Regresso
das férias, mas a palavra “regresso” parece-me aqui um pouco enganadora. Não
volto propriamente de um lugar estranho, daqueles que visitamos durante alguns
dias e depois abandonamos com a sensação de termos fechado um pequeno
parêntese. Estou a sair da minha segunda casa, de um lugar onde o tempo se
demora de outra maneira e onde encontro alguns dos melhores dias da minha vida.
A praia, excelente pela extensão, pela beleza e por aquela combinação de mar e
horizonte que nunca consigo olhar como coisa já conhecida, tornou-se para mim
um lugar onde gosto de estar, para onde vou sempre que quero.
Contudo,
o último dia é sempre desconfortável. Não é apenas deixar a casa ou interromper
aqueles dias junto ao mar. É afastar-me, ainda que por algum tempo, de uma
parte da vida em que me sinto particularmente inteiro. Ali, os dias parecem ter
outra espessura. O relógio continua a cumprir a sua obrigação, naturalmente,
mas nós nem sempre lhe obedecemos. A manhã ali começa devagar e muito cedo, a
tarde volta a alongar-se junto ao mar e o fim do dia chega sem que sinta
necessidade de lhe pedir contas. Cada estadia me revela, com alguma surpresa,
qualquer coisa que vai para além do mar.
Os
jardins e os parques impressionam-me particularmente. Vegetação cuidada,
árvores bem tratadas, caminhos limpos, canteiros vivos, sombras generosas. Tudo
parece pensado sem excessos, com respeito pelo que ali cresce. Gosto dessa
harmonia entre o cuidado humano e a liberdade da natureza. Nada parece
abandonado, mas também nada se mostra excessivamente domesticado.
A
palavra biodiversidade, tantas vezes repetida em conferências, jornais,
campanhas e discursos políticos, ganha ali uma dimensão concreta. Está nos
espaços verdes por onde passo, na variedade da vegetação, na presença de aves e
insetos, na forma como os jardins acolhem outras vidas em vez de servirem
apenas os olhos humanos.
Tenho
cada vez menos paciência para uma certa mania de subjugar tudo. Queremos
árvores perfeitamente aparadas, relvados sem uma folha fora do sítio, jardins
onde nenhuma planta ouse crescer sem autorização. Depois admiramo-nos de a
natureza estar a desaparecer das cidades. Cuidar não devia significar eliminar
tudo aquilo que escapa à nossa ideia de ordem.
A
arquitetura também me prende. Sempre que estou na minha segunda casa, dou por
mim a olhar para os edifícios com uma atenção que nem sempre consigo explicar.
Encontro construções que me fazem levantar os olhos muitas vezes. Pela beleza,
naturalmente, mas também pela inteligência da concepção, pela relação com o
espaço envolvente, pelos materiais, pela proporção, pela maneira como um
edifício parece corresponder ao lugar em vez de unicamente ocupar um espaço.
Gosto
particularmente de que estas estadias se tornem também um verdadeiro banho
cultural. Adoro andar sem pressa, levantar os olhos, entrar num museu, numa
biblioteca, numa casa com história, de me deter diante de uma praça ou de uma
escultura, de sorrir perante um bando de pássaros que me sobrevoa num voo
rasante.
A
minha segunda casa oferece-me a possibilidade da redescoberta diária. Conheço a
praia, os caminhos, alguns recantos, certas árvores; sei onde gosto de estar e
de onde gosto de olhar o mar.
As
férias não acabam inteiramente quando fecho a porta atrás de mim e sigo
caminho. Continuam em minha alma, misturadas com aquilo que já trazia,
acrescentando novas imagens a uma memória que se vai fazendo devagar.
E
sei que voltarei. Não porque precise de fugir de algum lugar, nem porque queira
repetir exatamente os mesmos dias. Volto porque gosto daquele pedaço de mundo e
porque existe uma alegria particular em estar novamente ali. Um destino
visita-se. Uma casa habita-se.
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