D.
Rodrigo Maria Berquó (1839-1896), nascido no Rio de Janeiro e formado em
arquitetura e engenharia, chegou às Caldas da Rainha no ano de 1888 com um
desígnio claro: transformar a cidade, o Hospital Termal e o seu entorno numa
experiência singular de integração entre saúde e urbanismo. Como diretor do
Hospital Termal até ao ano de 1896, Berquó exerceu competências que
transcenderam a mera administração hospitalar. Sob a sua supervisão
encontravam-se os anexos do hospital, a Mata Rainha D. Leonor, o Parque D.
Carlos I e a própria estrutura urbanística da vila. Em demonstração da sua
capacidade de intervenção e da confiança nele depositada, chegou mesmo a
assumir a presidência da Câmara Municipal durante o último ano da sua vida,
como se o tempo, já escasso, exigisse-lhe ainda uma derradeira camada de
atuação sobre a cidade que ajudava a moldar. Homem de ação, muito inquieto e
extremamente ambicioso, Berquó não se contentava com a preservação do já
existente, aspirava à transformação, à inovação e à criação de um legado
duradouro, no qual cada detalhe arquitetónico e urbanístico se constituísse
como testemunho da sua visão.
O
contraste com o seu sucessor, José Filipe de Andrade Rebelo (1838-?), não podia
ser mais evidente. Enquanto Berquó planeava e executava com ambição quase
teatral, Rebelo, figura mais administrativa do que visionária, tomou decisões
que ainda ecoam, negativamente, nas pedras silenciosas dos Pavilhões do Parque.
Caldas
da Rainha não se explica apenas por mapas ou datas; pertence àquelas cidades
raras que só se compreendem pelo rumor subterrâneo que a sustenta. A força das
suas águas termais, que brotam da terra como se carregassem uma memória
anterior à própria cidade, determinou a forma e o espírito da vila de então. A
arquitetura, ali, nunca é neutra; dialoga sempre com algo mais antigo, por
exemplo, com a geografia e com a própria história das águas.
É
costume dizer-se que arquitetura é pensamento solidificado. Mas nos Pavilhões
do Parque, surge como conversa prolongada entre a água e a pedra, interrompida
por gerações que tentaram dar forma a uma utopia. O conjunto edificado é mais
do que um abrigo; é gesto de ordem, ambição e prestígio. Inspirada por
correntes francesas, a linguagem formal impõe simetria, pátios organizados e
fachadas cerimoniais. Mas, sob a disciplina rígida da razão iluminista,
insinua-se a inquietação romântica. O jardim inglês, por exemplo, não se impõe,
revela-se, cuidadosamente encenado, um palco de delicada natureza e profundo
sentimento.
É
neste cenário que Berquó atua, não apenas como arquiteto, mas como encenador
urbano. O Parque D. Carlos I não é apenas um espaço verde, é uma estratégia.
Lago, caminhos, zonas de permanência, coreto e áreas para jogos e passeios
foram pensados para transformar o lazer em parte da cura, a contemplação em
terapia. Houve muita resistência, absurda burocracia e inúmeros conflitos, pois
qualquer burgo nunca se deixa transformar sem fricção. Mas Berquó avançou,
integrando inovação técnica, materiais modernos como o ferro e o vidro, e uma
estética que quase se aproxima da poesia. O chamado “Céu de Vidro” permitia que
a luz entrasse filtrada, criando um efeito teatral, uma interação entre a natureza,
a arquitetura e o ser humano.
O
projeto do hospital revela ainda a atenção de Berquó à experiência do
utilizador. A entrada não é ponto fixo, mas percurso; a antiga Casa da
Convalescença funciona como antecâmara, e a galeria coberta em ferro e vidro,
reforça a continuidade entre exterior e interior. Cada pavilhão, cada galeria,
cada espaço de serviço (cozinhas, lavandarias, depósitos), sustenta o
funcionamento invisível, enquanto a galeria central articula circulação e
permanência, conectando o agregado ao verde circundante, às sebes e jardins,
criando uma relação simbólica com a natureza.
Mas
o destino interveio. Em março de 1896, Berquó sofreu um ataque cardíaco e
morreu, deixando o hospital e o parque incompletos. O sétimo pavilhão e o
observatório meteorológico nunca foram construídos, e o sonho europeu de Berquó
transformou-se em tragédia silenciosa. O que poderia ter sido uma estância
termal de referência tornou-se um edifício incompleto, sujeito à ocupação
provisória e à adaptação pragmática: quartéis, escolas, bibliotecas. Cada uso
deixou marcas, tornando os Pavilhões do Parque um palimpsesto histórico,
testemunho vivo de intenções interrompidas e adaptações sucessivas.
O
tempo continuou o seu trabalho: degradação, infiltrações, vegetação a crescer
entre tijolos e pedras, grafitis, tetos vazios e incêndios. Mas mesmo assim, os
pavilhões permaneceram. Nem ruína total, nem monumento acabado, mas presença
intermédia, marco discreto na paisagem urbana. E emerge, inevitável, a
interrogação que atravessa séculos de silêncio: qual o destino destes
edifícios? Preservar, reabilitar, reinventar? A resposta jamais se apresenta
simples, pois decidir implica a árdua tarefa de escolher, de excluir, de
ponderar entre a fidelidade à memória e a exigência das necessidades
contemporâneas. Há sempre a promessa de transformação, plácito que, tantas
vezes, se revela um engodo, como tantos que Caldas da Rainha já conheceu e que,
por breves instantes, trouxeram esperança apenas para a desilusão suceder.
Enquanto
isso, o Parque D. Carlos I mantém-se em seu respirar contínuo, testemunho
resiliente da história, mas simultaneamente vítima dos desmandos políticos e
das oscilações de atenção que a cidade lhe concede. O parque constitui quase um
ritual: o lago devolve o reflexo da luz com calma deliberada, o coreto murmura
memórias de concertos que o tempo não apagou, os campos de ténis e os cafés
persistem em prometer lazer, e as esculturas, marcadas pela sujeira, pela
negligência, quiçá pelo abandono, dispersas pelo espaço, recordam, de forma
eloquente, que a arte e a natureza coexistem para narrar a história profunda da
cidade e a ancestralidade das suas águas termais.
A
cidade serpenteia entre o parque impregnado de nostalgia e os pavilhões
relegados ao abandono, lembrando-nos de que o tempo é simultaneamente artífice
e destruidor, e que certos sonhos, ainda que inacabados, persistem em moldar a
identidade de um lugar, imprimindo-se de forma indelével no espírito daqueles
que nele caminham.
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