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A anatomia do fascismo e a memória da desumanização

A ascensão do fascismo europeu, entre as duas guerras mundiais, não foi um acidente da História. Robert O. Paxton (1932-) e Primo Levi (1919-1987) oferecem-nos duas perspectivas fundamentais sobre esta tragédia: o primeiro analisa a formação e o exercício do poder fascista; o segundo testemunha a desumanização nos campos de concentração. A investigação histórica e a experiência vivida permitem-lhes expor os mecanismos políticos que conduziram à catástrofe e o sofrimento humano que dela resultou.

O fascismo encontrou terreno favorável na crise das instituições liberais, nas consequências sociais da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), no ressentimento nacionalista e no medo da revolução. Em Itália, Benito Mussolini (1883-1945) chegou ao poder em outubro de 1922, depois da Marcha sobre Roma e da decisão do rei Vítor Emanuel III (1869-1947) de lhe confiar a chefia do Governo. Na Alemanha, Adolf Hitler (1889-1945) foi nomeado chanceler em janeiro de 1933 pelo presidente Paul von Hindenburg (1847-1934), com o apoio de dirigentes conservadores que julgavam poder controlá-lo. Em ambos os países, a conquista do poder beneficiou da cedência ou da passividade de forças não fascistas. A catástrofe começou muito antes dos campos de concentração, quando a violência política foi tolerada e a democracia passou a ser tratada como um obstáculo à regeneração nacional.

É esta evolução que Robert O. Paxton examina em A Anatomia do Fascismo. O historiador norte-americano acompanha os movimentos fascistas desde a formação até à conquista do poder, à governação e à radicalização. Em vez de os reduzir a uma doutrina, observa as alianças, as decisões e as práticas que converteram a ideologia em violência política e domínio institucional.

Os exemplos italiano e alemão são elucidativos. Os squadristi de Mussolini atacaram sindicatos, partidos e jornais, beneficiando da tolerância de proprietários, industriais e setores das forças de autoridade. Na Alemanha, o incêndio do Reichstag, em fevereiro de 1933, justificou a suspensão de direitos fundamentais, enquanto a Lei de Plenos Poderes, aprovada em março, abriu caminho à ditadura. As Leis de Nuremberga, de 1935, institucionalizaram a discriminação racial; o pogrom de novembro de 1938, conhecido como Kristallnacht, expôs a violência antissemita do regime. A guerra iniciada em 1939 conduziria ao extermínio de milhões de judeus europeus e à perseguição de outros grupos.

Paxton demonstra que a ascensão fascista não dependeu exclusivamente da mobilização popular ou da ação dos seus dirigentes. Beneficiou de alianças conservadoras, apoios económicos e colaboração de instituições que acreditavam poder servir-se daqueles movimentos. A destruição da democracia envolveu responsabilidades concretas, interesses e decisões políticas. A sua análise permite reconhecer a cumplicidade daqueles que, julgando preservar a ordem e os próprios privilégios, acabaram por favorecer a destruição das liberdades.

Se Paxton reconstrói os mecanismos do poder totalitário, Primo Levi revela a experiência humana produzida por esse poder. Em Se Isto É um Homem, publicado em 1947, o escritor italiano relata a deportação para Auschwitz, onde chegou em fevereiro de 1944, depois de ter sido preso em dezembro de 1943 pela sua ligação à resistência antifascista. Químico de formação, sobreviveu ao trabalho forçado, à fome, à doença e à violência de um sistema concebido para lhe retirar a identidade e a condição humana.

A força do testemunho reside na precisão e na contenção. Levi descreve a chegada ao campo, a perda dos pertences, a raspagem do cabelo e a substituição do nome por um número. A fome, o frio, o trabalho extenuante e a arbitrariedade dos guardas transformavam a sobrevivência numa luta quotidiana. A violência era administrada através de ordens, horários e procedimentos, adquirindo a aparência sinistra de uma rotina.

A sua prosa, contida e analítica, por vezes quase clínica, evita o excesso retórico. Levi observa as estratégias de sobrevivência, os gestos de solidariedade e as alterações morais provocadas pelo medo e pela privação, sem formular julgamentos fáceis sobre aqueles que procuravam permanecer vivos. O título, Se Isto É um Homem, encerra a interrogação essencial da obra: o que acontece à pessoa quando um regime lhe retira o nome, a liberdade, os vínculos familiares e o reconhecimento social? Ao restituir histórias individuais àqueles que o sistema reduziu a números, Levi transforma o testemunho numa reflexão de rara profundidade sobre a dignidade humana.

A leitura conjunta dos dois livros permite apreender a relação entre a construção do poder fascista e a destruição da pessoa. Paxton acompanha a progressiva submissão das instituições e a organização da violência; Levi dá-nos a conhecer a vida daqueles sobre quem essa violência se abateu. A investigação histórica e o testemunho cruzam-se, assim, numa compreensão mais completa da tragédia europeia.

A atualidade destas obras exige rigor, sem analogias precipitadas. A perseguição de adversários, a estigmatização de minorias, a glorificação da violência e o desprezo pelas garantias constitucionais merecem vigilância cívica. A propaganda nazi demonstrou como a fabricação de inimigos, apresentados como responsáveis pela decadência nacional, podia preparar a exclusão e legitimar o extermínio. Por detrás de cada classificação racial existiam pessoas, famílias, profissões e projetos de vida. É essa dimensão que Levi impede que se perca na abstração dos números.

A educação histórica não pode limitar-se à memorização de datas e números de vítimas. Exige compreender os processos políticos, a colaboração das instituições e os instrumentos jurídicos que tornaram possível a perseguição. Exige também escutar os sobreviventes. A memória dos campos de concentração pertence à formação cultural e cívica das gerações seguintes, não como cerimónia de circunstância, mas como conhecimento de uma experiência que modificou para sempre a consciência europeia.

Recomendar A Anatomia do Fascismo e Se Isto É um Homem é reconhecer o valor de dois livros que se iluminam mutuamente. Paxton restitui à História a complexidade das responsabilidades políticas; Levi devolve à memória a singularidade das vidas que o nazismo procurou apagar. Ambos nos obrigam a abandonar a confortável ideia de que a barbárie pertence a um passado inteiramente estranho ao nosso mundo.

Creio que a passagem mais difícil destas leituras seja rigorosamente essa: reconhecer que a civilização não constitui uma proteção automática contra a crueldade e que a cultura, a ciência e o progresso material podem coexistir com a perseguição e o extermínio. Depois de Auschwitz, a palavra humanidade adquiriu uma gravidade que nenhum discurso solene consegue substituir. Primo Levi escreveu para que os mortos não fossem condenados a uma segunda morte, a do esquecimento. Paxton ajuda-nos a perceber as circunstâncias políticas que tornaram possível o seu desaparecimento. Entre a análise de um e a memória do outro mantém-se uma advertência que não perdeu o seu alcance: nenhuma sociedade está dispensada de responder pelas forças que alimenta e pelas vidas que abandona.

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