Em
Lisboa e no Porto, o protesto pelo direito à habitação terminou sob a
intervenção da força policial. Os jovens que tinham montado tendas nas praças
para denunciar a crise habitacional foram confrontados com uma operação que
envolveu bastões, detenções e deixou feridos. Os relatos de agressões
entretanto divulgados exigem uma investigação independente. A atuação das
autoridades, as ordens que a determinaram e os critérios que orientaram o uso
da força têm de ser publicamente esclarecidos.
Aqueles
jovens não exigiam privilégios. Protestavam contra rendas incomportáveis,
salários insuficientes, despejos e a dificuldade crescente de encontrar uma
casa compatível com os rendimentos da maioria. Levaram tendas para as praças
porque a habitação, direito consagrado na Constituição, se tornou inacessível
para uma parte significativa da população. A sua presença no espaço público
recorda uma ideia essencial de Hannah Arendt (1906-1975): a política nasce
também quando os cidadãos se reúnem, tomam a palavra e tornam visíveis os
problemas que os afetam. Dispersar esse encontro pela força é atingir uma das
expressões fundamentais da vida democrática.
A
atuação da PSP exige uma investigação rigorosa. É necessário apurar quem
ordenou as operações, que instruções foram transmitidas aos agentes e em que
circunstâncias ocorreram as detenções e os ferimentos. A eventual
irregularidade da ocupação das praças não dispensa o respeito pelos princípios
da necessidade e da proporcionalidade. O Estado detém o uso legítimo da força, mas
essa prerrogativa não o coloca acima da lei. A dignidade humana, fundamento da
reflexão moral de Kant (1724-1804), impõe precisamente um limite ao poder:
ninguém pode ser reduzido a mero instrumento de uma decisão administrativa ou
policial. É esse limite que importa averiguar se foi respeitado.
O
Governo não pode acompanhar os acontecimentos à distância, como se a
responsabilidade política terminasse onde começa a intervenção policial. A
crise habitacional exige respostas concretas, e a retirada das tendas não reduz
rendas, não impede despejos nem aumenta a habitação pública. Quando a energia
do Estado se manifesta com tanta determinação perante cidadãos que protestam,
sem igual eficácia na resolução do problema que os levou à rua, instala-se uma
contradição que merece ser denunciada. A autoridade pública mede-se também pela
capacidade de responder às necessidades da população.
Da
Presidência da República esperava-se mais do que declarações de circunstância.
O Presidente pediu informações ao Governo e à Provedoria de Justiça, mas a
gravidade do sucedido reclama uma posição pública clara. A magistratura de
influência não deve confundir-se com a espera institucional. Perante denúncias
de violência policial e possíveis violações de direitos fundamentais, o Presidente
deve contribuir para que o esclarecimento e a responsabilização não se percam
no desgaste da atualidade.
Também
os relatos de agressões a jornalistas e a retirada de deputados que
acompanhavam os manifestantes exigem atenção. A liberdade de informar e o
exercício do mandato parlamentar são garantias essenciais, sobretudo quando a atuação
das autoridades está sob escrutínio. Uma democracia que se incomoda com quem
observa e questiona começa a comprometer a própria transparência.
A
responsabilidade por este ambiente político não pertence apenas aos
governantes. Passa também pelas escolhas eleitorais, que conferem legitimidade
a programas, prioridades e concepções do exercício do poder. Quando a demagogia
substitui o debate, a ignorância se converte em argumento e a integridade
pública perde valor, as consequências chegam às instituições e às decisões que
afetam a vida dos cidadãos. O voto não constitui um gesto isolado, desligado
dos seus efeitos: implica responsabilidade perante aqueles a quem se entrega o
poder. Não atribuo a cada eleitor a responsabilidade direta por uma ordem
policial; recuso, porém, a ideia de que as escolhas políticas possam ser
separadas das condições que tornam determinadas práticas possíveis ou
toleráveis.
A democracia não se esgota na urna, nem a autoridade se legitima apenas pela força da lei. Exige liberdade, dignidade e limites ao poder. Não me resigno a ver jovens sentados numa praça serem retirados à bastonada, enquanto os responsáveis políticos continuam a falar de normalidade.

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