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Carpas no lago do Parque D. Carlos I



Como o lago do Parque D. Carlos I é apenas ornamental, deveriam ser tomadas medidas naturais para o seu amplo embelezamento, e, em “efeito dominó”, para ajudar a melhorar o seu ecossistema. A minha proposta é simples, prática, acessível, e com resultados extraordinários: A inserção de Carpas no local.

Esse é um dos peixes mais fascinantes do planeta. É da família Cyprinidae, cuja conduta é amplamente ordeira, conseguindo conviver pacificamente com outras espécies, e em grupo. A sua procedência, segundo reza a lenda, é muito remota, vindo originalmente de um dos lagos mais antigos e místicos da Ásia, mais especificamente da China. Mitologicamente - asseguram-nos alguns estudos publicados, acerca das dinastias Song e Qing -a Carpa converteu-se numa insígnia de prosperidade, fertilidade e longevidade porque, no seu íntimo, sente a necessidade de alcançar a nascente do rio Huang He (rio Amarelo) quando ocorre a época da desova. Para conseguir realizar tal feito, é necessário sobrepujar o decurso das águas normais e das cachoeiras. Após o regresso, as Carpas “vencedoras”, diz o mito, transformam-se em dragões.

Essa espécie de peixe, a subir, ao desafiar o grande rio, é sinónimo de resistência, arrojo e valentia, ao descer representa tarefas executadas e propósitos alcançados.

São inúmeros os países que adotaram a Carpa em seus lagos e rios, principalmente devido às suas cores esfuziantes, de múltiplos estalões, e que podem chegar a um porte considerável (1,20cm), o que embelezaria ainda mais o lago do parque caldense. Outro dos pontos importantes, e amplamente favorável, é o facto de ser uma espécie longeva, podendo viver até aos 50 anos de idade.

Existem muitos proterótipos de Carpas, os capitais são: Showa, Kohaku, Goshiki, Shiro Bekko, Utsuri e Ogon. Todas facilmente adaptáveis ao ambiente local, resistindo, inclusive, ao mais severo inverno.

Certamente, apresentam-se alguns procedimentos a serem seguidos quando se tem um lago com Carpas, porém nenhum é impeditivo. Um deles é relacionado aos cuidados com a alimentação. Embora seja uma espécie onívora (plantas, insetos, vermes, ovos de outros peixes, etc.) convém ter em atenção a necessidade de manter níveis adequados na biodiversidade do ambiente.

O lago do Parque D. Carlos I possui um fim simples de ornato, idêntico ao que os babilónios e fenícios demandavam para os seus lagos, lagoas, bacias e espelhos d’água, com o uso desta apenas para fins paisagísticos. Na Babilónia e na Civilização Fenícia eram também salientadas as questões ritualísticas e terapêuticas.

Um dos excelentes exemplos de lagos com Carpas existentes no nosso planeta é o do Pavilhão Japonês, no Parque do Ibirapuera. Ali, num entrefolho de muita tranquilidade, no ano de 1954, a excelsa colónia oriunda do Japão, instala (em homenagem ao país que a recebeu, em comemoração ao Quarto Centenário da cidade de São Paulo, e autorizado pela Lei Municipal 16.703/17) um santuário ecológico (cuidado há décadas, pela Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), para deleite de todos aqueles que desejam passar magníficos momentos de serenidade naquela megalópole.

Nesse que é o parque mais frequentado da América do Sul, não são só as plantas; as árvores ornamentais (devidamente identificadas com os seus nomes científicos); a belíssima construção, feita sob inspiração do Palácio Separado de Katsura de Quioto; as cerâmicas; os trajes de guerreiros; e as inúmeras variedades de cerejeiras, que deslumbram os nossos olhos, encontramos, também, matizadas Carpas, que nos fazem acreditar que a vida pode ser muito melhor, e que o ser humano ainda pode ser o protetor desta excelsa Terra.

Comentários

Armando Taborda disse…
A ideia das carpas, parece-me excelente. Outra ideia a pôr em prática, à semelhança do que acontece em Bruxelas e provavelmente noutras cidades, é que a pesca nos lagos, para treino e passatempo dos cidadãos, seja autorizada e regulamentada. Evidentemente que o pescado é desmontado do anzol e devolvido ao seu meio ambiente.

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