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Pavilhões do Parque D. Carlos I


Não é fácil olhar para os Pavilhões do Parque D. Carlos I sem experimentar uma certa perplexidade. Estão ali, no coração de um dos espaços mais importantes das Caldas da Rainha, testemunhando uma época em que a cidade se pensava de outra maneira, quando a arquitetura, a medicina, o termalismo e a própria ideia de progresso participavam de uma mesma concepção de cidade. E, no entanto, aquilo que deveria ser hoje uma parte viva da memória caldense foi ficando entregue à erosão, à demora e à indiferença que se instala quando uma situação se prolonga durante demasiado tempo. O mais difícil de compreender não é a passagem dos anos. O tempo passa sobre tudo, e nenhuma obra humana possui o privilégio da eternidade. O que custa compreender é a incapacidade de uma cidade para decidir o que quer fazer com uma herança que recebeu. Desde a morte de D. Rodrigo Berquó (1839-1896), arquiteto/engenheiro e homem de cultura, o projeto que este delineou parece ter perdido a continuidade e a determinação necessárias para assegurar o futuro daquele conjunto. Por que razão uma obra de semelhante importância foi sendo empurrada para um amanhã que nunca chega?

Caldas da Rainha não era apenas uma povoação com águas termais. A atividade termal trouxe consigo uma cultura urbana própria, novas formas de sociabilidade e uma atenção particular à arquitetura, aos jardins e aos equipamentos destinados à saúde e ao lazer. O espaço urbano começou a ser pensado como um conjunto articulado, no qual o edifício e a paisagem participavam de uma mesma ideia de progresso. D. Rodrigo Berquó fez parte dessa transformação. A sua arquitetura não pode ser separada da sociedade que a produziu nem da ambição de construir uma cidade mais moderna e mais qualificada. Os Pavilhões interessam-me, por isso, como documento de uma determinada concepção de sociedade. É também por essa razão que me revolta o comportamento da classe política e, naturalmente, a passividade de uma população que parece ter-se habituado a assistir ao abandono sem exigir, com a firmeza necessária, que alguma coisa seja feita.

Cada vez que estou nas Caldas da Rainha, custa-me ver uma parte tão significativa do património arquitetónico da cidade tratada com uma espécie de desatenção que, prolongada no tempo, acaba por equivaler a uma forma de desprezo. O que deveria constituir uma das expressões mais qualificadas da identidade caldense vai sendo desvalorizado no olhar diário e deixado à sua sorte, como se a importância histórica de um edifício diminuísse à medida que se torna menos cómodo cuidar dele. O sociólogo Maurice Halbwachs (1877-1945) mostrou como a memória coletiva se apoia nos lugares e nos espaços partilhados. Uma comunidade recorda através das suas ruas, das suas casas, dos seus jardins e dos edifícios que as sucessivas gerações aprenderam a reconhecer. Quando esses lugares são abandonados, perde-se uma parte da relação física com o passado. E é também assim que se instala a habituação: quem passa diariamente diante de um edifício que perdeu o esplendor original acaba por deixar de reparar naquilo que, noutras circunstâncias, provocaria indignação. O excepcional torna-se normal e a anomalia incorpora-se na paisagem. Ano após ano, com a aceitação de uma população acomodada à situação, o monumento, frontispício do concelho, vai seguindo o seu caminho. Triste.

Por isso, reduzir esta questão à conservação de um imóvel é insuficiente. O que está em causa é a relação que as Caldas da Rainha mantêm com a sua própria história. Uma cidade que perde os seus testemunhos materiais destrói referências que nenhuma fotografia, nenhum painel explicativo e nenhuma campanha turística conseguem substituir inteiramente. Podemos documentar aquilo que desapareceu; não podemos reconstruir a sua presença. Também a filosofia política oferece uma perspectiva que merece atenção: uma cidade não pertence apenas aos que nela vivem hoje. Recebemo-la de gerações anteriores e deixamo-la às seguintes. Existe nessa transmissão uma responsabilidade que ultrapassa os mandatos eleitorais. Quem governa administra durante alguns anos; o património, quando verdadeiramente reconhecido como tal, pertence a uma duração muito mais longa. Quando a política se deixa dominar pelo imediato, tudo aquilo que exige continuidade fica fragilizado. Cada executivo encontra uma prioridade mais urgente, cada promessa pode ser remetida para o mandato seguinte, e aquilo que deveria beneficiar de uma estratégia prolongada fica sujeito à sucessão dos calendários políticos.

