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Memória primeira

 


Todos os dias, ao despertar…

Acorre-me, com uma insistência quase litúrgica, a imagem da minha Santa mãe. Detenho-me nesses instantes, com uma espécie de recolhimento íntimo, revisitando fragmentos da nossa alegria partilhada, numerosos, sim, mas também curiosamente depurados, como se o tempo lhes tivesse limado as arestas mais ruidosas.

A lembrança mais remota, contudo, é a que me reconduz ao berço. E aqui hesito, pelo espanto que semelhante faculdade ainda hoje me causa, quem, afinal, logra recordar-se de tão recuada idade, desse território indistinto da primeira infância? Eu, para minha própria surpresa, retenho não apenas a cena, mas até o eco das palavras, com uma clareza que quase desconcerta.

A Senhora Dona Elvira, investida de uma firmeza serena que não admitia contestação leviana, volta-se para o meu pai e declara, em tom resoluto, é essencial encostar o berço à parede e aproximar a nossa cama dele, não vá o rapazinho, num ímpeto qualquer, projetar-se dali e tombar, desamparado, no chão.

O meu pai, porém, acolhe a advertência com uma reserva quase instintiva e responde de pronto, num ligeiro desvio que já deixava entrever o seu cepticismo, como quem, sem o afirmar frontalmente, suspende no ar um “isso é impossível”.

E, no entanto, essa impossibilidade, assim enunciada quase por reflexo, encerrava algo de revelador, uma confiança ingénua na ordem natural das coisas, como se os recém-nascidos obedecessem, desde logo, a um código secreto de prudência. O meu pai, homem de raciocínio sóbrio, não concebia, ao que parece, que um ser recém-chegado ao mundo pudesse ensaiar, ainda antes de falar, uma espécie de rebelião contra as leis mais elementares da gravidade.

A minha mãe, porém, não discutiu. Limitou-se a examinar a situação, num desses olhares que dispensam argumento, e que, curiosamente, tendem a sair vencedores de qualquer debate doméstico, mesmo daqueles que nunca chegam a acontecer. E o berço, como convinha àquela prudência vigilante, quase instintiva, foi encostado à parede, e a cama, num gesto de discreta fortificação doméstica, aproximada do berço.

Dir-se-ia, à distância, que este episódio não passa de um detalhe irrelevante, uma nota marginal na vasta partitura da memória. Contudo, há nele, se bem repararmos, uma espécie de alegoria discreta, pedagógica, sobre o modo como se constrói a segurança, primeiro exagera-se o perigo, depois reorganiza-se o espaço, e, por fim, vive-se como se o risco nunca tivesse existido.

Quanto a mim, o tal “rapazinho”, cuja hipotética queda mobilizara tão zelosas providências, a verdade é sensivelmente mais inconveniente. Longe de permanecer imóvel nesse reduto de segurança meticulosamente erguido, servi-me dos meus bracinhos, tidos por frágeis, com uma determinação que hoje me parece, no mínimo, desproporcionada à idade, para galgar o berço, inverter a posição com uma audácia quase estratégica e, num gesto que só posso qualificar de inaugural heroísmo, transpor a fronteira e alcançar a cama.

Daí, sem hesitação digna de registo, deslizei até ao chão, engatinhei, persistente, numa travessia silenciosa que me conduziu à sala, território até então vedado à minha autonomia. E foi aí, nesse improvável palco doméstico, que me revelei, arrancando aos meus pais um espanto absoluto, desses que suspendem a linguagem e deixam o rosto entregue à pura incredulidade, de queixo caído, literalmente, como se assistissem, sem aviso prévio, à primeira insurreição da vontade.

Essa é a minha verdadeira memória inaugural, não o berço em si, nem sequer as palavras, mas a arquitetura invisível de um cuidado absoluto, subitamente posto à prova por uma vontade ainda informe, mas já teimosa.

De modo que, ao acordar, todos os dias, quando volto a essa cena primordial, emociono-me. E nisso, creio, a minha Santa mãe continua a ter razão, há coisas que, por mais improváveis que pareçam, merecem sempre ser prevenidas, nem que seja contra a discreta audácia dos filhos.

*

Ilustração: “Mãe com filho”

Autor: August Robert Ludwig MacKe (1887 - 1914)

Acervo: Museu August Macke (Bonn, Alemanha) 

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