Tenho
por hábito acreditar que um político possui o mínimo de sensibilidade para
perceber que a verdadeira cultura é uma porta aberta ao enriquecimento de uma
comunidade e que, sobretudo, não se deixa reduzir a esquemas binários de
leitura, como se fosse possível encerrá-la numa geometria ideológica de
Esquerda e Direita, como se tivesse, enfim, um lado certo e outro errado. Mas
depois há a realidade, essa coisa menos elegante.
Porque,
no dia-a-dia político, a cultura raramente é entendida como território
autónomo. É mais frequente ser tratada como um ornamento, ou, pior ainda, como um
instrumento. Um palco útil para discursos, inaugurações, fotografias oficiais,
cortes de fita, pequenas cerimónias onde a estética serve apenas para legitimar
a administração do momento.
E,
no entanto, a cultura, a verdadeira, a que resiste ao tempo, nunca se comportou
bem dentro dessas molduras. Vive mal com prazos eleitorais, com relatórios de
execução, com a linguagem empobrecida da gestão. Tem uma espécie de teimosia
própria, quase indisciplinada, que a afasta naturalmente do cálculo político
imediato.
Há,
por vezes, uma trapalhada curiosa entre promoção cultural e consumo cultural.
Confunde-se a circulação de eventos com a criação de pensamento. E não são a
mesma coisa. Uma cidade ou uma vila podem estar cheias de espetáculos e, ainda
assim, profundamente pobres no plano cultural. Pode haver programação,
cartazes, iniciativas, e, ao mesmo tempo, ausência de risco intelectual, de verdadeira
densidade criativa.
A
política, quando se aproxima da cultura apenas para a domesticar, tende a
preferir o previsível. O que não incomoda. O que não desloca. O que pode ser
facilmente enquadrado num relatório anual com gráficos e percentagens. Mas a
cultura, quando é viva, raramente cabe nesses formatos. Ela resiste, contamina,
perturba até.
Porque
a cultura exige tempo, e o tempo político é sempre curto, inquieto, ansioso.
Exige silêncio, e o espaço público político é, por natureza, ruidoso. Exige
dúvida, e o discurso político prefere a afirmação rápida, mesmo quando
simplifica em excesso.
Não
se trata, claro, de opor ingenuamente cultura e política como se fossem mundos
incompatíveis. Seria absurdo. A política também pode criar condições para que a
cultura floresça, e há exemplos históricos disso. Mas quando a política se
coloca acima da cultura, quando tenta enquadrá-la como extensão ideológica ou
vitrina de legitimidade, então algo se empobrece inevitavelmente. E é nesse
ponto que a cultura deixa de ser ponte e passa a ser decoração.
Talvez
o erro mais persistente seja imaginar que a cultura serve para ilustrar
políticas. Quando, na verdade, ela faz o contrário: ilumina zonas que a
política prefere manter em penumbra. E nem sempre com conforto.
Daí
a importância de um princípio simples, quase elementar, mas raramente assumido
com seriedade: falar de autores, de obras, de pensamento, independentemente do
seu lado político. Um escritor, por exemplo, não deveria ser reduzido ao seu
posicionamento ideológico, pois isso levar-nos-ia ao absurdo de rejeitar ou
aceitar obras apenas em função de etiquetas políticas, como se isso esgotasse a
complexidade da criação literária, como acontece frequentemente com autores
cuja relação com o poder e com a ideologia do seu tempo foi ambígua, como Luigi
Pirandello (1867-1936), cuja biografia política não cabe numa leitura linear
nem numa classificação simples. Há páginas que ultrapassam o tempo e a pertença
partidária, e essa leitura desarmada é, em si mesma, um ato de maturidade
cultural. O contrário disso é a amputação da inteligência crítica, substituída
por filtros de conveniência.
É
aqui que a política local deveria assumir uma responsabilidade mais concreta.
Não basta promover eventos culturais esporádicos ou inaugurar equipamentos com
solenidade ritual. Seria necessário exigir, de forma estruturada, que Câmaras
Municipais e Juntas de Freguesia afetassem anualmente uma percentagem fixa do
seu orçamento à criação de pensamento, à produção de conhecimento, ao estímulo
efetivo da reflexão cultural, não apenas ao consumo cultural. Algo que não se
esgote no imediato, nem se traduza apenas em espetáculo, mas que deixe
sedimentação. E que não fique refém de lógicas de proximidade, afinidades
pessoais ou redes de conveniência, sob pena de se desvirtuar o próprio
propósito da política cultural.
No
fundo, uma sociedade mede-se também pela forma como trata aquilo que não
consegue controlar inteiramente. E a cultura pertence, felizmente, a essa
categoria de coisas que escapam, discretamente, a qualquer tentativa de
domesticação.

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