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Zangaram-se as comadres

O peixe tem uma virtude que falta a muita gente: não consegue disfarçar durante muito tempo aquilo que é. Pode repousar sobre uma cama de gelo, exibir escamas luzidias e ocupar a banca mais vistosa do mercado. Quando a frescura se perde, porém, nem o pregão mais eloquente consegue enganar o freguês.

Foi num mercado desta natureza, povoado de ambições, suscetibilidades e pequenas vaidades, que duas figuras, durante anos dadas como boas companheiras de negócio, acabaram por se desentender. Partilhavam o estabelecimento, distribuíam tarefas e exibiam cordialidade perante a clientela. Até que o responsável pelo mercado decidiu confiar a outras mãos as bancas que uma delas vinha administrando.

A notícia correu com a rapidez de uma sardinha atirada para a frigideira. A visada não se retirou em silêncio. Abriu o livro de contas e recordou o trabalho realizado: pescadas bem tratadas, linguados criteriosamente escolhidos, encomendas satisfeitas, clientes conquistados e negócios estabelecidos para lá das fronteiras do mercado. A julgar pelo inventário, a sua banca não se limitava a vender peixe. Aspirava ao reconhecimento internacional.

Também não faltavam projetos, alguns ainda por concretizar, mas já devidamente inscritos no catálogo das boas intenções. O chefe do mercado teria, ao que se conta, outra opinião. Considerava que o empenho não correspondia às suas expectativas e que a articulação com as restantes bancas deixava a desejar. Numa conversa menos feliz, terá recorrido a uma expressão pouco abonatória sobre a desenvoltura da vendedora.

A resposta veio em forma de balanço. A mulher recordou as horas dedicadas ao negócio e a disponibilidade demonstrada numa ocasião de temporal, quando percorreu as bancas para ajudar quem precisava. A gratidão, contudo, é um peixe de conservação difícil. Quando não chega a tempo, acaba por ser servida fria, geralmente acompanhada de uma conta antiga.

A contenda passou então para assuntos mais delicados: o rigor, a transparência, o planeamento e a própria definição de estratégia. A vendedora entendia que o mercado precisava de regras claras e respeito pelas hierarquias. O chefe parecia convencido de que a casa necessitava de outra orientação. E assim se chegou à velha arte de discutir sem que ninguém admita ter começado.

Por detrás das bancas, entretanto, a vida prosseguia, com os seus pequenos conciliábulos e as suas grandes ambições. Meia dúzia de peixeiros, ligados a uma estrutura que se apresenta como oficial, acompanhavam com particular atenção os movimentos da praça. Não se lhes conhece especial talento para amanhar sardinhas, mas revelam apreciável entusiasmo quando se trata de discutir o futuro do mercado e o lugar que cada um nele poderá vir a ocupar.

Ao que parece, a ideia de levar o responsável pelo mercado a concorrer a uma posição de maior relevo, noutra praça, tem despertado algumas conversas. A ambição, quando acompanhada de trabalho e competência, merece respeito. O problema começa quando as expectativas crescem mais depressa do que os recursos disponíveis e as promessas parecem precisar de uma embarcação maior do que aquela que as transporta.

Nessas alturas, toda a gente descobre a importância de um bom capitão. A sua presença dá confiança à tripulação, anima os investidores e, sobretudo, permite sonhar com mares mais generosos. Resta saber se a embarcação está preparada para a viagem ou se ainda precisa de remendar o casco. Nos mercados, como no mar, a esperança é uma mercadoria abundante; a sustentabilidade já exige contas mais cuidadosas.

Não sabemos se os seis peixeiros têm planos concertados, se trocam apenas impressões ou se gostam simplesmente de conversar ao balcão, entre uma sardinha assada e um copo de vinho. A vida das associações, tal como a dos mercados, alimenta-se de opiniões, expectativas e reuniões que, por vezes, produzem mais calor do que luz. E, quando chega a hora de tomar decisões, até os mais fervorosos defensores da concórdia descobrem diferenças de interpretação.

Entretanto, aproximam-se feiras, celebrações e visitas importantes. A vendedora afastada receia que a mudança perturbe preparativos que acompanhava pessoalmente. O chefe terá entendido que a renovação era necessária. Cada qual ficou com a sua convicção, como dois peixeiros a disputar a frescura da mesma pescada.

A mulher anunciou que continuaria no mercado, embora deixasse de pertencer à associação de comerciantes pela qual ali chegara. Manteria o lugar e votaria segundo a própria consciência. Afinal, há quem confunda lealdade com obediência e divergência com deslealdade. Até num mercado de peixe deveria ser possível discordar sem perder o direito à palavra.

Enquanto isso, o gelo derrete, as facas cortam e os fregueses procuram saber se a pescada é fresca. Nas bancas vizinhas, uns reclamam reconhecimento, outros recordam favores antigos e há sempre quem se considere indispensável à prosperidade da praça. Os clientes, esses, continuam à espera. Querem peixe de qualidade, preços razoáveis e vendedores que não passem o dia inteiro a discutir quem merece ocupar a melhor banca.

Seria imprudente atribuir toda a razão a uma das partes. Cada desentendimento tem os seus antecedentes, as suas razões declaradas e aquelas que só o tempo permite compreender. Mas a pequena comédia humana dispensa, por vezes, grandes explicações: basta observar o que acontece quando as expectativas se cruzam, as suscetibilidades se agudizam e uma antiga cumplicidade deixa de funcionar.

Zangaram-se as comadres. Cada uma recorda o trabalho que fez, os favores que prestou e os agradecimentos que ficaram aquém do esperado. Os fregueses, entretanto, olham para o relógio. A hora de comprar aproxima-se do fim e ainda ninguém lhes explicou se a pescada de amanhã será melhor do que a de hoje.

Quanto à vendedora, ficará a cargo do tempo esclarecer o que as palavras de uns e de outros não conseguiram resolver. Nas praças públicas, as reputações são mercadoria delicada: basta um pregão mal calculado para que o rumor corra mais depressa do que qualquer esclarecimento.

E quando o mercado se enche de vozes, convém não esquecer uma velha regra da praça: os vendedores podem discutir entre si durante todo o dia, mas, no final, é a qualidade do peixe que determina quem regressa no dia seguinte.

Os que mais alto apregoam nem sempre são os que melhor servem a clientela.

 

 

Nota do autor: Esta crónica constitui um exercício de ficção satírica, escrito ao abrigo da liberdade criativa e da licença poética. O mercado, as bancas, os peixeiros e as peripécias narradas pertencem ao universo da criação literária. As personagens são construções ficcionais, e os diálogos, episódios e situações foram imaginados para fins humorísticos. A narrativa não pretende estabelecer factos relativos a pessoas ou entidades concretas. Como sucede com toda a sátira, a sua matéria-prima é a observação dos costumes humanos, com as suas ambições, contradições e pequenas comédias.

 

Comentários

vasco disse…
É mais ou menos isso!!!!!!!! e mais qualquer coisa

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