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Ermida da Ascensão de Cristo

Convém afirmá-lo com nitidez, quase contrariando esse impulso, tão humano, de atenuar o juízo: a ermida da Ascensão de Cristo situa-se hoje numa zona de fronteira, perigosamente tangente a uma perda definitiva. Não estamos perante uma conjectura distante, nem diante de um alarmismo de ocasião, trata-se, isso sim, de um processo em marcha, perceptível, acumulativo, quase paciente na sua progressão. Aquilo que ainda resiste, erguido contra a erosão do tempo, já não assegura, por si mesmo, a continuidade; pelo contrário, revela, numa espécie de eloquência muda, a vulnerabilidade intrínseca de tudo quanto não é amparado.

Não basta, por conseguinte, reconhecer-lhe o valor histórico, estético ou simbólico. Nem sequer é suficiente convocar a memória erudita, alinhando cronologias, nomes ilustres, referências bibliográficas. A consciência patrimonial, quando não se converte em gesto, em decisão concreta, arrisca degradar-se em contemplação estéril, quase decorativa. Exige-se, antes, uma ação efetiva, célere, deliberada, porque o tempo, neste domínio, está longe de ser neutro, nunca o foi. Cada adiamento acentua o desgaste, cada hesitação aprofunda a erosão.

As entidades responsáveis, municipais, patrimoniais, administrativas, não podem persistir numa lógica de suspensão indefinida, como se o diferimento fosse, em si mesmo, uma solução. O levantamento arquitetónico realizado em 2005, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa, não constitui um episódio avulso, nem um gesto inconsequente, equivale, em rigor, a um reconhecimento técnico de que o edifício evidenciava já então sinais claros de fragilidade. Um levantamento é, por natureza, um ato inaugural, quase um prelúdio da intervenção. Reduzi-lo a documento arquivado equivale, no mínimo, a converter o diagnóstico em forma de cumplicidade passiva.

Importa perceber que o que aqui está em causa ultrapassa largamente a materialidade de um templo de pequenas dimensões. Discute-se, no fundo, uma ideia mais ampla, a relação de uma cidade com o seu próprio legado. E, nesse plano, impõe-se a interrogação: poderá uma urbe eximir-se à responsabilidade pelo património que a constitui? Cada estrutura herdada, cada vestígio edificado, traduz uma manifestação visível da sua identidade, um rosto oferecido ao olhar exterior. Lisboa, que se afirma como destino cultural, como território de memória e de apurada expressão arquitetónica, não pode ignorar os sinais de declínio daqueles espaços menos evidentes, menos espetaculares, mas não menos significativos.

A ermida da Ascensão de Cristo ocupa, precisamente, esse domínio discreto. Fundada em torno de 1500 por António Simões de Pina (?-?), atravessou séculos com uma espécie de obstinação silenciosa, quase uma fidelidade a um enigma que nunca se deixou inteiramente decifrar. Resistiu a cataclismos, a reformas, a sucessivas metamorfoses urbanas. Há, na sua permanência, algo de profundamente revelador, não a imponência do monumental, mas a persistência do modesto, do que subsiste sem proclamação.

E, todavia, essa capacidade de resistência não é ilimitada. Aquilo que durante séculos sobreviveu à violência abrupta dos acontecimentos históricos encontra-se agora ameaçado por um fenómeno mais difuso, mas não menos eficaz, a erosão lenta da negligência. A matéria degrada-se, os elementos cedem, a coerência estrutural dissolve-se, não por um evento singular e devastador, mas por uma acumulação de ausências, pequenas, quase imperceptíveis, mas contínuas.

Júlio de Castilho (1840-1919) reconhecia já, recuando aos ecos do século XVI, a relevância deste espaço; Norberto de Araújo (1889-1952) evocava-o com uma ternura que hoje se lê como presságio. A ermida foi abrigo, foi sede paroquial, foi lugar de encontro e de ritual. Nela se entrecruzaram existências, práticas, gestos diários que estruturavam o tempo e a comunidade. Essa densidade vivencial, porém, rarefaz-se. O edifício permanece, mas a vida que o sustentava retirou-se, deixando para trás um invólucro progressivamente exposto.

Dir-se-ia, evocando Martin Heidegger (1889-1976), que o espaço deixou de ser habitado no sentido mais pleno do termo. Já não é guardado, já não é resguardado, e, por isso, começa a deslizar para fora do campo do significado. Subsiste fisicamente, é certo, mas a sua presença tornou-se precária, quase espectral, como se os seus contornos vacilassem.

Há, neste processo, uma inversão que inquieta. Aquilo que resistiu ao estrondo da história sucumbe agora ao silêncio da omissão. Não se trata de uma fatalidade inscrita na ordem natural das coisas, como sugeriria a metáfora da entropia; trata-se, antes, de uma consequência direta da inércia. E aquilo que nasce da letargia pode, deve, ser interrompido.

Porque existe um limiar, difícil de fixar mas impossível de ignorar, a partir do qual a recuperação se torna impraticável. A ermida aproxima-se desse ponto. Ainda é, importa sublinhá-lo, mas começa já, de modo quase imperceptível, a deixar de ser. E talvez o mais inquietante resida precisamente nessa transição discreta, quase invisível, que não convoca escândalo nem urgência mediática.

Situada na Calçada do Combro, n.º 74, em Lisboa, a ermida inscreve-se num tecido urbano denso, onde o dia-a-dia prossegue, alheio, quase indiferente, à fragilidade que ali se acumula. Entre o fluxo dos transeuntes e a indiferença apressada da cidade, permanece, discreta, como se aguardasse um gesto que tarda.

Se recuarmos ao momento da sua fundação, percebemos melhor a extensão do tempo que ali se condensa: mais de quinhentos anos de existência, atravessando uma das épocas mais intensas da história portuguesa, marcada por descobertas, transformações sociais e um fervor cultural que redesenhou consciências e horizontes. A ermida subsiste, assim, como testemunho inequívoco desse período denso, não pela monumentalidade ostensiva, mas pela resistência silenciosa de uma arquitetura que presenciou gerações e acontecimentos. As suas paredes, carregadas de memória sedimentada, oferecem hoje prova cabal de uma época vibrante que se anuncia não em palavras, mas na persistência discreta do que se manteve, intacto, através dos séculos.

Quando desaparecer não haverá ruído proporcional à perda. Apenas um vazio, uma ausência silenciosa, como convém às estruturas que sempre habitaram a margem do protagonismo. Mas esse emudecimento não deve iludir-nos. Uma cidade que consente perdas desta natureza, evitáveis e progressivas, fragiliza-se naquilo que tem de mais essencial, a sua continuidade simbólica, a sua capacidade de se reconhecer no que herdou.

Salvar a ermida da Ascensão de Cristo não é, portanto, um gesto acessório, nem um capricho de erudição patrimonial. É um ato de responsabilidade, cultural, histórica e ética. É, em última análise, uma escolha sobre o tipo de cidade que se deseja preservar, uma que cuida, ou uma que esquece.

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