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A Democracia diante da vertigem

O avanço da extrema-direita no Brasil já não pertence ao campo das inquietações episódicas. A sua presença no Congresso Nacional e no Senado, reforçada pela eleição de numerosos representantes de posições radicalizadas, revela uma transformação mais profunda da vida pública brasileira. O que está em causa não é a existência, perfeitamente legítima, de uma direita conservadora numa sociedade plural. Uma democracia precisa de conservadores, de socialistas, de liberais, de progressistas, de vozes discordantes. O perigo começa quando a política deixa de reconhecer no adversário um cidadão com direito à palavra e passa a enxergá-lo como uma ameaça à própria existência da nação.

O Brasil tem uma memória demasiado longa para se permitir essa amnésia. Conheceu o autoritarismo, a censura, a perseguição política e a mutilação das liberdades durante a ditadura militar. A democracia que nasceu da lenta reabertura política não caiu do céu nem foi oferecida como dádiva aos brasileiros. Foi reconstruída com dificuldades, conflitos, esperanças e perdas, até que a Constituição de 1988 procurou devolver ao país uma arquitetura institucional fundada na liberdade e nos direitos. Esquecer a fragilidade dessa conquista seria uma forma de imprudência histórica.

O que hoje me inquieta é a naturalização de discursos que, durante muito tempo, permaneceriam nas margens da conversa pública. Quando a intolerância ganha tribuna, quando a violência verbal se transforma em instrumento de mobilização e quando a desconfiança das instituições passa a ser apresentada como virtude cívica, alguma coisa se desloca no corpo da República. A linguagem prepara muitas vezes aquilo que a política, mais tarde, procura realizar. Antes da ruptura institucional costuma existir uma erosão da confiança, uma degradação deliberada do adversário, uma lenta aprendizagem coletiva da brutalidade.

Penso em Hannah Arendt (1906-1975) e na sua reflexão sobre a fragilidade do espaço público, mas penso também em Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), para quem a vida política brasileira nunca esteve inteiramente separada das paixões, das lealdades pessoais e dos impulsos que confundem o interesse particular com o destino coletivo. A história não se repete como uma peça teatral, com os mesmos atores e as mesmas falas. Regressam, porém, certas tentações humanas. O autoritarismo é uma delas. O fascismo é outra. A sedução de entregar a liberdade a quem promete restaurar uma ordem perdida é outra ainda.

Preocupa-me, por isso, a eleição de tantos nomes associados à extrema-direita. Inquieta-me o número, mas ainda mais a atmosfera que esse número ajuda a criar. Uma Democracia pode suportar conflitos ásperos, derrotas humilhantes e maiorias incómodas. O que dificilmente suporta, durante muito tempo, é a transformação da política numa guerra moral permanente, em que cada adversário deixa de ser apenas alguém que pensa de maneira diferente e passa a ser tratado como inimigo da pátria.

Os maiores perigos estão na habituação do discurso vazio e no voto cego, surdo e mudo de uma parcela da população que só sabe das dores do mundo através das redes sociais e que, para ela, a história é completamente desinteressante, pois não aceita emojis fáceis, sorrisos insonsos e decisões baseadas em velocidades tiquetoqueanas. A História ensina que as Democracias nem sempre desaparecem ao som de canhões. Na maioria das vezes, vão perdendo a respiração dentro das próprias instituições, enquanto os cidadãos, entretidos com a treta influencer do dia, se habituam àquilo que antes lhes parecia inadmissível.

É essa habituação que me assusta. Porque uma Democracia pode sobreviver a muitos governos, a muitas crises e até a grandes erros. O que não pode é sobreviver indefinidamente à corrosão da própria ideia de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

 

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