Sempre
tive dificuldade em assistir a uma injustiça e fingir que não a vi. É daí que
vem a minha capacidade crítica. Desde cedo, as respostas prontas me pareceram
insuficientes. Queria saber por que razão as coisas aconteciam, quem decidia,
quem beneficiava, quem ficava prejudicado. Pensar, para mim, nunca foi apenas
acumular conhecimento. Foi aprender a desconfiar das certezas demasiado
cómodas.
A
cultura teve um papel decisivo nesse percurso. Os livros ensinaram-me que
nenhuma época possui o monopólio da verdade; a História mostrou-me quanto podem
ser perigosas as certezas absolutas; a literatura revelou-me a complexidade
humana; o teatro ensinou-me a olhar uma mesma personagem de diferentes ângulos.
A Universidade acrescentou a esse caminho a disciplina do estudo, o confronto
com outras ideias e a exigência de fundamentar aquilo que se afirma. Entre os
palcos, os livros, a escrita, a Universidade e a intervenção cívica, fui
consolidando uma convicção simples: compreender não significa necessariamente
concordar, e discordar não dispensa compreender.
É
também por isso que a minha crítica política nunca foi dirigida à política
enquanto atividade. Pelo contrário, considero-a indispensável numa sociedade
democrática. O que detesto são os maus políticos: os incompetentes que ocupam
cargos sem preparação, os desonestos, os corruptos, os oportunistas, os que
confundem autoridade com arrogância, os que prometem tudo para conquistar votos
e esquecem rapidamente aquilo que prometeram. Um cargo público deveria exigir
mais responsabilidade, não conceder mais privilégios.
Durante
muitos anos fartei-me de criticar a atuação dos partidos em matérias que
considerei erradas, o meu incluído. Se alguém que apoio toma uma decisão que
considero injusta, criticá-la-ei; se alguém de quem discordo faz alguma coisa
justa, reconhecê-lo-ei. A crítica perde a sua dignidade quando se transforma em
defesa automática dos nossos.
A
minha exigência é, no fundo, bastante elementar: quero políticos competentes,
honestos, responsáveis e conscientes de que o poder lhes é confiado
temporariamente. Não espero santos. Espero pessoas à altura da responsabilidade
que aceitaram. Por detrás de cada decisão política existem vidas concretas,
famílias, idosos, crianças, trabalhadores, doentes, territórios e sonhos.
Quando um político falha, raramente é apenas uma abstração administrativa que
fica para trás.
Os
direitos humanos são, para mim, outra medida dessa responsabilidade. Não podem
ser princípios utilizados apenas quando favorecem a nossa posição. A dignidade
de uma pessoa não depende da sua ideologia, nacionalidade, riqueza ou simpatia
política. E defender a liberdade de quem pensa como nós é fácil. O verdadeiro
teste surge quando temos de defender a liberdade de quem nos incomoda.
Não
reivindico, por isso, o privilégio de ter sempre razão. Seria absurdo. Já mudei
de opinião muitas vezes, porque os factos, os livros e a própria experiência
nos obrigam, por vezes, a rever aquilo que julgávamos adquirido. Considero mais
importante conservar a capacidade de perguntar do que proteger uma certeza por
orgulho.
Continuo
a criticar porque continuo a acreditar. Se tivesse deixado de acreditar na
possibilidade de um mundo melhor, mais justo e mais respeitador da dignidade
humana, a crítica transformar-se-ia em mero cinismo. Não é isso que procuro.
Quero uma sociedade em que o poder seja escrutinado, a incompetência não seja
premiada, a corrupção não seja tolerada e a liberdade de pensar não seja
confundida com deslealdade.
A
minha crítica, portanto, não é uma guerra contra a política. É uma exigência
dirigida a quem a exerce mal.
Até
dentro do meu próprio partido sou um crítico acirrado, pois não admito ver
tantos incompetentes e corruptos a tentar conquistar espaço apenas para se
locupletarem com o ordenado e o estatuto que um possível cargo lhes pode
proporcionar. Não me incomoda a ambição quando ela nasce do desejo de servir. O
que rejeito é a ambição que transforma a política numa carreira pessoal e o
poder num benefício a conquistar.
Recuso-me a considerar normal aquilo que considero errado. Enquanto conservar essa liberdade interior, continuarei a perguntar, a discordar e, quando necessário, a dizer NÃO. Não por prazer de contrariar, mas porque ainda acredito que vale a pena deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos.

Comentários
Enviar um comentário