Ontem
encontrei um "camarada". Escrevo a palavra entre aspas porque as
palavras, como as instituições, também conhecem o desgaste. Determinados
vocábulos transportam uma herança moral exigente e com o passar dos anos acabam
por servir pessoas incapazes de lhes fazer justiça. "Camarada"
pressupõe lealdade, solidariedade, respeito pela divergência e consciência de
um destino coletivo. Quando essas qualidades desaparecem, resta apenas uma
designação vazia, repetida por hábito ou conveniência.
Aquele
ser pertence à espécie política que floresce sempre que os partidos deixam de
ser escolas de cidadania para se converterem em agências de promoção pessoal.
Não se aproxima da vida pública para servir uma ideia de comunidade, mas para
construir um percurso individual. O partido surge-lhe como um elevador social.
As convicções adaptam-se às circunstâncias, os princípios dobram-se perante a
oportunidade e a fidelidade dura exatamente o tempo necessário para garantir a
próxima etapa da carreira. Não é uma figura nova. Basta percorrer a História
para encontrar personagens semelhantes em quase todos os regimes. Mudam as
bandeiras, permanece a ambição.
Olhei
para ele durante alguns instantes e ocorreu-me uma observação de Montaigne
(1533-1592). O ensaísta francês desconfiava profundamente daqueles que exibiam
certezas absolutas acerca dos outros, esquecendo-se de examinar a própria
consciência. Existe uma forma de pobreza intelectual que se manifesta desse
modo. Em vez de procurar compreender, julga. Em vez de dialogar, etiqueta. Em
vez de responder aos argumentos, procura diminuir quem os apresenta.
O
método é invariável. Quando alguém demonstra independência de pensamento,
transforma-se automaticamente num problema. Não porque tenha razão em tudo,
ninguém a possui, mas porque a autonomia incomoda sempre quem aspira a
controlar os espaços de influência. A resposta deixa então de ser política para
passar a psicológica. Espalham-se insinuações, fabricam-se narrativas,
cultivam-se pequenos círculos de maledicência onde a reputação alheia serve de
moeda de troca. É uma atividade estéril, embora produza, durante algum tempo, a
ilusão de poder.
A
filosofia antiga conhecia bem esta diferença. Sócrates (c. 470/469 a.C. – 399
a.C.) acreditava que a verdade nascia do confronto honesto entre inteligências
livres. Os sofistas, pelo contrário, entendiam o discurso como uma técnica
destinada a vencer, independentemente da verdade. A distância entre ambos
continua a separar duas maneiras de fazer política. Uns procuram esclarecer.
Outros pretendem conquistar espaço. A ética desaparece logo que o êxito se transforma
na única medida da ação.
Tenho
pensado, aliás, que os regimes políticos não morrem apenas por causa das
grandes crises. Definham lentamente quando o caráter deixa de ser um critério
de avaliação. A degradação instala-se em silêncio, quase sem dar por ela.
Primeiro aceita-se uma pequena intriga porque parece útil. Depois tolera-se uma
mentira porque favorece um aliado. Mais tarde normaliza-se a difamação porque
atinge um adversário interno. Quando se chega a esse ponto, a consciência já
percorreu um longo caminho de acomodação.
Aristóteles
(384 a.C. – 322 a.C.) observava que nenhuma comunidade política permanece
saudável sem virtudes cívicas. Sempre achei esta ideia extraordinariamente atual.
As leis podem organizar um Estado, mas nunca substituem o caráter dos seus
cidadãos. Nenhuma constituição consegue proteger uma democracia se aqueles que
a compõem perderem o sentido da honra, da prudência ou da justiça. A liberdade
exige instituições sólidas, evidentemente, mas depende ainda mais da qualidade
moral de quem as ocupa.
É aqui
que começo a reconhecer uma alarmante deriva autoritária. Não me refiro ao
fascismo enquanto fenómeno histórico circunscrito ao século XX, com os seus
símbolos, os seus uniformes ou a sua liturgia política. Refiro-me ao fascismo
entendido como disposição de espírito, como hábito de exercer o poder e de
encarar quem discorda. Esse impulso manifesta-se quando o contraditório passa a
ser visto como uma afronta, quando a crítica é confundida com traição e quando
a destruição da reputação substitui a força dos argumentos.
