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A barbearia do Didi

Ao folhear, em formato digital, a imprensa do meu Brasil, deparei-me recentemente com uma notícia que me reconduziu a um passado ainda próximo e profundamente saudoso: o falecimento do lendário Didi.

João Araújo — universalmente conhecido por Didi — acompanhou-me durante quase duas décadas, tratando do meu cabelo desde 1983 até janeiro de 2001. A minha primeira visita ao seu estabelecimento, situado quase em frente ao portão 6 do mítico Estádio Urbano Caldeira, ocorreu por intermédio de Dico que, ao observar as minhas longas madeixas, me dirigiu, com a autoridade descontraída de um tricampeão mundial, uma recomendação clara: deveria confiar o meu cabelo ao cuidado de Didi.

Resisti inicialmente, invocando razões profissionais — preparava-me então para interpretar a personagem Joaquim Carvalho na peça A Joia, de Arthur Azevedo — mas acabei por acolher o conselho. Na manhã seguinte, sentei-me pela primeira vez na cadeira da barbearia. Com tesoura e pente, Didi imprimiu um discreto “toque” no meu cabelo, revelando uma destreza técnica aliada a uma alegria serena e contida. A aparente desordem das minhas madeixas foi transformada com precisão e elegância, numa intervenção que revelava experiência, sensibilidade e um respeito quase artesanal pelo ofício.

Em janeiro de 2001, fui ao seu estabelecimento não para um corte, mas para uma despedida. Entre palavras pausadas e memórias partilhadas, agradeci-lhe a amizade e o cuidado constante com que sempre me recebeu. A emoção foi mútua: eu, por não saber quando regressaria — nem quando voltaria a Santos —; ele, por pressentir que aquele poderia ser o nosso último abraço. Referia, com lucidez tranquila, o avançar da idade e a consciência de que a vida, embora generosa, caminhava para o seu termo.

Didi era um homem simples, de educação irrepreensível e lealdade inabalável aos seus afetos. Conversávamos sobre muitos temas, mas havia um assunto que lhe iluminava particularmente o semblante: Dico. A evocação dessa amizade revelava não apenas admiração, mas também um profundo sentido de pertença a uma memória coletiva que transcende o quotidiano.

Hoje, a notícia do seu falecimento reacende essa saudade — não apenas da pessoa, mas de um tempo, de um lugar e de uma convivência marcada pela autenticidade. Resta-me desejar que a Luz o acolha e que a paz o envolva, como merecem aqueles que viveram com simplicidade, dignidade e afeto.

 

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