É justamente neste ponto que a política municipal deveria ser avaliada por um critério diferente da mera capacidade de inaugurar obra nova, coisa que, aliás, não sucedeu durante os anos de mandato do Movimento VM. Não recuperaram o património que encontraram por recuperar, nem conceberam e concretizaram obra nova que pudesse ser apresentada como marca distintiva da sua governação; limitaram-se, em larga medida, a inaugurar aquilo que os executivos anteriores haviam deixado encaminhado ou pendente. Governar também significa saber o que não pode ser deixado desaparecer e compreender que uma cidade se constrói tanto pela criação do novo como pela responsabilidade de preservar aquilo que o tempo e as gerações anteriores lhe confiaram. Isso exige conhecimento, investimento, competência técnica e continuidade, virtudes pouco compatíveis com uma lógica eleitoral excessivamente subordinada ao curto prazo. Neste momento, politicamente falando, existem na cidade dois contendores que concentram grande parte da disputa: o PSD e o Movimento VM. Quando faltarem apenas três meses para as Autárquicas de 2029, outras forças políticas surgirão, como habitualmente acontece à medida que se aproxima o calendário eleitoral, trazendo propostas que, muitas vezes, terão mais de repetição do que de novidade. Os Pavilhões voltarão, então, a constituir uma matéria eleitoral particularmente tentadora. O anúncio do salvamento daquele património de pedra poderá surgir com toda a força. Aparecerão compromissos, declarações, projetos, imagens e intenções. Falar-se-á da importância histórica do conjunto e da necessidade de lhe restituir a dignidade. Tudo isso será bem-vindo se vier acompanhado daquilo que verdadeiramente interessa: decisão, projeto tecnicamente sustentado, financiamento e obra. Sem isso, teremos apenas mais palavras, incapazes de alterar o destino daquele espaço. Muitas vezes, o discurso sobre o património ganha maior intensidade precisamente quando a urgência da sua salvaguarda já se tornou incontornável. Quanto mais evidente se torna a necessidade de agir, mais fácil é proclamar a importância histórica de um edifício. A eloquência, contudo, por mais convincente que possa ser, nunca substitui a intervenção.

Custa-me, politicamente falando, compreender que o atual executivo pareça encontrar recursos para uma máquina de propaganda destinada a anunciar maravilhas, enquanto os resultados concretos pouco se refletem naquilo que deveria contribuir para o crescimento e a qualificação do concelho. Gastar dinheiro para produzir a imagem de uma cidade próspera é relativamente fácil. Mais difícil é deixar obra que permaneça quando os discursos forem esquecidos. É também por isso que me preocupa o Movimento VM. Só daqui a muitos anos os caldenses poderão avaliar a dimensão do dano causado por estes anos de governação. O tempo retira o ruído à política e deixa à vista aquilo que realmente ficou. Temo que, nesse balanço, se encontre uma governação excessivamente dependente da propaganda e incapaz de enfrentar problemas que exigem visão, persistência e coragem.

Os Pavilhões do Parque D. Carlos I são um deles. E não é um problema pequeno. Continuam ali, à vista de todos, como uma espécie de pergunta silenciosa dirigida à cidade e àqueles que a governam. O que falta saber é quanto tempo ainda será necessário esperar para que Caldas da Rainha decida, finalmente, se quer preservar aquilo que recebeu ou assistir à sua perda.

Comentários

Vasco Baptista disse…
Olá Rui, não comento porque esta gente é desprovida de vergonha e de qualquer sensibilidade histórica ou cultural. Finalizo com celebre frase - o povo quer pão deem-lhe brioche, Marie Antoinette dixit. É festarolas que o povo quer? deem-lhe arraiais e falos pendericalhados na verilha de uma qualquer prostituta de beira de estrada

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