Poucos
se apercebem deste processo porque esperam sempre os sinais mais ruidosos.
Imaginam que o autoritarismo chega envolto em bandeiras, marchas ou palavras de
ordem. A História ensina-nos precisamente o contrário. Antes de conquistar as
instituições, instala-se nos comportamentos. Aprende a respirar através das
pequenas intolerâncias diárias. Alimenta-se do medo, da obediência e da
conveniência. Depois, praticamente sem resistência, conquista espaços cada vez
maiores.
Hannah
Arendt (1906-1975) escreveu páginas memoráveis sobre a erosão do espaço
público. Aquilo que mais impressiona na sua reflexão não é apenas a análise dos
totalitarismos, mas a percepção de que a mentira organizada destrói a confiança
necessária à convivência democrática. Quando a calúnia passa a ser instrumento
político, quando a suspeita permanente substitui a discussão aberta, a
comunidade deixa de assentar na cidadania para apoiar-se no receio. E onde este
cresce, a liberdade começa inevitavelmente a emagrecer.
Inquieta-me
menos o insulto dirigido à minha pessoa do que a naturalidade com que alguns
comportamentos são hoje aceites. Existe uma anormal indulgência perante a
difamação, como se ela fosse um recurso legítimo da luta política. Não é. Nunca
foi. Quem recorre sistematicamente à desonra do adversário revela, antes de
tudo, uma dramática insuficiência de pensamento. O argumento exige trabalho
intelectual. A injúria exige apenas ressentimento.
Eduardo
Lourenço (1923-2020) lembrava, por diferentes caminhos, que a democracia vive
de uma permanente aprendizagem da liberdade. Gosto dessa ideia porque ela obriga-nos
a abandonar qualquer ingenuidade. A liberdade não constitui um património
adquirido. Precisa de ser exercida, defendida e, por vezes, reconquistada
dentro das próprias organizações que afirmam representá-la. Um partido pode
proclamar-se democrático e, simultaneamente, permitir práticas incompatíveis
com o espírito democrático. A história europeia fornece exemplos suficientes
para recomendar prudência antes de distribuir certificados de virtude.
Aquilo
que observo naquele ser abjeto não me leva a discutir a etiqueta ideológica que
escolheu para si. Interessa-me muito mais a natureza das suas atitudes. Quem
procura silenciar vozes incómodas, quem substitui o debate pela difamação, quem
encara a independência como uma ameaça e quem procura eliminar simbolicamente
os opositores adota procedimentos que pertencem à tradição autoritária. Pode
recusar essa caracterização. Pode indignar-se. As palavras têm importância, mas
os atos possuem memória. São eles que acabam por definir cada indivíduo.
É
por isso que continuo a afirmar, com inteira serenidade, uma convicção antiga:
o fascismo não começa quando um homem veste determinada camisa ou profere um
determinado slogan. Tem início muito
antes, na intimidade do caráter. Nasce no instante em que alguém acredita
possuir o direito de decidir quem merece falar e quem deve ser reduzido ao
silêncio. Cresce quando a consciência deixa de reconhecer a dignidade do outro.
Consolida-se quando a mentira passa a ser considerada um instrumento aceitável
para alcançar poder. Tudo o resto, os símbolos, os gestos, a encenação, chega
depois.
E
é exatamente por conhecer essa história, por ter lido os seus testemunhos, por
saber onde conduzem os pequenos autoritarismos do dia-a-dia, que não hesito em
repetir: fascismo, não! Nem quando
surge mascarado de patriotismo, nem quando se apresenta envolto em discursos
moralizadores, nem quando procura esconder-se atrás de estruturas partidárias
que se dizem democráticas. A liberdade merece adversários leais, nunca
inquisidores. E uma democracia digna desse nome mede-se, antes de tudo, pela
forma como trata aqueles que ousam pensar de maneira diferente.
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