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Incêndio, furtos e outras formas de violência


Volta e meia, perguntam-me o que me levou a encerrar a Livraria Martins Fontes Portugal, nas Caldas da Rainha, transferindo-a para outra cidade.

A resposta não cabe numa única frase, pois resulta da acumulação de episódios que, isoladamente, já seriam graves; reunidos, tornaram insustentável a permanência naquele lugar.

Inaugurada em junho de 2006, a Livraria Martins Fontes Portugal afirmava-se, então, como a maior livraria do distrito de Leiria, ocupando uma área útil de 120 m². Não era, porém, apenas um espaço dedicado ao livro. Acolhia igualmente uma galeria de arte, renovada mensalmente, oferecendo a cada artista a oportunidade de expor a sua obra, e dispunha de um palco amovível onde organizámos numerosos concertos, representações teatrais, apresentações de livros e outras iniciativas de índole cultural. Procurávamos construir um verdadeiro lugar de encontro, onde a cultura pudesse ser vivida na sua expressão mais ampla. Julgo que o conseguimos.

Essa ambição teve, infelizmente, um preço.

Desde os primeiros meses fomos alvo de sucessivos furtos de livros, CD e DVD, prejuízos que ascenderam a vários milhares de euros logo no primeiro ano de atividade. Seguiram-se tentativas de subtração de quadros, esculturas e fotografias pertencentes às exposições da galeria, um espaço que, pela qualidade da programação e pela afluência de visitantes, acabara por conquistar um público superior ao de outras salas expositivas da cidade. Nem sequer faltaram manifestações de concorrência desleal por parte de alguns livreiros locais, pouco dispostos a aceitar a presença de uma livraria com um projeto cultural distinto e uma dinâmica que rompia com a rotina instalada. A mediocridade, quando se sente ameaçada, reage quase sempre com uma agressividade desproporcionada. É uma velha lição da História.

O desfecho ocorreu na madrugada de 15 de Janeiro de 2009. Cerca das quatro e meia da manhã, alguém encostou uma motorizada à montra da livraria e ateou-lhe fogo, provocando uma explosão. Tratou-se de um incêndio criminoso, deliberado, cuja violência poderia ter produzido consequências incomparavelmente mais graves. A pronta intervenção dos Bombeiros das Caldas da Rainha impediu que as chamas consumissem por completo a livraria e se propagassem ao restante edifício. Ainda hoje penso no que poderia ter acontecido, e esse pensamento continua a impressionar-me.

Foi nessa madrugada que compreendi existir um instante em que a dignidade exige uma decisão. Permanecer deixara de ser um ato de coragem; convertera-se numa imprudência para com as pessoas, o património e um projeto cultural construído com trabalho, sacrifício e uma fé inabalável na força transformadora dos livros.

Pouco tempo depois, a Livraria Martins Fontes Portugal, despediu-se das Caldas da Rainha. Levámos connosco as estantes, os quadros, as memórias e milhares de volumes. O que ali permanecera não era um edifício vazio, era a prova de que nem todas as cidades sabem reconhecer aqueles que nelas investem inteligência, tempo e esperança.

Com os anos aprendi que o fogo pode consumir madeira, papel e tinta, mas nunca alcança as ideias que lhes deram origem. A barbárie possui um ímpeto devastador, porém é sempre efémera; a cultura, essa, conhece um tempo diferente. Sobrevive aos incendiários, atravessa gerações e reaparece onde encontra espíritos dispostos a recebê-la. Afinal, a verdadeira livraria nunca se confinou àquelas paredes. Habitava uma convicção, a de que cada livro aberto representa uma pequena vitória da civilização sobre a ignorância. E essa chama, ao contrário da outra, ninguém consegue extinguir.

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