o concernente Long Play, que chegou às lojas no correr do ano de 1981.

Joaquim Simões da Hora interpretou temas de sete compositores: Pedro de San Lorenzo (séc. XVII); Diogo da Conceição (séc. XVII); Gaspar dos Reis (?-1674); Manuel Rodrigues Coelho (1555-1647?); Pedro de Araújo (?-1684?); Carlos Seixas (1704-1742) e um Anónimo (séc. XVII).

“As peças apresentadas neste disco exemplificam com clareza o repertório das formas músico-organísticas portuguesas durante a época de 1600 até cerca de 1750. A par dos concertos em contraponto rigoroso acham-se, em primeiro lugar, os tentos mono ou pluritemáticos de estilo polifónico-imitativo, bem próprios para o teclado do órgão”.

A evolução do Barroco ficou claramente identificada no correr desse concerto, pois, sobressaíram-se todos os modos, inclusive o jônico e o eólio. Não se ouviu nenhuma peça de António Vivaldi (1678-1741); Johann Sebastian Bach (1685-1750); Domenico Scarlatti (1685-1757); entre outros grandes nomes do período, porém, os compositores apresentados eram de excelente craveira.

Nessa gravação é notadamente clara a influência do estilo francês e italiano. Carlos Seixas, por exemplo, mesmo sendo um inovador, não só na literatura musical para tecla, como também no repertório orquestral, salpicou muitas das suas peças com pequenas peculiaridades provenientes desses géneros, como claros exemplos disso temos a sua “Sonata em Lá menor para órgão” e a “Sonata em Sol maior, apresentadas nesse concerto e incluídas no citado LP.

Joaquim Simões da Hora apresentou, também, de Pedro de San Lorenzo: “Obra de 1er Tono de registo de mano derecha”; de Gaspar dos Reis: “Concerto a 3 sem outava”; de Manuel Rodrigues Coelho: “Terceiro tento de 2º tom” e “2 versos sobre o “Ave Maria Stella””; de Diogo da Conceição: “Batalha de 5º Tom”; de Pedro de Araújo: “Consonâncias de 1º Tom”; e do Anónimo: “Meyo registo de 3º Tom”.

Esse LP é um importante registo para memória futura, apesar de ter, como qualquer disco de vinil produzido em Portugal, uma prensagem muito má, e de ter sido produzido com matéria-prima (a sua fórmula) ruim, além da sofrível masterização e do baixíssimo controlo de qualidade.

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