Um
fascista que recebeu inúmeras honrarias, mas não pagou pelos crimes que
cometeu.
A
História europeia possui uma habilidade desconcertante para dourar monstros com
verniz civilizacional. Presumivelmente porque os impérios sempre tenham
compreendido que a pedra, o bronze e a arquitetura ajudam a purificar a
memória. Erguem-se avenidas, inauguram-se monumentos, distribuem-se títulos
honoríficos, e, lentamente, o sangue desaparece da narrativa oficial. Fica
apenas o “estadista”, o “visionário”, o “rei modernizador”. Leopoldo II da
Bélgica (1835-1909) pertence precisamente a essa galeria de figuras que a
Europa tentou durante décadas contemplar sem olhar diretamente para as mãos.
Em
Bruxelas, ainda hoje, o seu nome permanece ligado a jardins, edifícios, projetos
urbanísticos e grandes obras públicas. Chamaram-lhe o “rei construtor”. E é
verdade que transformou parte da paisagem belga através de um programa ambicioso
de modernização arquitetónica. O problema, claro, reside na origem dessa
riqueza. As pedras elegantes da capital europeia repousam, em parte, sobre
cadáveres africanos.
Leopoldo
II compreendeu cedo aquilo que muitos monarcas europeus ambicionavam no século
XIX: sem colónias, não existiria verdadeira grandeza imperial. A Bélgica era
pequena, industrialmente promissora, mas geopoliticamente discreta. O rei
desejava mais. Ambicionava território, recursos, prestígio e, sobretudo, poder
pessoal. Como o governo belga hesitava em financiar aventuras coloniais,
decidiu criar algo quase obsceno à luz contemporânea: um país privado. O
chamado Estado Livre do Congo,
reconhecido internacionalmente na Conferência de Berlim (1884-1885), tornou-se
propriedade particular de Leopoldo II.
A
ironia histórica, quase grotesca, está no discurso utilizado para legitimar a
ocupação. Falava-se em progresso, ciência, evangelização, combate ao tráfico de
escravos. A Europa oitocentista apreciava profundamente estas máscaras morais.
Debaixo delas escondia-se, porém, um dos sistemas coloniais mais brutais da
modernidade.
O
Congo converteu-se numa gigantesca máquina de extração de marfim e borracha.
Para alimentar a procura internacional, implantou-se um regime de trabalho
forçado sustentado pelo terror. Aldeias destruídas. Execuções sumárias.
Mutilações. Corpos transformados em instrumento administrativo. A chamada
“Force Publique”, exército colonial ao serviço do rei, tornou-se sinónimo de
violência sistemática. Milhões de congoleses morreram durante aquele período,
embora os números exatos permaneçam objeto de debate historiográfico. Há
tragédias cuja dimensão desafiam até a estatística.
Hannah
Arendt (1906-1975) talvez reconhecesse aqui uma forma primitiva da
burocratização da barbárie. A violência deixava de ser explosão irracional para
se transformar em método de gestão económica. Cortavam-se mãos não apenas por
sadismo, mas como mecanismo contabilístico, prova macabra de munições
utilizadas e de produtividade colonial. Quando a administração substitui a
consciência, a crueldade torna-se rotina.
E,
no entanto, Leopoldo II morreu cercado de honras. Nenhum tribunal internacional
o julgou. Nenhuma estrutura jurídica da época ousou responsabilizar
verdadeiramente um soberano europeu pelos horrores cometidos em África. Joseph
Conrad (1857-1924), que testemunhou parcialmente a realidade congolesa,
converteria essa experiência em Heart of
Darkness (Coração das Trevas), livro onde a selva africana surge menos como
retrato do continente e mais como espelho da escuridão moral europeia.
Há
aqui uma lição amarga sobre a própria civilização ocidental. As sociedades
gostam de acreditar que o progresso moral acompanha inevitavelmente o desenvolvimento
material. Nem sempre acontece. Houve cidades iluminadas por eletricidade
enquanto impérios inteiros prosperavam sobre amputações, escravidão e cadáveres
distantes. O século XIX, tantas vezes celebrado como era do avanço científico,
produziu simultaneamente refinamento cultural e selvajaria industrializada.
Hoje,
algumas estátuas de Leopoldo II são contestadas ou removidas. Tarde demais. O
mármore possui uma estranha resistência ao remorso. Durante décadas, a Europa
preferiu admirar os palácios construídos com riqueza colonial em vez de
interrogar os fantasmas que os financiaram.
Inquieta-me!
Não apenas os crimes de Leopoldo II, mas a facilidade com que tantos homens
cultos, diplomatas, políticos e intelectuais aceitaram conviver com ele em nome
da ordem, do comércio e da grandeza imperial. O horror raramente triunfa
sozinho. Precisa quase sempre da cumplicidade elegante dos civilizados.
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