Possuo
uma relação serena com a morte. Não direi que a procuro compreender em toda a
sua vastidão, porque talvez nenhum ser humano o consiga plenamente, mas deixei,
há muito, de a encarar como uma adversária ou como uma ruptura absoluta. Sou
espírita desde 1983, ano em que me foi apresentada a obra de Allan Kardec
(1804-1869), bem como os escritos de José Herculano Pires (1914-1979) e de
outros pensadores que procuraram lançar alguma luz sobre uma das mais antigas
inquietações da humanidade.
Desde
então, a morte deixou de surgir aos meus olhos como um muro intransponível.
Passou a assemelhar-se mais a uma porta. Uma passagem que não sabemos abrir por
nós mesmos, uma soleira envolta em mistério, um limiar que apenas atravessamos
quando chega o momento.
Nunca
me habituei às manifestações excessivamente dramáticas que tantas vezes
acompanham a despedida de alguém. A dor existe, naturalmente. A saudade
instala-se. O vazio faz-se sentir. Contudo, por detrás dessas emoções permanece
em mim uma convicção tranquila: ninguém desaparece verdadeiramente.
Ao
longo dos anos vi partir familiares, conhecidos e companheiros de jornada.
Conheci pessoas cuja mera presença bastava para dominar um espaço, e outras que
habitavam os dias com uma serenidade silenciosa. Curiosamente, estas últimas
ensinaram-me uma das lições mais subtis da vida: nem sempre aquilo que mais se
faz notar é o que mais falta faz. Por vezes, a verdadeira grandeza revela-se
apenas na ausência.
Vi
partir os que tinham muito para dizer e os que pareciam já ter dito tudo. A
morte, curiosamente, não estabelece distinções. Não consulta estatutos, não
respeita calendários, não pede autorização para surgir. Chega ao humilde e ao
poderoso, ao jovem e ao ancião, ao célebre e ao desconhecido.
Com
o passar do tempo, porém, compreendi que não são apenas as pessoas que partem.
Também partem épocas. Também partem lugares. Também partem versões de nós
próprios. Encerram-se ciclos. Fecham-se capítulos. Dissolvem-se mundos que
julgávamos permanentes.
O
amigo que conhecemos aos vinte anos não é exatamente o mesmo aos cinquenta. A
rua da infância continua no mapa, mas já não existe da mesma forma dentro de
nós. Certas conversas extinguem-se para sempre; certos risos deixam de ecoar;
certas tardes sobrevivem apenas como um perfume remoto da memória. A vida
inteira parece organizar-se numa sucessão de chegadas e despedidas, de
encontros e afastamentos, de começos e encerramentos.
Por
isso os amigos que partem ocupam um lugar tão singular no coração. Não levam
consigo apenas a sua presença física. Levam expressões que ninguém mais
repetirá da mesma maneira, recordações partilhadas que só existiam porque duas
consciências as guardavam em simultâneo, pequenas cumplicidades que jamais
serão reproduzidas com absoluta fidelidade. Quando um amigo parte, extingue-se
uma biblioteca inteira de experiências comuns.
Ainda
assim, a amizade parece resistir à própria ausência. O afeto não se dissolve no
instante da morte. Continua a manifestar-se na lembrança inesperada, numa
fotografia esquecida entre páginas antigas, numa frase que regressa sem aviso,
numa música que, subitamente, devolve ao presente alguém que julgávamos
distante.
Recordo
frequentemente uma observação atribuída a diversos autores ao longo dos tempos:
morre verdadeiramente quem é esquecido.
Existe muita sabedoria nessa ideia. As civilizações antigas cultivavam a memória
dos seus antepassados porque intuíram, muito antes de nós, que recordar é uma
forma de preservar. Não por acaso, os romanos falavam da memória como um
património moral; não por acaso, tantas culturas ergueram monumentos,
escreveram epitáfios ou transmitiram histórias de geração em geração.
Quando
penso nos amigos e familiares que partiram, não os imagino encerrados num
silêncio definitivo. Vejo-os como viajantes que seguiram adiante por um caminho
que ainda não percorremos. Uns terão partido cedo demais, outros após uma longa
travessia. Uns deixaram assuntos por concluir, outros despediram-se quase em
paz. Cada percurso possui a sua singularidade. Cada existência encerra a sua
narrativa.
E
nós? Nós permanecemos, por enquanto, deste lado do horizonte. Persistimos a
recordar, a aprender, a continuar o trabalho inacabado dos dias, a guardar
nomes, rostos e gestos, a cultivar a gratidão por aqueles que cruzaram o nosso
caminho.
A
verdadeira medida de uma amizade não reside na duração da convivência, mas na
marca que permanece quando a presença física já não existe. E essa marca,
discreta mas persistente, continua a acompanhar-nos. Como uma luz ao longe.
Como uma voz que o tempo não consegue apagar. Como um abraço que,
estranhamente, a memória conserva vivo.
Os
amigos e familiares partem. Desaparecem os corpos, as vozes, o som dos passos.
Não partem, porém, os afetos que ajudaram a construir-nos. Esses permanecem.
Conservam-se porque cada pessoa que amámos continua a viver numa parcela
daquilo que somos.
Não
choro verdadeiramente os que partiram. Choro os que ficam e continuam a
desperdiçar o breve milagre da existência em conflitos estéreis, egoísmos e
intolerâncias. A morte ensina-nos todos os dias que somos passageiros; a vida,
porém, insiste em fazer-nos acreditar que somos permanentes. Talvez por isso
ainda nos custe compreender que o amor, a bondade, a gratidão, a fraternidade e
o perdão constituem o único legado capaz de sobreviver ao tempo.
A
maior homenagem que podemos prestar aos ausentes não é o lamento prolongado nem
a tristeza sem fim, mas o esforço sincero de viver de acordo com os valores que
tornam a humanidade mais digna de si própria. Porque, na realidade, aquilo que guardamos
dos que partiram não é apenas a memória. É também a Luz que deixaram acesa
dentro de nós.

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