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A gramática da podridão

Há um analfabetismo particularmente perigoso, talvez o mais nocivo de todos, porque não se revela na incapacidade de ler um livro, interpretar um verso de Camões (1524?-1580) ou compreender uma página de História. Esse, apesar de tudo, ainda admite remédio. O outro, mais viscoso, mais subterrâneo, alastra entre corredores partidários, gabinetes acarpetados e salas onde se sorri em excesso. Refiro-me ao analfabetismo moral na política.

Desde muito novo que observo criaturas desse género. Figuras que aprenderam cedo a arte da dissimulação, quase como quem frequenta uma academia clandestina de cinismo. Homens, e mulheres também, importa dizê-lo, que sobem degrau a degrau não pelo mérito, nem pela inteligência, muito menos pelo serviço público, mas através da intriga, do favor, da manipulação paciente e daquela habilidade profundamente ibérica de transformar cumplicidades em moeda corrente. Há nisto muito de medieval. Mudaram-se os trajes, desapareceram os castelos, mas o feudo permanece intacto. Maquiavel (1469-1527), tantas vezes mal lido, compreenderia estes mecanismos com uma facilidade desconcertante, porque conhecia a anatomia do poder e a facilidade com que os homens trocam princípios por proximidade ao trono.

A corrupção dentro de um partido político, ou mesmo de um Movimento de Cidadãos, constitui, aliás, um microcosmo perfeito do que depois se reproduz numa câmara municipal, numa junta de freguesia, numa secretaria de Estado ou num ministério. Primeiro tolera-se a pequena deslealdade, quase sempre embrulhada em justificações miseráveis, “foi preciso”, “não havia alternativa”, “todos fazem o mesmo”. Depois normaliza-se o favorecimento, distribuem-se lugares, silenciam-se consciências, promovem-se os obedientes. E quando se dá por isso, o organismo inteiro já apodreceu. Não de repente, atenção, a decomposição política raramente chega com estrondo. Surge devagar, com a suavidade de uma infiltração num edifício antigo.

Hannah Arendt (1906-1975) escreveu longamente sobre a banalidade do mal, essa capacidade aterradora de transformar o inadmissível em rotina administrativa. Talvez seja precisamente isso que acontece quando a corrupção deixa de provocar indignação e passa apenas a suscitar encolheres de ombros. O escândalo deixa de ser escândalo, torna-se hábito. Uma sociedade que perde a faculdade do espanto moral começa lentamente a perder-se a si própria.

O mais inquietante, talvez, não seja sequer o roubo material. Portugal, infelizmente, habituou-se a conviver com indecências como quem já não reage ao sino da igreja da aldeia. O problema maior reside na erosão invisível da confiança coletiva. Quando um cidadão deixa de acreditar nas instituições, quando suspeita que tudo se decide em almoços discretos, em telefonemas tardios ou em amizades antigas, a democracia começa lentamente a transformar-se numa peça de teatro burocrático. Conserva os adereços, mantém os discursos, preserva as cerimónias, mas perdeu substância. Platão (428/427 a.C.-348/347 a.C.) receava precisamente isto: o instante em que a polis deixa de ser governada pela virtude e passa a ser administrada pelo apetite.

E há ainda um detalhe particularmente revelador: muitos destes indivíduos não possuem verdadeira cultura política. Decoram slogans, repetem palavras como “transparência”, “proximidade” ou “participação”, porém desconhecem a espessura ética que sustenta uma república digna desse nome. Têm diplomas, frequentemente exibidos com pompa, muitos deles adornados por uma retórica académica irrepreensível, mas carecem de educação cívica elementar. Confundem poder com estatuto. Influência com superioridade. Cargo público com propriedade privada.

E, na verdade, pouco adianta escrever teses de mestrado ou doutoramento repletas de formulações sofisticadas sobre democracia, cidadania ou ética pública se, depois, no interior de um partido político ou de um movimento de independentes, se cultiva precisamente o contrário: a discórdia calculada, a mentira conveniente, o engodo permanente, a sabotagem discreta dos outros. Há quem cite Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) em conferências e pratique César Bórgia (1475-1507) nos bastidores. Sobem degraus pelas costas alheias, atropelam consciências, instrumentalizam amizades e passam por cima de qualquer limite moral com a serenidade burocrática de quem já perdeu a capacidade de distinguir ambição de degradação.

E os que nunca cultivaram verdadeiramente o hábito da leitura revelam-no depressa. Na pobreza vocabular. Na incapacidade de articular pensamento complexo. Na assustadora superficialidade com que analisam problemas públicos. Nietzsche (1844-1900) dizia que certas convicções não passam de prisões intelectuais decoradas com palavras sonoras. Talvez tivesse razão. Há políticos que falam incessantemente e, ainda assim, não dizem rigorosamente nada.

Cícero (106 a.C.-43 a.C.), na Roma antiga, já advertia que a corrupção destrói primeiro os costumes antes de destruir as leis. Talvez seja essa a tragédia contemporânea. As normas continuam escritas, os códigos permanecem intactos, os tribunais funcionam, as eleições realizam-se. Contudo, por baixo da superfície institucional, instala-se uma espécie de desertificação moral. E um país pode sobreviver durante décadas com dificuldades económicas, com crises financeiras ou com governos medíocres. O que dificilmente suporta é a normalização da indignidade.

É assustador, sim. Não apenas pelo dinheiro desviado, pelas carreiras fabricadas ou pelos favores obscenos. Assusta porque habitua. E quando uma sociedade se habitua à corrupção, começa lentamente a perder a capacidade de distinguir o escândalo da rotina. A partir daí, resta pouco. Muito pouco.


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