Na
sequência da experiência notavelmente enriquecedora que constituiu o boletim
cultural mensal “A Língua Portuguesa”, cuja publicação veio, todavia, a ser
interrompida em virtude dos elevados custos de produção e da manifesta falta de
interesse por parte de potenciais entidades patrocinadoras — indício eloquente
das fragilidades estruturais que persistentemente afetam o setor cultural —
entendi por conveniente suspender a sua edição.
Anos
mais tarde, estimulado pelo encorajamento de alguns leitores, fundei o jornal
mensal “Primeira Página”, cuja distribuição se processava exclusivamente por
via digital, sendo produzido em formato PDF. O seu número inaugural foi
publicado em outubro de 2020 e o derradeiro em novembro de 2022, perfazendo
pouco mais de dois anos de atividade editorial regular — período que, apesar
das limitações materiais, se revelou intelectualmente fecundo e pessoalmente
gratificante.
O
termo do projeto ficou a dever-se a um dado aparentemente circunstancial, mas
profundamente sintomático: a distribuição era efetuada por correio eletrónico
para cerca de dois mil e quinhentos destinatários; contudo, apenas quatro
leitores manifestavam, de forma constante e empenhada, o seu apreço e reflexão
crítica acerca de cada edição. A desproporção entre o alcance potencial e o
efetivo retorno gerou em mim a convicção de que o esforço empreendido carecia
de verdadeira ressonância pública, como se se dirigisse a um espaço rarefeito
de interlocução.
Tal
constatação levou-me a formular uma interrogação mais ampla e inevitavelmente
perturbadora: que lugar ocupa hoje a leitura reflexiva no quotidiano da
sociedade portuguesa? A multiplicação incessante de estímulos digitais, a
omnipresença das plataformas de entretenimento e a lógica algorítmica que
privilegia o imediato, o breve e o emocionalmente apelativo parecem concorrer
para uma progressiva atrofia da atenção prolongada. O fenómeno tem sido
analisado por diversos estudiosos da cultura contemporânea, que assinalam a
transição de uma “cultura do texto” para uma “cultura do ecrã”, na qual a
profundidade cede frequentemente à velocidade e a reflexão é substituída pela
reação.
Não
hesito, por isso, em admitir que percecione, no contexto nacional, sinais de
uma certa indolência intelectual — não como traço ontológico de um povo, mas
como sintoma de um ambiente saturado de entretenimento permanente. O consumo
contínuo de conteúdos audiovisuais, séries, vídeos de curta duração e fluxos
informativos fragmentários tende a reduzir o espaço mental disponível para a
leitura exigente, para o ensaio crítico e para a meditação cultural. A
consequência não é apenas a diminuição do número de leitores ativos, mas a
rarefação do diálogo intelectual sustentado.
Importa
sublinhar que esta realidade não se apresenta como fatalidade universal. Em diversos
países europeus e americanos, publicações centradas na Cultura, na Educação e
no pensamento crítico continuam a mobilizar públicos amplos e fiéis. No Reino
Unido, a Times Literary Supplement
mantém uma tradição consolidada de crítica literária e ensaísmo especializado,
contando com uma comunidade internacional de leitores. A The Economist, ainda que predominantemente dedicada à análise
política e económica, integra secções culturais de grande densidade interpretativa,
lidas por centenas de milhares de assinantes.
Nos
Estados Unidos, a The New Yorker e a The Atlantic demonstram que o ensaio
longo, a reportagem aprofundada e a crítica cultural rigorosa podem coexistir
com o sucesso editorial e a relevância pública. A Harvard Educational Review, especializada no domínio educativo,
constitui exemplo de publicação académica que alcança impacto significativo no
debate pedagógico e social.
Em
França, a Revue des Deux Mondes
permanece como espaço de reflexão literária e política, enquanto em Espanha a Revista de Occidente continua a afirmar
uma tradição ensaística que remonta ao século XX. Estes casos evidenciam que
existe, quando sustentado por hábitos culturais consolidados e por políticas de
valorização do pensamento crítico, um público consistente para publicações de
elevada exigência intelectual.
Acresce
que a lista de destinatários do “Primeira Página” incluía um número
significativo de diretores de escolas, professores, advogados, arquitetos,
engenheiros, médicos, políticos e jornalistas — profissionais cuja formação
pressupõe contato regular com leitura especializada e análise conceptual. Ainda
assim, apenas quatro leitores respondiam regularmente, comentando cada edição
com atenção e generosidade intelectual. É de realçar que esses quatro
interlocutores fiéis pertencem ao meu círculo mais próximo de amizade.
A
experiência deixou-me, assim, uma dupla herança: por um lado, a satisfação
íntima de um projeto realizado com dedicação e coerência; por outro, a
consciência inquietante de que a vitalidade cultural de uma comunidade não
depende apenas da existência de iniciativas, mas da disposição efetiva para as
acolher, ler e discutir. Onde essa disposição enfraquece, mesmo as propostas
mais empenhadas tendem a dissolver-se no silêncio.
Talvez
o desafio maior não resida na escassez de meios tecnológicos ou na ausência de
canais de distribuição — hoje mais acessíveis do que nunca — mas na
reconstrução de uma ética da atenção, de um compromisso renovado com a leitura
como exercício de liberdade intelectual. Sem essa revalorização, qualquer
empreendimento cultural corre o risco de se converter num monólogo, por mais
nobre que seja a sua intenção.

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