A
reflexão de Mário Cláudio, ao convocar Proteu para pensar José Régio (1901-1969),
inscreve-se numa tradição crítica que desconfia das identidades fixas e das
coerências demasiado lineares. Não se trata, note-se, de mero recurso
ornamental à mitologia clássica, mas de um instrumento interpretativo que
ilumina, com alguma acuidade, a natureza oscilante do sujeito regiano.
Proteu,
na tradição grega, era um antigo deus marinho ligado ao universo de Poseidon.
Guardião de focas e conhecedor absoluto do passado, do presente e do futuro,
possuía, porém, uma característica singular: recusava-se a revelar aquilo que
sabia. Para arrancar-lhe uma resposta era necessário capturá-lo e resistir às
suas incessantes metamorfoses. Transformava-se em fogo, água, serpente, árvore,
animal feroz. Só quando o interlocutor suportava todas essas mudanças sem o
largar é que Proteu regressava à sua forma inicial e consentia finalmente em
dizer a verdade.
Há,
nesta imagem, qualquer coisa de profundamente moderna. Proteu representa não
apenas a mutabilidade, mas também a dificuldade humana em fixar o real. Não
mente propriamente; escapa. A verdade existe, mas encontra-se protegida pela
instabilidade das formas.
Chamaram
a Régio, a propósito, portador de um “pecado de Proteu”. A expressão, curiosa e
algo severa, traz consigo esse eco antigo. Ora, com José Régio, talvez se passe
algo semelhante: quem o lê sente, por momentos, que está prestes a alcançar um
núcleo firme, uma espécie de centro íntimo, mas esse núcleo desliza, foge,
reconfigura-se. E isto não deixa de ser paradoxal.
José
Régio defendia, com convicção quase doutrinária, uma “literatura viva”, assente
na sinceridade, na expressão profunda do sujeito. Não uma escrita decorativa,
nem mero exercício técnico, mas um gesto interior, quase confessional. Contudo,
essa mesma sinceridade surge frequentemente envolta em máscaras subtis, em
encenações delicadas, em pequenos artifícios que complicam a ideia de
transparência.
Dir-se-ia,
então, que o autor procura a verdade, mas, ao aproximar-se dela, já a
transformou. Ou, dito de outro modo, talvez a sua verdade consista precisamente
nessa impossibilidade de fixação.
Há
qualquer coisa de teatral nesta dinâmica. Não no sentido superficial, mas numa
acepção mais funda, quase ontológica: o eu como palco, o sujeito como ator que,
mesmo quando pretende ser autêntico, não consegue evitar a representação. José
Régio não fragmenta a identidade com a radicalidade de Fernando Pessoa (1888-1935),
é certo, mas há nele uma inquietação comparável, um desconforto persistente
diante da ideia de unidade.
Talvez
seja isso que incomoda: não a multiplicidade em si, mas o desejo de a
contrariar. O tal “pecado”, se quisermos manter a palavra, não estará em mudar
de forma, mas em aspirar a uma fixidez definitiva. Como se houvesse, por detrás
da fluidez, uma nostalgia de permanência que acaba por nunca se cumprir.
Curiosamente,
esta tensão não enfraquece a sua obra; antes a adensa. Dá-lhe espessura, um
certo tremor interno, uma vibração que impede a leitura passiva. Há ali,
sempre, um ligeiro desajuste, uma espécie de descompasso que obriga o leitor a
regressar, a reler, a duvidar.
Talvez
por isso a figura de Proteu continue tão sugestiva ainda hoje. Vivemos numa época
profundamente proteica, marcada por identidades móveis, versões sucessivas do
eu, formas rápidas de adaptação social e emocional. O sujeito contemporâneo
muda constantemente de rosto, de linguagem, de posição, como se a estabilidade
se tivesse tornado quase impossível. Nesse sentido, o mito antigo revela uma
inesperada atualidade: certas verdades talvez só possam ser alcançadas quando
suportamos, sem simplificações apressadas, a instabilidade inevitável das
formas humanas.
Esse
é o verdadeiro legado. Não uma resposta, nem uma identidade estabilizada, mas
um movimento contínuo, quase respiratório. Um ir e vir entre o que se é e o que
se julga ser.
Alguns
escritores oferecem certezas; outros, mais raros, ensinam-nos a conviver com a
instabilidade.
José
Régio, sem alarde, pertence claramente a estes últimos.
Talvez
seja esse, afinal, o verdadeiro ‘pecado de Proteu’ entrevisto por Mário
Cláudio: não a mudança, mas a impossibilidade de permanecer inteiramente igual
a si mesmo.
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