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Quando estou em São Paulo




Sinto o coração aos solavancos, como se fosse abater-se sobre mim um colapso fulminante. Deve ser do passo apressado do paulista, que faz estremecer o chão que piso, trazendo-me à memória as façanhas dos grandes desbravadores bandeirantes, ou da saudosa lembrança dos amigos queridos que por aqui deixei em anos remotos, os mesmos seres que, na sua maioria, hoje, iluminam âmbitos espirituais.

A alma teima em perceber-se em solos íntimos de harmonia e claridade, logo, faz-me pervagar os recantos mais suaves da minha existência. São Paulo é um desses recessos.

Se uma lágrima furtiva cai, noto que é por melancólica e extenuante saudade, e não por dor ou tristeza. Creio que piso esta terra há mais, muito mais, de seiscentos anos, e dela tenho vivências só possíveis por estarem fincadas desde antes do Achamento que assassinou milhões de seres humanos. Penso naquelas almas. De vida sã e luminosa, de morte fria e cruel. Barbaridades, cometidas por ganâncias e polvilhos de ignorância.

Quando deixaremos a escuridão? Quando essas almas forem resgatadas e for ecoado o perdão, por as ter feito sofrer antes de um tempo previsto.

Hoje há calçadas, de pedras robustas; ruas, avenidas e largos de asfaltos metódicos e sonorizações ruidosas. Imensamente distante do gorjeio dos pássaros tão decantado por poetas de linhagens vigorosas. Ainda há árvores e canoros cantares, porém, não há a calma do tempo sadio. Mesmo assim, com espaçamentos, em locais inimagináveis, ouvimos o trilar de um mestre do canto, que, em sua harmonia, tenta igualar a musicalidade dos seus antepassados, talvez não o consiga, pois a orquestra que o acompanha é outra, não mais a de um Tietê sem mágoa, mas sim, a de uma farândola de alvoroços, saída de uma modernidade muito avançada e pouco natural.

O que há, então, de magia e exceção? O que é que faz estremecer-me o coração?

A cultura, no seu mais íntimo sabor, no modo mais palatável e transgressor, que posso desejar!

E corrói-me a alma de prazer, saber que aqui está a minha essência mais lúcida, o meu apelo mais sonoro, a minha cor, misturada de todas as tintas de uma paleta secular e vibrátil, onde não há o preto e o branco apenas.

Passo a passo, atravessando os mais matizados semáforos, pervago os entrefolhos que em arredados anos viram-me ser o adolescente mais feliz do planeta. Ainda resta algo dele em mim. Senão, não estaria a sentir o que sinto.

Ai, a “garoa antiga, a pálida amiga, que me fez sonhar”. Daqui, deste meu coração avassaladoramente ritmado, envio a mensagem de amor e paz, às almas dos que, como eu, devaneiam por uma São Paulo febricitante, repleta de nações e de carinhos.

E beijo, beijo a face de todos os amigos sinceros que tive, e tenho, filhos de uma cidade hercúlea e imortal, que deixa passar as horas, numa estonteante verdade, como se não existisse futuro.

Quando estou em São Paulo encontro-me! Bastar-me-ia isso para viver.

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