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Gravata à lavallière

Durante décadas, talvez séculos, houve quem reconhecesse certas afinidades políticas, artísticas ou intelectuais por detalhes quase imperceptíveis da indumentária. Uma dobra específica do chapéu, o corte de um casaco, um lenço atado de forma negligente. A lavallière, com o seu laço amplo e vagamente desalinhado, pertenceu a esse universo de sinais subtis, meio mundanos, meio ideológicos, que dispensavam proclamações ruidosas.

No século XIX, e ainda durante o primeiro quartel do século XX, artistas, estudantes e intelectuais de Esquerda, homens e mulheres, exibiam-na nas ruas de Paris, do Rio de Janeiro ou de Lisboa com uma naturalidade hoje difícil de imaginar. Havia nela qualquer coisa de simultaneamente elegante e indisciplinada. Não possuía a rigidez militar do colarinho fechado, nem a secura burguesa da gravata estreita que o capitalismo industrial acabaria por impor como uniforme moral. A lavallière caía, ondulava, respirava. E isso, convenhamos, já era uma forma de insubmissão.

Curioso destino, o deste adereço. O nome vem de Louise de La Vallière (Françoise-Louise de La Baume Le Blanc, 1644-1710), duquesa de La Vallière e amante de Luís XIV (1638-1715). A História, aliás, gosta muito destas ironias: um acessório associado, mais tarde, à boémia republicana, aos círculos socialistas e aos meios intelectuais progressistas nasce, afinal, no coração da corte absolutista francesa, entre sedas, intrigas palacianas e espelhos dourados de Versalhes.

Talvez seja precisamente isso que torna os símbolos tão fascinantes. Nunca permanecem fiéis à origem. Fogem dos donos. Traem-nos.

Louise de La Vallière, dizem os cronistas da época, possuía uma delicadeza quase melancólica. Num universo dominado pela teatralidade do Rei-Sol, ela parecia mover-se com uma espécie de discrição triste, como se já pressentisse que o esplendor da corte tinha qualquer coisa de cárcere perfumado. A lavallière herdou um pouco dessa languidez. Não era um ornamento agressivo. Antes um laço solto, fluido, praticamente literário.

Os pintores simbolistas franceses, os estudantes de Coimbra, de Paris e do Rio de Janeiro, os poetas brasileiros da Belle Èpoque carioca, certas mulheres ligadas aos movimentos emancipatórios, todos encontraram naquele pedaço de tecido uma linguagem silenciosa. A roupa, ao contrário do que repetem os moralistas apressados, nunca foi apenas vaidade. É também uma gramática social. Um sistema de sinais. Um modo de dizer ao mundo: “não pertenço inteiramente ao vosso rebanho”.

Em Lisboa, nos cafés enfumarados do Chiado, sobreviveram alguns exemplares dessa estética, sobretudo através do polígrafo Júlio Dantas (1876-1962) e do círculo que o rodeava, onde surgiam figuras como Augusto de Castro (1883-1971), Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931), David Lopes (1867-1942), João de Barros (1881-1960), Afonso Lopes Vieira (1878-1946), Alberto Osório de Castro (1868-1946) ou José Leitão de Barros (1896-1967). Imaginam-se facilmente, entre chávenas de bica amarga e jornais amarrotados, homens de olhar febril, discutindo política, literatura ou o declínio da estética, enquanto ajustavam distraidamente a lavallière diante dos espelhos baços.Havia pose, claro. Há sempre nos meios intelectuais. Mas existia também uma certa fome de distinção espiritual, expressão hoje quase desaparecida, talvez até injustamente ridicularizada.

O século XX, porém, tornou-se veloz, industrial, funcional. As guerras amputaram delicadezas. A roupa começou a obedecer mais à produtividade do que ao temperamento. E a velha lavallière, demasiado lírica para o novo mundo das fábricas, dos escritórios e das máquinas de escrever alinhadas como batalhões, acabou lentamente remetida para retratos antigos, arquivos fotográficos e peças de teatro de época.

A História tem destas reincidências discretas. Um laço reaparece numa passerelle parisiense, uma atriz recupera-o num filme, um estudante de Belas-Artes descobre-o num baú esquecido. E, subitamente, aquele objeto antigo volta a respirar.

No fundo, talvez a lavallière nunca tenha sido apenas uma gravata. Talvez tenha sido, desde o princípio, uma pequena recusa. Um nó feito contra a pressa do mundo.

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